Tuesday, February 24, 2009

Packing again

Pra que dia você quer?
Terça ou quarta da semana que vem
Townsville, né? Quantas pessoas?
Uma!
Ida e volta ou ida?
Só ida!!!



(após um breve silêncio, com um sorriso ainda maior no rosto)
É... tô deixando tudo pra trás!

***

Agora, lembrando da cena eu posso dizer que só não esperava que esse tudo significasse tanta coisa, esquecida ou descartada mesmo.

***

O aeroporto doméstico de Perth não tem aquela sanfoninha que liga a aeronave ao prédio, então saí correndo pela pista em direção à escadinha. Não tinha dado mais do que dez passos quando levei uma bronca do comandante que vinha logo atrás de mim. Parei, me ajeitei, passei a só andar rápido, apreensiva, só esperando pra ver se levava uma segunda bronca, mas ele só ria. Afinal, foi ele mesmo quem disse que, sim, eu tava muuuuito atrasada, e ainda mais que eu já tava meio traumatizada de termos sido encaradas pelo avião inteiro quando atrasamos a volta de Bali - mas ele não sabia disso. Ele também não sabia o porque do meu atraso, senão talvez não tivesse me deixado embarcar.

No saguão, 10 minutos antes, o moço da companhia me dizia, sorrindo “você esteve muito perto de perder esse vôo”. “Você não tem idéia do quão perto eu estive de perder esse vôo”, respondi, rindo, ainda meio nervosa e tentando não pensar que talvez tivesse algum motivo pra não viajar aquele dia, ainda mais com tanta gente pedindo pra ficar um tempo a mais, ir só na semana seguinte. Eu não podia. Tinha que resolver as coisas antes de começar as aulas, mas só ficava imaginando a cara das pessoas “tá vendo, eu falei que ela devia ter ido na semana seguinte” se algo acontecesse. Será que não era um monte de sinais?

Já não tinha conseguido resolver o que queria em Perth, faltou um monte de lugar que queria visitar, meu trabalho de DP tava errado. E ainda tinha mais essa agora: depois de um dia inteiro arrumando a mala e me desfazendo de todos os itens não-fundamentais à minha existência até chegar aos 23 quilos de bagagem pra ser despachada mais 7 quilos de bolsa de mão permitidos em viagem doméstica (o que resultou num monte de presente pras minhas amigas), resolvi checar minha bolsa e bateu o desespero.

Já eram mais de 11 da noite. O vôo saía às 00h40. Tentei resolver, mas não consegui. Faltando 10 minutos pra meia-noite deixei a maior zona da história daquela casa pra minha roommate arrumar e fomos embora. Graças às mil conversões proibidas do meu amigo, chegamos no aeroporto antes do avião decolar, mas não antes do check-in ter fechado. O moço do guichê foi mega simpático, religou a maquininha e me deixou embarcar.

A indicação de que deveria ir pro portão 4 veio quase ao mesmo tempo em que a mocinha do auto-falante chamava meu nome dizendo que aquela era a minha última chance. Eu tava louca pra entrar, reclamando que ia perder o avião, mas o outro moço encanou que queria que eu o autorizasse a passar o tal do segundo raio-x. “There is no problema”, ele repetia todo feliz de saber uma palavra em português. Eu replicava que se perdesse o avião teria, sim, muito “problema”. No fundo só pensei que pra gostar de falar “problema” tinha mesmo que ser segurança; “tudo bem” é tão mais bonito...

Na pressa, me despedi correndo de todo mundo e entrei pelo tunelzinho que ia me levar à pista onde levei a tal bronca. Segundo minha amiga, cuja câmera acabou a memória de tantas fotos e vídeos que ela fez enquanto arrumava a mala e corríamos pro aeroporto, a cena foi quase poética, com a porta fechando atrás de mim. Ela tinha pedido pra mandar uma mensagem quando estivesse sentada, mas o comissário me viu com o celular e me deu outra bronca, ainda sorrindo. E eu, com o coração disparado ainda, só dava graças aos céus que tudo deu certo e ninguém nem percebeu a falta do passaporte.

Único documento oficial, como gosta de relembrar meu pai, sem ele, não se pode nem entrar em balada, como comprovou o amigo do carro, e eu consegui perder o meu no dia da viagem. Na verdade, até então eu não sabia disso, mas um dia antes, ao despachar uma mala pro Brasil, deixei meu passaporte no Post Office (correios).

Isso muito podia ser um sinal que eu não deveria viajar, que alguma coisa iria acontecer com o avião. Mas, na pressa de me despachar, o moço não pesou minha mochila ou a bagagem de mão nem muito menos olhou o papel do vôo ou qualquer identificação. Só conferiu o nome e boa viagem. Daí, depois que eu cheguei, inteira, tudo vez um pouco de sentido. Talvez minha aflição estivesse certa. Se eu tivesse chegado antes eles talvez eles tivessem sido mais rígidos. Talvez o motivo pra eu quase não viajar era pra acabar viajando.

Farewell week

No exato momento em que eu colocava a última leva de garrafas de cerveja no latão de lixo eu vi a dona da casa saindo do carro. Oito e quarenta da manhã de um domingo, quase uma sacanagem, mas a gente avisou que não ia renovar o contrato só duas semanas antes de sair e ela sempre foi tão solícita que valia um esforço pra conseguir logo alugar a tal da unit.

O problema é que a noite anterior tinha sido a minha festa de despedida e, consequentemente, despedida da casa. O povo até que se comportou, mesmo porque grande parte deles eu já tinha visto naquela semana nas minhas outras despedidas, mas mesmo assim tinha garrafinha de cerveja e cidra pra tudo quanto é lado, além de salgadinho, patê, queijo, copos com resto de caipirinha dentro e umas duas ou três garrafas de vodka vazias. Mesmo que a gente tivesse um lixo decente não caberia tudo. No balde vermelho que desde que chegamos usávamos como lixo, então, nem se fala. O povo tinha um porquê de deixar tudo espalhado.

Até a semana anterior eu não sabia que dia ia embora de Perth sentido Townsville, mas a falta de emprego pós-Bali (quando em vão resolvi ser sincera e avisar na balada que ia ficar as próximas duas semanas fora, mas que queria voltar a trabalhar mais dois finais de semana pra então ir embora de vez) me fez adiantar os planos. Comprei a passagem pra quarta de madrugada e na terça anterior ao vôo começou meio que inconscientemente a semana de despedidas.

O primeiro dia foi de salsa, em um dos bares do primeiro final de semana em Perth. No comecinho tem aula e depois o povo dança. Mas aparentemente só dança mesmo quem veio com seu par ou já é conhecido na casa. A gente ficou ali, olhando, mas australiano nenhum chamou qualquer das meninas pra dançar, o que me fez lembrar, saudosa, do Conexion em São Paulo. O nosso australiano bem que era esforçado e estava fazendo consideráveis melhorias no forró, mas salsa ainda era pedir demais. No meio da noite uma das amigas cariocas some e depois de quase uma hora volta trazendo um colombiano junto. O senhorzinho pagou bebida e dançou com quase todas as meninas, mais com o menino, pra tentar ensiná-lo a dançar com a gente.

Na quarta, a idéia era ir para o forró, mas quando ainda a gente ainda se arrumava os amigos pontuais avisaram que o negócio tinha sido cancelado por falta de quórum, atribuída ao intenso calor. Daí, foi todo mundo pra casa. Na quinta, a tradicional baladinha brasileira. Um dos meninos de Fremantle não conseguiu entrar porque tinha perdido o passaporte no Ano Novo e o documento não tinha chegado ainda. Mesmo com B.O. e sorrisinho pro segurança não teve jeito e o moço ficou pra fora. Na volta, a carona acabou levando a gente pra casa de uns amigos, onde continuamos até as quatro e tantas da manhã.

Na sexta, jantar pras poucas pessoas na casa da amiga quase-chef. Em seguida fui ganhar uma bebida de graça na balada por devolver minhas credenciais e pistola, ou seja, meu uniforme e pulseirinha de identificação.

Por fim, no sábado, depois de 9 horas de trabalho, que terminei distribuindo bebida com minha roommate em um Hotel que deve ter sido a inspiração para a música dos Eagles, começamos a tal festa oficial.

Chegamos em casa às 8h25 da noite. Tinha marcado pras pessoas chegarem às 9h, 9h30. Brasileiro, lógico, chegou às 10, 11h, meia-noite. O resto tudo chegou antes.

A nossa organização se resumiu a mudar o sofá de lado, abrir a porta de vidro e comprar frutas, copos, canudinhos e ralos salgadinhos. Duas garrafas de vodkas tinham vindo do free shop pós-Bali. Uma outra metade mofava no freezer. Os franceses trouxeram o resto de mais uma. Isso além das cervejas, vinhos e cidras pra consumo individual que o povo trouxe graças a esse bendito esquema de "bring your own booze", em que cada um se responsabiliza pela própria bebida.

Na lista de presença, um monte de brasileiros, um venezuelano, três australianos (sendo um falando português e outra, francês), uma de Fiji, uma x, uma coreana, dois franceses, um indiano, dois malasianos, uma sul-africana. A mudança de móveis deu certo e trouxe até o novo gato do novo vizinho pra dentro da sala. Algumas horas depois foi o próprio vizinho quem surgiu, tão sorrateiro quanto o bichano. Como em toda boa festa, essa terminou com muita gente chorando de bêbada, outros consolando e uma terceira parte alheia a tudo o que acontecia ao redor.

Três da manhã minha roommate foi trabalhar e a festa rapidamente acabou. Os remanescentes, incluindo essa dona da casa, foram pra outra festa, na vila brasileira, mas que já estava miada. Ali dei o tchau derradeiro e choroso pra amiga de Fiji, umas das que sei que dificilmente verei de novo - por mais que ela fale que vai casar com um brasileiro. "That is the problem of being attached to tourists", alguém me disse recentemente.

Às 6h30 da manhã estava na minha cama. Às 10h, depois de um rápido intervalo em que duas pessoas consideraram alugar a minha casinha, lá estava eu de volta. Nesse meio tempo, como não tinha dado pra arrumar tudo, a dona da unit me ajudou a limpar, recolhendo canudinhos e passando um pano molhado na mesa, toda grudenta de vodka e açúcar. Quase rolou uma vergonha, mas eu tinha avisado que ia dar um jantar de despedida na noite anterior. Só dei graças aos céus pela tampa do lixo estar virada para o outro lado, impedindo a visão de quem vinha da rua, ou meu depósito da casa já era.

Às 8h da noite do mesmo dia estava de volta à mesma vila prum churrasco na nova casa da minha antiga roommate. Lá, mais tchaus. Na segunda, só pra fechar, um cinema com as meninas. "He just not that into you" me fez lembrar Lucy, Ariel e tantas outras amigas, apesar de achar que foi alguém de outro grupinho que me disse ter lido o livro.

Pro bem ou pro mal, parece que estou me acostumando a despedidas. Por mais gay que seja dizer isso, as pessoas que realmente importam continuam contigo por mais longe que se esteja. Mas é lógico que isso não tira de forma alguma a necessidade de festas. No menor dos casos, elas são importantes pra se tirar muitas fotos, colocar pela casa inteira, publicar em Orkut, Facebook e mostrar pro povo que não teve paciência de ler esse texto todo.

Dez dias em Bali

Apesar do tempo nublado, o comandante avisou que fazia 31 graus no aeroporto de Depansar, em Bali.

Um amigo já tinha me contado que na sua ida à Tailândia ele tinha matado todas as saudades do Brasil, podendo beber na rua, vendo camelôs em tudo quanto é esquina.

Logo que a gente chegou percebeu mesmo que estava de volta à parte em desenvolvimento do mundo.

Uma fila imensa de turistas esperava pra pegar o visto, pago na hora, sem nenhum pré-requisito. Dez dólares americanos se você quiser ficar até uma semana, vinte e cinco se quiser ficar de oito dias a um mês. Em nenhuma hipótese isso pode ser renovado.

No saguão de desembarque já dava pra ver um pouco da cultura balinesa, com um monte com imagens em gesso de monstros e dragões decorando as vigas da parede.

Nesse meio tempo desmentimos a idéia de que Bali só dá australiano. Na fila, praticamente só asiático, o que pode ser explicado também pelo fato de que tinha acabado de chegar um mega avião da china, de dois andares e tudo. Com tanta gente no país até avião vira transporte coletivo.

No fim da fila, todo mundo deveria passar por dois guichês, um em seguida do outro. A gente passou por um. Daí descobriu que não tinha o tal landing ou arrival ticket. Voltamos pro saguão e fomos falar com um carinha numa mesinha de canto. O que tinha que preencher nesse ticket eu não tenho a menor idéia, já que os moços preencheram pra gente usando só as informações do nosso passaporte e onde iríamos ficar (“Eu sei que vocês vai ficar dez dias, eu quero saber onde” ele respondeu depois da gente ter entendido errado a pergunta dele, feita num inglês com tanto acent quanto o nosso)

Bali não faz a menor exigência pra entrar no país, mas se folgar a briga é seria. Um pôster enorme diz que tráfico de drogas é punido com pena de morte.

Minha amiga se perguntava se o freeshop de lá seria grande. Eu ainda não posso responder, mas não deve ser, já que a gente passou por ele e não viu.

Passadas as burocracias, na hora de entrar no país mesmo, a gente já se sentiu acuada. Vendedores de dólar cada um em seu guichê chamavam a gente pra suas lojinhas, gritando e agitando plaquinhas de “no comission” - mas a cotação era a mesma em todas. Depois de alguns minutos estáticas, tentando entender aquela cena, cada uma entrou num guichê diferente. A minha moça explicou que a taxa é a mesma, mas são cada guichê é de uma empresa. Como não tem diferença de valor, eles têm que chamar a atenção desse jeito mesmo. O negócio é que aparentemente eles se divertem com a brincadeira.

Na rua é até possível conseguir uma melhor cotação, mas é preciso tomar cuidado pra não te enganarem, disse ainda a menina que nos ensinou a primeira frase local. "Tarima Kasi". Obrigado, em indonesian. Em resposta, se diz "Sama Sama". Em balinês é diferente, mas todo mundo fala as duas línguas fluentemente. Depois, iríamos descobrir que balinês é muito mais esperto do que a gente pensava e, mesmo sabendo que precisávamos tomar cuidado, perdemos dinheiro na troca pela moeda local.

A mesma agitação das casas de câmbio se repetiu na porta do aeroporto, quando dezenas de locais esperavam cada um o seu passageiro, ostentando plaquinhas com os nomes das pessoas. Em seguida, os taxistas - ou taksistas - tentavam quase que te agarrar pelo braço. Pro nosso hotel, o primeiro ofereceu por 100, no fim fechamos por 75 e talvez ainda caro. Estava estranhando a qualidade dos carros, todos grandes e novos, mas na hora de assinar a primeira viagem descobri que a maioria é alugada. O povo da Indonésia é realmente muito humilde.

Na rua, quase se implorava pra que entrássemos nas lojas, alugássemos um carro ou fizéssemos prolongamento de cabelo ou dread. Tudo pra ganhar algum dinheiro, que pelo visto é mais escasso do que no Brasil.

O país vive de plantações de arroz, alguma exportação de produtos de decoração, mas principalmente de turismo. Porém, dois eventos afetaram muito a economia local. Um deles foi a recente queda das bolsas asiáticas. O outro, um pouco mais antigo, foi o atentado a bomba a uma das baladas mais famosas da cidade. Hoje, no lugar, tem só um monumento, com uma fonte e uma parede onde estão os nomes de todos os mortos na tragédia. Entre eles, dois brasileiros. A maioria mesmo era australiana, gente jovem, de férias.

O nosso hotel ficava na rua de trás de onde era a balada. Segundo o camareiro, um dos hóspedes que morreu ia se casar no dia seguinte no próprio hotel. A noiva, também australiana, estava dormindo na hora. Vai ver até acordou com o barulho. A explosão foi tão forte que, mesmo com a distância, quebrou algumas janelas dos quartos.

O atentado aconteceu em 2002, mas ainda hoje muita gente evita entrar de no país com medo de mais alguma tragédia. Não é à toa que quando a gente perguntou pro nosso motorista sobre o caso ele fez questão de enfatizar que isso era passado. Sem turismo o país não sobrevive.

Nas ruas, os moços que vendiam jornal passavam em cada um dos carros perguntando da onde os passageiros eram, já que eles tinham jornais de quase o mundo todo. Todos, inevitavelmente, fizeram uma cara muito frustrada ao saber que éramos do Brasil. Isso porque eles não tinham nenhum jornal pra nos oferecer.

Nas baladas, estrangeiro é tratado como rei. O povo local paga pra entrar. Overseas entra graça e às vezes ainda recebe um drink de boas-vindas. Na primeira que a gente foi, ganhamos um líquido amarelo num tubo de ensaio. A moça disse que era "o mesmo suco que vendia lá dentro", mas que ali era só uma amostra. O negócio é que a gente não tinha idéia de que suco era aquele. Enquanto uma amiga ficou meio receosa, a outra me mostrava que já tinha tomado metade. Apesar da cor do vidro, meio sujo, segui a loira e virei o tubinho.

Lá dentro, a música até tava boa, a mesma dance das baladas australianas, mas o público era quase só local, além de um ou outro indiano, xavequeiro como sempre. O negocinho que a gente bebeu não era ruim. O bartender mostrou a garrafa. Era suco de laranja com o destilado de arroz balinês.

Quinze minutos depois, fomos conhecer os outros lugares. Os clubs eram bons, música parecida com as da Austrália, povo da Austrália, mas de outras parte do país além de Perth. Muito europeu, também. No Bounty, mais famoso dos clubs, e para onde voltamos quase todas as outras noite, aproveitamos as nossas roupas aussie e o primeiro andar vazio pra tirar foto dentro da gaiola. Aliás, o que a gente mais fez foi tirar foto. Mais de 3500 fotos em 10 dias de viagem, o que incluiu de foto de templos e a gente experimentando peruca numa loja de departamentos.

Quando chegamos em Perth, minha amiga disse que achava estranho as ruas perfeitinhas demais, mas com coisa boa a gente acostuma. Nas ruas de Bali, a gente estranha com a quantidade de buracos. Eu, lógico, quase torci o tornozelo uma dúzia de vezes. Quando não virava o pé, chutava ou, sempre sem querer, pisava nas oferendas que eles colocam no chão, bem em frente às lojas – em todas elas – pra dar sorte. Junto à maior parte do comércio, por sinal, tem um monumento com alguma estátua de monstro gordinho, a maioria deles com uma cara simpática, em frente ao qual também se colocam as tais oferendas.

As roupas e coisas para decoração são baratas. Muito baratas. Mas tem que pechinchar, por mais chato que isso seja. Às vezes dá até um peso na consciência. O povo não tem dinheiro e na maioria das vezes você consegue levar o produto por um valor até três vezes menor que o inicial. Depois de alguns dias de viagem você acaba aprendendo o real preço das coisas e mais de uma vez uma de nós saiu ofendida, pisando duro após ter se sentido passada por idiota por de um vendedor tinha jogado o preço muito alto e que depois, arrependido, gritava repetitivamente “por quanto você quer então?”. Mas não tinha jeito, se jogou o preço lá em cima, pra chegar no valor que você quer demora e dizer não depois que começar a negociar é quase impossível.

A população sofre com falta de dinheiro e eles freqüentemente usam isso como arma de convencimento, pedindo pra comprar qualquer coisa porque não venderam nada o dia inteiro. Vender, no fundo, se torna quase um pedido de esmola. E mesmo assim tem gente que pede dinheiro, normalmente depois da balada, às vezes trazendo junto um bebê de colo. Também tem muita prostituta, algumas delas crianças, numa triste situação que brasileiro conhece muito bem.

Com a problemática financeira chegando a esse ponto não é difícil prever que logo Bali não vai mais ser um lugar tão seguro. A religiosidade do povo balinês é uma coisa muito forte, mas tem muita gente de fora que não tem todos esses princípios. E mesmo com aqueles que têm, dá pra se colocar no lugar e imaginar a raiva que vai crescendo dentro deles, sem dinheiro nenhum e vendo esse bando de turista que tem um monte de dólares se recusando a comprar uma coisinha que seja pra ajudar a sua família. Uma hora a raiva explode.

Por enquanto, de vez em nunca se houve falar de um roubo de carteira, mas o mais comum ainda é truque na hora de trocar dinheiro. A gente foi, se achando as safas, tendo certeza que se a gente contasse direitinho ninguém ia ser enganada. Seguimos a cotação mais alta, contamos as três o dinheiro de cada uma, separamos em bolinho. Na hora que ele encostou no montinho pra entregar de volta sumiu umas 20 notas pelo menos, totalizando 400 mil rúpias de cada uma, o que equivalente a 40 dólares americanos, uma fortuna pra eles.

A gente só percebeu quando chegou no hotel e, por decisão da minha amiga que queria só dizer que tínhamos percebido o roubo e que isso era um absurdo, fomos falar com o moço de volta. Do outro lado da rua, seis caras do mesmo grupo jogavam cartas e davam risada da gente. Menos de dois minutos de conversa o moço admitiu que tinha tirado o dinheiro porque era assim que ele conseguia sobreviver. Pediu desculpas e disse que devolveria metade do dinheiro, já que o chefe tinha passado e levado o resto. Aceitamos a metade oferecida e ainda saímos apertando a mão do cara como se ele tivesse feito um favor. Mas a verdade é que ninguém esperava ver nem metade do dinheiro de volta, então foi quase um lucro. Depois, alguém falou que se eles fossem pegos roubando perderiam uma das mãos, por isso pra ele era mais vantajoso devolver metade e fazer a gente ficar quieta. E mesmo assim ele ganhou muito. No hotel, conhecemos um casal que além de perder dinheiro foi feito de idiota, já que o moço em questão disse que era tradição fazer reverência antes de pegar o dinheiro. Então ele, com as notas entre as mãos fez a reverência - e nessa pegou um belo bolinho - e passou pro turista que reverenciou de volta o amigo mão leve.

Eis aqui outras duas marcas registradas de Bali. Número um as scooters. A maioria do pessoal que vai pra lá aluga motinho e sai pra passear sozinho. A gente, por minha causa, que não me senti segura pra andar no trânsito balinês, mil vezes mais caótico do que o de São Paulo, acabamos só com os motoristas particulares, que nem são tão caros. Segundo uma amiga acabou de me contar, provavelmente a moto sairia ainda mais cara, já que numa outra semelhança com o Brasil, os guardas adoram parar as pessoas – vulgo turistas – pra conseguir um cafezinho em vez de multá-las por qualquer coisa que eles acharem interessante.

O número dois é o Bali Belly, um espécie de rotavírus que também adora gente de fora. É tão normal pegar Bali Belly que o remédio está disponível em qualquer farmácia, não precisa nem passar pelo médico, e os sintomas, depois da pessoa ser medicada, passam em um dia. E já que não andamos de motinho, uma das meninas teve o Bali belly, só pra gente dizer que experimentou de quase tudo.

Ao contrário do que pensávamos, Bali não é feita de praia. Com raras exceções, a maioria em ilhas distantes, elas não são bonitas e são meio poluídas. Em compensação, o povo é simpático, feliz mesmo com a vida difícil, as cidades têm paisagens lindas e eles têm uma cultura muito rica, com várias lendas e tradições, coisa que não se vê num país novo como o dos cangurus.

Os templos são bonitos por causa da natureza. Muitos poucos têm algo de especial na arquitetura. Normalmente é paisagem e altares, com imagens de monstrinhos, mas têm alguns diferentes. No templo da água, chovia horrores e mesmo quem não se arriscava a entrar na piscina pública pra se purificar acabou se molhando. Esse foi o nosso caso, já que rejeitamos milhares de vezes os guarda-chuvas oferecidos pelas crianças que mal tinham corpo pra levantar o negócio. No templo do elefante o legal é uma caverninha, um outro é famoso pela enorme quantidade de macacos (que roubam de tudo, inclusive meus dois elásticos de cabelo) e no mais famoso deles, que esqueci o nome e minha amiga pode colocar via comentário, a sua simples localização no meio de uma praia já o torna fantástico.

A entrada pra todos templos eh quase de graça. Custa 7 mil rupias, o que equivale a cerca de 1 dólar, o que quase nao deve dar nem pra lavar a canga que eles emprestam e nos fazer usar em sinal de respeito.

Outra coisa ótima dos balineses é que eles têm fascinação por outros povos. Não foram poucos os indonésios (e indianos), homens e mulheres, que pediram pra tirar foto com a gente, de tão diferente que éramos em comparação à sua etnia.

Depois de dez dias, na volta pra Austrália, saímos mais tarde do que deveríamos do hotel, tivemos mais uns probleminhas com a casa de câmbio do aeroporto e perdemos tempo comprando um salgadinho (já que a tarifa da Virgin Blue quase que não inclui nem água de graça e pra comer você tem que pagar na hora). Como resultado, fomos chamadas pelo autofalante. Quando entramos na aeronave, o avião inteiro, que já tinha sido informado que só estavam esperando três passageiros pra poder decolar, olhava pra nossa cara. Entre eles, dois casais que a gente não viu mais que eles nos viram. Casais de conhecidos e que disseram ter dado risada ao ver “quem eram os passageiros atrasados”. "Tinha que ser brasileiro, né". Como sempre, com a maior cara deslavada do mundo, a gente só ficou sem graça e deu risada. A única coisa que se pode dizer é que aproveitamos até o último minuto. E meu chocolate comprado no aeroporto valeu a cara feia.

Yes, man!

A proposta era boa. Quem fosse trabalhar naquele dia trabalharia o dia todo, o que significa quase dez horas por dia. Além disso, os shows eram bons e tinha camping gratuito e exclusivo pra staff. Era um festival enorme no sul do estado que parecia durar vários dias, considerando o que você podia assinalar como disponível – de 19 de dezembro a 23 de janeiro. O único problema é que não tinha ninguém pra ir comigo. As meninas (em outra cidade) no sul e o resto tudo trabalhando em empregos fixos. Mas, entre ficar em casa sozinha e ficar numa barraca sozinha, muito melhor a barraca, cujo pacote inclui ver gente diferente, conhecer o festival e ainda ganhar dinheiro.

Preenchi a application form enquanto lembrava de Paullette-Lana Banger e seu Universo Paralelo. Pode até ser que tenha algo semelhante, mas o da Western Australia, conforme descobri depois, é menor. Tem gente boa. Pra quem gosta, Franz Ferdinand foi uma das atrações, mas de show mesmo são só dois dias. O resto era escala pra quem fosse trabalhar na estruturação dos palcos, o que – ainda, pelo menos – não é o meu caso.

O evento todo foi intenso, no sentido inconstante da coisa. Por indicação da própria empresa, tentei conseguir carona por um site x, especializado nisso, mas não deu certo. Vai ver fui a única a me cadastrar. Depois, reservei pra em seguida desistir de alugar carro. Comprei a passagem pra ir de ônibus, assim não tinha data pra volta e podia visitar as meninas. Por fim, perdi o ticket ao ganhar uma carona do namorado de uma amiga que decidiu trazê-la pra cidade no final de semana, depois dela ter se machucado. Com a segunda amiga, combinei de jantar depois que fosse liberada. O problema é que o celular não funcionava, eu trabalhava o dia todo e o show ficava longe da cidade, num descampado onde não tinha nem sombra de telefone público. Eu sabia só o nome da cidade. Era uma cidade pequena, mas mesmo assim.

Uma terceira amiga tinha me avisado em cima da hora que trabalharia no 2º dia e, pra passar as coordenadas de onde minha barraca estava, acabei aceitando dois celulares emprestados de dois caras que encontrei na rua, um com que deixei mensagem de voz e outro pelo qual mandei sms.

No dia seguinte cedo resolvi comprar a passagem de volta. Tinha desistido de visitar as meninas pra aceitar trabalhar no domingo, em Perth. Quando cheguei, descobri que estava tudo esgotado. Se fosse no Brasil as empresas colocariam ônibus extras, mas aqui eu só teria como voltar na 3ª. Pedi carona pra umas 4 pessoas que trabalhavam comigo, mas todas tinham algum problema, o que contraria totalmente a experiência que vinha tendo com caronas. No meu último intervalo, já meio desolada, satisfeita com a idéia de ficar dois dias num camping qualquer, achei uma configuração em que meu celular funcionava. Falei com minha amiga que já armava uma carona pra mim – não porque ela soubesse que não tinha ônibus, mas porque eu tava no sul, uma outra amiga nossa também estava no sul, não tinha porque eu voltar de ônibus. Na verdade, quando souberam da falta de ônibus, ela e o namorado de dispuseram a me buscar de carro, o que significaria cerca de seis horas dirigindo, contando ida e volta.

Quando cheguei no camping naquela noite, já toda feliz, vejo uma barraca no meio do caminho e um bilhete enganchado no meu zíper. A tal terceira amiga entendeu as coordenadas e conseguiu chegar. Pra melhorar, ela tinha uma carona pras nós duas no dia seguinte. Ela estava com os meninos na cidade do lado e eles estavam voltando com exatamente um lugar a mais no carro.

No tal dia seguinte ligamos e eles iam deixar a cidade, mas pruma outra praia. Voltar pra Perth só no final do dia. Depois de esperarmos por cerca de uma hora o ônibus, pedimos informação prum grupo e ganhamos uma carona com uma moça loirinha, cara de 20 aninhos, mas que tinha uma filha de 15 e que esperava a outra, de três, ser devolvida da casa do pai. Já que não tinha jeito, liguei pro trabalho, disse que não ia porque não tinha ônibus e fomos encontrar o povo pra ir pra praia.

Conheci os amigos da minha amiga – um grupo de umas 8 pessoas. Peguei o biquíni na mochila, me troquei no banheiro – já aqui todas as praias tem uma casinha com banheiro limpo e chuveiro – e passei o dia tomando sol. Já estava escuro quando cheguei finalmente em casa.

Cerca de um mês depois, na saída do cinema, minha nova amiga comenta “cara, eu acho que eu preciso começar a falar mais ‘yes’ nessa vida”. Segundo o filme, novo do Jim Carrey, se você falar “sim” pras coisas o mundo vai se abrir pra você. Durante o filme eu já tinha feito uma reflexão similar, e, com base nesse e em outros eventos, respondi: “é, já eu acho que falo yes demais, mas tá bom!”.

Monday, January 12, 2009

Ano novo, de novo!

Quando a gente chegou na praia, minha nova amiga abriu a bolsa pra mostrar o que tinha trazido pra gente. Dois cadernos. Duas canetas. A idéia era aproveitar o último dia do ano pra escrever as resoluções de ano novo. Pra ela, o ano de 2008 foi tumultuado - no mau sentido. Desilusões amorosas, alguns problemas de saúde, um estresse constante. 2009 tinha que ser diferente, começando pela virada. Aliás, essa é uma das coisas mais bonitas que o Brasil tem. A esperança. Acho que já postei aqui, mas aí vai de novo um pedaço desse poema de Carlos Drummond de Andrade:

"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

"Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.

Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente…"

Na Austrália, ao contrário, não se comemora muito o ano novo. A grande festa é no dia 26 de janeiro, no Australia Day. No Réveillon as pessoas costumam ir pra festas. Na casa de amigos ou em baladas. Normalmente nessas épocas os clubs fazem pacotes especiais, open bar, o que é difícilimo de se ver por aqui. Portanto, ano novo acaba sendo só mais uma desculpa pra beber. E isso sem nenhum ritual especial. Nada de vestir uma cor específica, muito menos escolher lingerie.

O meu ano novo eu passei trabalhando, como deveria ter passado o Natal. Mas, com medo de ser mandada embora às 11h e pouco de novo, dessa vez tinha feito mil planos alternativos. Pra começar, no próprio dia 31 quando saí pra comprar a calcinha nova, acabei achando uns vestidos em promoção. Experimentei dois e não ficaram legais, quando coloquei na arara, vi um tamanho M, todo branco. Cinco dólares. Serviu perfeitamente. Por mais que o povo daque não use branco no ano novo, por $5 não tinha nem o que pensar. Levei o vestido na bolsa pro trabalho. Já tinha combinado com essa amiga, se terminasse cedo, trocava de roupa e ia com ela pra praia jogar rosas brancas a Iemanjá. Como o vestido tem um elástico embaixo, não ia nem ser ruim pra pular as minhas sete ondinhas.

Eu tinha deixado de trabalhar em um outro evento pra trabalhar na balada. Se ela estivesse cheia, seria mais divertido do que ficar de garçonete em um jantar. Se tivesse vazia, tinha amigos em mil outras festas pelo bairro. Um dos clubs era festa à fantasia, outra black tie, Las Vegas party, festa do pijama. Cada uma com uma temática diferente. O trem, que aquele dia funcionaria até as 6h, estava lotadíssimo e cheio de gente colorida, dando risada alto, usando roupas engraçadas ou simplesmente diferentes. O único que não tinha programado nada demais era o lugar onde eu trabalho, por isso não tava colocando muita fé. Mas ele encheu.

Como sempre acontece quando está movimentado, não percebi o tempo passar. Sentia meu celular vibrando no bolso, mas nem 5 minutos off eu consegui tirar pra retornar. De repente (ainda não acredito que por esse novo acordo de repente vai ser derrepente, adoro a expressão, junto é feio!), no momento em que servia quatro tequilas, o dj anunciou a contagem regressiva. É difícil descrever meu sentimento. Foi algo como "já? pô, aí... legal". Tava correndo muito pra esperar chegar até o zero. Faltando 7 segundos pra meia-noite voltei pros meus copinhos de shot. Vi meio de canto de olho meu gerente estourando uma caixinha com papeizinhos coloridos, cobrei as bebidas e fui pro próximo cliente. Uns cinco minutos depois, quando todos os glassies (galera responsável pelos copos, gelo e reposição de bebidas) estavam do lado de dentro do balcão, brindamos o ano novo com um shot de Galliano Amaretto (licor de vanilla) e voltamos pra correria.

Mais ou menos às duas da manhã, um pouco mais tranqüilo, eu e o bartender indiano quase trombamos ao tentar usar ao mesmo tempo a caixa registradora que ficava entre a minha área e a dele. Parei, dei uma respirada. Foi a primeira vez na noite em que consegui parar. A gente riu da correria e ganhei um aperto de mão de feliz ano novo. Dois, na verdade, porque depois também cumprimentamos o moço que esperava pra ser atendido e acompanhava a cena dando sorrindo. Já o abraço de feliz ano novo, só no final do shift, indo embora, ao me despedir do meu gerente - pelo menos foi em alguém do sexo oposto, como manda a tradição.

O relógio do ponto marcava 5h58 quando fui passar o cartão pra ir embora. Já estava claro na rua. Ganhei uma carona pra casa, dormi 2h30 e saí de novo pra outro trabalho, dessa vez garçonete no bar vip de uma corrida de cavalos, o Perth Racing, evento tradicional do dia 1 de janeiro.

O primeiro dia do ano acabou como qualquer outro, só um pouco mais corrido, afinal, tem que aproveitar a essa época, em que mais tem trabalho. Janeiro é muito devagar. De resto, é difícil fazer projeções, traçar planos mais concretos.

Não é à toa que, meio que inconscientemente, acabei dormindo na praia em vez de escrever no caderno trazido pela minha amiga. Desde o meio do ano, quando larguei o trabalho no Brasil tem acontecido uma série de mudanças. Tantas que às vezes é até difícil se adaptar. Foi a viagem pro outro lado do mundo, foi minha perna queimada (que só agora está relativamente normal), meu irmão que sofreu acidente, mudança pruma casa só minha com minha amiga, três mudanças de curso, um número praticamente incalculável de trabalhos diferentes, um monte de gente nova, de experiências novas, até o simples fato de ter me despedido da minha cachorra... tudo isso alterou substancialmente a minha vida nesses últimos meses, tanto que até o cabelo eu mudei de forma radical - sinal fortíssimo de renovação para as mulheres.

Portanto, por mais que eu adore essa perspectiva de ano novo, de coisas novas, acho que no momento eu estou no meu próprio redemoinho, mudando por mim mesma. Da mesma forma que o furacão atravessa um estado do país em direção ao outro, eu passei de 2008 para 2009. Não vou dizer que o ano não faz diferença. Muito pelo contrário, faz muita. Mas agora é só um fator a mais, uma mudança a mais. 2008 foi um ano tumultuado - no fim das contas, no bom sentido. Então, minha única projeção para 2009é que a vida continue assim, cheia de coisas novas. Que os problemas, se não puderem ser evitados, sejam remediáveis e que as coisas boas sejam cada vez mais freqüentes (freqüente com trema, aproveitando enquanto ainda posso usá-la).

Sunday, January 11, 2009

Um Natal para relembrar (de outro Natal)

Fim de noite do dia 25 de dezembro. Por fim, meu carro tinha voltado a funcionar. Eu já achava que essa história de ciclos era uma verdade irritante. Há dois anos, em 2006, tinha passado a minha véspera de Natal trabalhando e a meia-noite em si no carro, indo pra casa do meu avô. Essa véspera de Natal eu também passei trabalhando, como bartender numa balada - meu novo e possivelmente último emprego em Perth antes de mudar pra outra costa. A meia-noite em si passei no trem, a caminho de casa, já que o lugar estava mega vazio.

Desde que minha amiga soube que seria transferida de dezembro a janeiro para o sul, a principal preocupação (dela) era onde eu ia passar o Natal. Mas aqui ninguém tem família, então festa é que não faltou. Eu é que tinha preferido trabalhar. Pena que foi só por duas horas, mas sem grandes dramas. Esse ano parece que o Natal não aconteceu. Mandei presentes pra casa, tirei fotos com chapéu de ajudante de Papai Noel, a cidade estava - e quase um mês depois continua - enfeitada, mas os três fantasminhas de Charles Dickens não foram bater na minha porta e a data passou como outra qualquer.

O dia 25 passei com uma família australiana, família do namorado de uma amiga. Daí, tudo bem parecido com os brasileiros. Muita, mas muita comida. Carneiro, batata, salada, e não lembro mais o que. As sobremesas, por sua vez... Cheese Cake, Sticky Toffee Pudding, frutas e uma casinha de biscoito de gengibre com balas de goma e MMs da qual eu comi grande parte.

A tradição daqui é a bombom box. Parece um bombom enorme (eu fiquei aguada quando vi no supermercado), mas é vazio. Eles fazem parte da decoração da mesa de Natal, e ficam em cima de cada prato. Na hora de sentar, antes de comer, cada um pega o seu. Uma pessoa puxa um lado da embalagem, a outra puxa o outro. Faz um estalinho, estoura a embalagem. Dentro tem uma coroa de papel fininho, meio crepom, um brinquedinho tosco e uma piada sem graça. Mas pelo menos as fotos ficam bonitinhas quando todo mundo usa o chapéu, até eles rasgarem.

Amigo secreto também tem, sob o nome de Secret Santa. Mas pelo menos na família onde eu estava, foi tudo mais simples. As pessoas escreveram o que gostariam de ganhar e em determinado momento, houve a troca de presentes. Cada um procurou o seu par e "oi, tá aqui o seu presente, eu sou seu amigo secreto". Nada de discurso, adivinhar quem é a pessoa... se não fosse pela dona da casa ter feito confusão e colocado duas vezes o nome dela e nenhuma o do filho, ninguém teria dado risada (num milagre de Natal, a irmã dele, por concidência, viu o mesmo cd que o moço tinha pedido, e comprou pro aniversário dele, que era um dia antes, então nem sem presente ele ficou). Outro ponto alto foi o kit retirement, que todos os filhos deram pro dono de casa, recém-aposentado. Vara de pesca, camiseta, livro, brinquedo... tudo dentro de uma mala. O problema é que a maioria das coisas era só emprestada pra brincadeira, nem sempre com o consentimento dos donos, o que fez um dos moços protestar indignado ao ver sua camisa nova dentro do tal kit.

Como em todo bom Natal, lá naquele tinha uma velhinha simpática, com quem conversei por muito tempo. Ela até foi me mostrar a casa dela, the nana house ou algo assim. É a casa dela, dentro da casa deles. Quarto, sala, banheiro, cozinha separados por uma porta no fim do corredor.

No fim do dia, depois da minha dose de desprendimento de ter dado o meu chapéu de duende pras crianças da casa, fui com o carro alugado (o mesmo da viagem, já que por dez minutos tinha pego a agência fechada) pra Fremantle, dar feliz natal pros meninos. Parei o carro, vi que tinha dois quarteirões ainda. Tentei sair com ele, não consegui. Meia hora depois, meu amigo fuçando no motor, nada. Resolvi desencanar e tomar uma cerveja. Quem sabe mais tarde ele resolvesse sozinho. Foi assim todo o final de semana. Descontados uma ou outra confusão, dirigir do lado contrário tinha sido fácil. O problema foi a seta, também do outro lado, o que me fez perder a conta de quantas vezes eu liguei o pára-brisa por engano. Outro problema era que o carro, apesar de só com 4800 km, nem sempre ligava de primeira. Tentava uma, duas vezes, de repente ele funcionava. Então achei que ele só precisava de um tempinho. Uma hora depois, me despedi e fui preparada pra tentar de novo e chamar o seguro.

Há dois anos, no mesmo Natal de 2006 eu fiquei da meia-noite às 3h da manhã com o mecânico na frente do trabalho pra conseguir fazer meu carro funcionar. Por sorte, dessa vez funcionou sozinho. Voltei pra casa dos meninos, deixei o carro na garagem compartilhada com o vizinho. Mais uma cerveja, mais uma hora. Fui embora torcendo pro carro funcionar. Nada. Meu amigo perguntou se algum segredo. Eu não sabia de nada. Em todo caso, por instrução dele, tentei ligar pisando no freio. Em seguida, na embreagem. E daí ligou. Desligada que sou, não lembrei da mulher da agência me dizendo que tinha que pisar na embreagem pra ele funcionar. Também não percebi que durante os últimos 3 dias o carro só ligou quando pisava na embreagem. Acontece que na primeira tentativa, tranquila, tentava sair no ponto morto e nada. Na segunda ou terceira, já estressada e pronta pra forçar o motor, colocava a primeira, pisava na embreagem e o carro ligava. Temperamental era eu e não o carro.

Por fim, fiquei satisfeita ao perceber que a vida não é feita de tantos ciclos. Ou então até é, afinal, naquele Natal o problema também era o segredo. Tinha acabado a pilha do chaveirinho que libera a injeção eletrônica - mesmo mecanismo da embreagem. Em todo caso, é sempre bom perceber que a gente pode aprender com os erros. Dessa vez, meu amigo descobriu o segredo antes de um novo mico com a seguradora. Não fui bem eu, mas tá valendo. Quem sabe da próxima.

Thursday, January 08, 2009

Torta de frango

Vocês assistiram à Fuga das Galinhas? Me sinto trabalhando no filme. É impressionante como as pessoas mudam o comportamento pelos motivos mais mesquinhos do mundo. Como o pretenso poder vira arrogância e as pessoas em volta viram cocozinhos. E passam a ser tratados como tal.

Poder tanto hierárquico, cargos de chefia etc, como o mais comum aqui, um lugar em que as pessoas aparecem no vídeo, causado pela inflamento constante do ego.

Pois é... Aquela história de que você conhece a pessoa de verdade quando dá poder não poderia ser mais verdadeira. E a minha paciência não poderia ser menor.

Aqui as pessoas entram galinhas e saem tortas de frango.
Argh!!!

Monday, January 05, 2009

Muito mico pra pouca praia

Mudar de país normalmente significa uma redescoberta. A comida tem que mudar já nem tudo se encontra aqui; a fruta até tem a mesma, mas custa caro e o sabor é diferente, a roupa tem outro estilo (a das australianas é larga na cintura e apertada na coxa, o que obiviamente não funciona pra mim e minhas pernas delicadas). Sendo assim, então por que não começar do zero e se reiventar?

É com esse pensamento que, dando risada, encarei a faca enorme pra cortar limões em fatias no meu primeiro dia no bar. Foi com esse pensamento que me permiti ser prendada. Tento cozinhar, lavo minha roupa e carrego três pratos com comida de uma vez com perfeição (um em cada mão e um último no antebraço). Por fim, foi com esse pensamento que eu quase aceitei desistir da barraca e pagar 150 dólares a mais pra ficar no caravan park (um trailerzinho fixo, que funciona como um chalé).

A gente já estava há mais de uma hora tentando montar aquela barraca enorme, que minha nova amiga tinha pego emprestada. Ela tentou montar em casa e não acabou. Daí foi me mostrar até onde tinha ido, mas não rolou muita melhora. Os pauzinhos não ficavam direito, pareciam menores do que deveriam e tinha alguma coisa de errada com a a tenda. Como estava escurecendo, cedi. Em último caso a gente dormia no carro.

Nós duas não nos conhecíamos muito bem. Nos apresentamos um dia procurando emprego, marcamos de sair algumas vezes, mas só nos encontramos uma ou outra vez na baladinha brasileira. Como ela estava com 4 dias de folga, me chamou pra viajar. Como eu também estava, aceitei. Ainda mais agora com minha roommate longe. Combinamos na 5a, demos certeza no sábado, alugamos carro, decidimos a cidade e saímos na 2a. O camping mesmo, só quando chegamos lá. Não deu tempo pra nada. Eu não sabia que ela se estressava. Ela não sabia que eu sou teimosa.

No fim, tudo certo, nenhuma briga. Mas pra não causar mais estresse e tentar evoluir espiritualmente, cogitava desistir da barraca antes que ficasse tarde demais. "Eu não preciso ser assim, eu posso desistir das coisas", repetia comigo mesmo, me recusando a acreditar. Foi aí que os meninos apareceram. Um loiro, cara de australiano do interior, meio chucro, cabelo raspado na lateral com um tufo atrás, uns 17 anos. O outro da mesma idade, moreno, simpático. Os dois viviam na região, sul do estado mais deserto da Austrália. O sotaque então, fortíssimo. Mas a gente conseguiu entendê-los o suficiente pra aceitar a ajuda. Minha amiga ainda ficou meio reticente. Não era possível que eles conseguissem montar antes de escurecer de vez. Eu só estava feliz de não ficar com aquela marca de impotência na testa. Tudo bem que eu não montei, mas a idéia de pagar a mais por que não consegui era frustrante.

Passei um tempinho analisando a bola de rugby que eles deixaram no chão. "Reds" - aparentemente, o nome do time daqui. Pensava em como a vida é feita de coincidências, já que com aquele bando de homens olhando, foram justo os que brincavam com a bola de rubgy que vieram nos ajudar e o nome então... Daí lembrei do moleque da recepção, zuando que com toda certeza teria algum homem forte pra nos ajudar caso a gente não conseguisse montar a barraca. No fim, olha quem foram os nossos homens fortes... de nada adiantou escolher o camping porque era uma praia de surf (e surfistas).

De repente, olhei pro pano no chão e levei um susto. A cor não era a mesma. Eles estavam montando outra coisa. Ou melhor, eles estavam montando a coisa certa. Chamei minha amiga. Meio desacreditada, meio com vergonha, mostrei o erro. O que a gente estava montando não era a barraca, era a cobertura dela!

Sim, mesmo com sete Jucas nas costas eu tive a capacidade de perder uma hora e meia da minha vida tentando montar a cobertura da barraca! Não é a toa que nunca ia dar certo. Minha amiga, que foi quem começou a montar, disse que nao tinha nem reparado naquela parte dentro da sacola.

Antes de começarem, os meninos disseram, meio timidos, que montariam em 20 minutos. Fizeram em 5. No fim, os cerca de quinze caras que assistiam a mim e minha amiga pelos últimos 90 minutos sem levantar a bunda da cadeira desmontável por outro motivo se não pegar outra cerveja, bateram palmas. Um xingamento foi a única coisa que me ocorreu naquele momento.

Pros nossos heróis, prometemos uma cerveja na tarde seguinte, mas pra fugir do frio que passamos na primeira noite, bebemos duas garrafas de vinho e mas não vimos mais os tais.

Na volta pra cidade, 2 dias depois, mais uma pra contar. Meu celular não pegava e minha roomate, a la minha mãe, ligou pra todos os nossos conhecidos tentando me encontrar, com medo de que alguma coisa tivesse acontecido.

Os meninos de Fremantle foram em casa à 1h da manhã. Lá encontraram o namorado da minha amiga que foi fazer a mesma coisa. No carro, um monte de indianos esperava a carona pra casa. Por fim, meus amigos conseguiram o número de uma menina que tinha o telefone de outra que tinha o telefone da minha companheira de viagem. Foi no celular dela que minha amiga conseguiu me encontrar. Seria vergonhoso, mas vai ver já acostumei.

O clima muda e a cidade não continua a mesma

Não vá embora antes do final do ano; Perth é uma cidade no inverno e outra no verão. Isso era o que as pessoas me diziam desde que cheguei na Austrália, normalmente depois de me perguntarem se eu estava achando o lugar muito parado.

O calor em Perth costuma chegar em outubro. Em dezembro, a temperatura freqüentemente ultrapassa os 40 graus. Nesse ano, demorou pra vir o tal calor, mas ele veio. E junto com ele um monte de gente na rua e de eventos na cidade. A primeira mostra foi em outubro, ainda sem calor, quando a cidade se movimentou por dois acontecimentos esportivos. O primeiro deles, Red Bull Air Race, in Perth. O segundo, no outro lado um pouco mais ao sul do país, a Melbourne Cup.

Perth é uma das etapas mundiais da corrida de aviões. Por semanas vários outdoors anunciavam a competição. Durante todo o dia, aviões faziam um de cada vez um monte de acrobacias em um circuito em cima do Swan River, rio que limita o centro de Perth. Quem quisesse, pagava a entrada pra ver tudo de pertinho, mas a maioria preferiu dar só uma olhadinha, por uma meia hora, sentada, de longe, de graça, do outro lado do rio.

O outro evento, Melbourne Cup, é uma corrida de cavalos que atrai milhares de pessoas todos os anos. Os torcedores, ou apostadores, vão vestidos a caráter. Homens com terno e chapeuzinho de gangster e mulheres de vestido de festa e chapéus ou arranjos enormes na cabeça. A diferença é que a tradição não se restringe ao jóquei. No dia da Melbourne Cup, as pessoas vão trabalhar com essa espécie de fantasia e se reúnem em bares ou restaurantes na hora do almoço para assistir às corridas, que ao todo não duram mais do que duas horas. O bolão é feito entre amigos, mas os restaurantes ajudam com um prêmios para o melhor chapéu. Depois disso, algumas pessoas voltam pro trabalho, mas a maioria mata o resto do dia bebendo no bar em questão, o que faz do evento quase um feriado nacional.

Mais do que o jogo em si, australiano gosta do ambiente, tanto que outro esporte famosíssimo é o criquet (versão profissional da nossa brincadeira de Taco). Existem três modalidades de criquet. Na mais longa delas, Austrália e África do Sul passaram cinco dias entre Natal e ano novo, de 4a a domingo, das 11h às 18h aproximadamente, fazendo uma mesma partida. Se fosse no Brasil, nunca que um jogo desses atrairia gente. Aqui, as pessoas pagaram ingresso e encheram o estádio pra assistir sentados na grama ou na cadeirinha à disputa interminável - que terminou com vitória sul-africana.

Por fim, verão também é música, shows e festivais. Cada suburb (o que pode ser entendido como bairro ou cidade) tem o seu festival. Normalmente isso significa lojas abertas até mais tarde, palcos com showzinhos e alguns desfiles de carros alegóricos, o que lembra bem vagamente as escolas de samba de cidades do interior. Todos os festivais têm a presença de uma escola de samba supostamente brasileira, já que australianos cada vez mais se identificam com o samba, e passistas que acabam a fama de que brasileiras são as mais bonitas do mundo.

Como verão também é época de férias escolares, o centro da cidade vira praticamente um show de talentos. Crianças ocupam o calçadão do shopping e cantam, tocam flauta de sopro, violino, dançam, fazem embixadinhas. Tudo pra ganhar algum dinheiro. À noite, as ruas lotadas completam a mudança. Mesmo por que com o sol se pondo às 9h da noite e um calor de mais de 20 graus não dá pra ficar em casa.

Saturday, November 08, 2008

Sábado animado

Até começar a escrever esse texto eu tinha certeza: indiano em espanhol é índio. Mas daí minha amiga leu e me deixou na dúvida. Em todo caso, pelo menos naqueles textos traduzidos do italiano pro espanhol, da agência em que trabalhava, vira e mexe aparecia um primer ministro indio, que na verdade era indiano. Erro dos tradutores ou não, a verdade é que se eu e as meninas já pegávamos carona nos programas de índio, o que dira nos da Índia.

A prova é que no sábado à noite lá estávamos nós, todas arrumadinhas, maquiadas, apostando ao máximo na tal festa de aniversário de um dos guardinhas australianos do trem de Perth. Quem chamou pra celebração foi o tal indiano, que conhecemos na volta do Halloween. Desde sexta passada ele tem sido presença e assunto constante de uma das meninas, por quem ele aparentemente se apaixonou. Nesse sábado, ele passou no trabalho de uma, depois na casa das outras e fomos todos pra Penguin Island, uma praia bonitinha, que pra chegar tem que ir de balsa ou se aventurar atravessando a pé, quando a maré tá baixa.

O passeio ainda incluiu um tour de barco pela ilha de leões marinhos. A moça que vendeu o ticket já tinha dito que nem sempre dá pra ver os tais sea lions, mas a gente deu sorte e viu... um dos bichos. Ele tava ali, estirado na areia, de barriga pra cima tomando sol. Nem respirar ele respirava direito. Até fiquei com medo que estivesse morto, mas daí ele piscou e, bem indolente, abanou a cauda, pra em seguida voltar a dormir.

Como todo bom romântico, o menino levou vinho pra praia. Deixou na água do mar por um tempo até gelar. Bebemos, tomamos sol, pegamos a balsa e o carro de volta pra Perth. Em casa, a gente se revezava entre dormir, tomar banho, fazer comida e drinks pra já chegar na festa feliz.

Durante toda a tarde, fiquei alguns momentos sozinha com o indiano enquanto as outras duas botavam o papo em dia. Por mais incrível que pareça, demorou até que conseguisse estabelecer uma conversa. Não sabia porque, mas desde a semana passada, quando ele foi conosco pruma exposição na City, eu não me sentia bem com ele. As meninas cogitaram uma possível TPM de minha parte, mas não era. Era uma semi-antipatia gratuita e recíproca. Eu não detestava ele, simplesmente não adorei o cara. E isso é tão difícil de acontecer que fiquei até me sentindo mal. Agora, analisando, talvez fosse orgulho, afinal depois do primeiro dia, no trem, ele não ligava a mínima pra conversar comigo e eu não tô muito acostumada com isso. O pensamento dele orbitava em torno de uma coisa somente: Big Boss! Apelido que a gente deu, brincando, pra outra menina e que ele aderiu completamente. Durante toda a semana, ele ligou pra ela algumas dezenas de vezes (em um único dia foram 21!), saiu de casa e ficou esperando por horas na porta do trabalho dela pra levá-la pra casa, ofereceu dinheiro pra ajudar a resolver o visto, comprar passagem e carro, além de tê-la pedido em namoro e casamento!!! E isso que nem date eles tiveram.

No dia da praia, depois de muito esforço, ele pareceu gostar de conversar e começou a contar sobre a vida, histórias e tradições da Índia, em particular de Punjab, de onde ele veio.

Punjab é uma região imensamente rica perto da Caxemira, como a gente pôde entender pelo mapa que ele tatuou no braço e mostra toda vez que fala de seu país. O idioma que eles falam tem o mesmo nome do estado. Segundo ele, na Índia se falam mais de 300 dialetos. O mais famoso deles é o Indi, mas nem todo mundo fala Indi. Por isso, a língua universal acaba sendo mesmo o inglês. "The Punjab Boys" são conhecidos em toda a Índia como um povo guerreiro e respeitado. O orgulho da terra natal ele ostenta por onde passa, com símbolos adesivados no carro, tatuados no braço e pendurados na enorme corrente de ouro que ele usa no pescoço.

Minha amiga acho que ainda não se decidiu se gosta dele ou não. Ele é dedicado, atencioso (até um pouco demais) e bonito (baixinho, meio bombadinho, cabelo raspado). Mas leva tudo a ferro e fogo. Se está apaixonado, só pensa na pessoa. Eu até tentei me segurar pra perguntar que ele dia ele faz aniversário. Essa história de taurina e pisciano há muito já perdeu a graça, mas ela também ficou curiosa. Resposta: 29 de fevereiro. Cansou, né?

A festa começava às 8h30. Saímos de casa às 10h, o que é um bom horário. A gente chegou e o moço ligou pro amigo policial dele, que já estava no lugar. O cara veio receber a gente na porta. Na frente da casa, um monte de carros estacionados, o que dava a impressão de que a festa estaria boa, quem sabe até com as 200 pessoas prometidas. Entramos e a primeira constatação foi "nossa, só tem homem aqui". Mas a gente logo viu que não tinha só homem. Duas mulheres de salto alto, tanguinha azul ou roxa e preta como tapa sexo, cabelo muito comprido, solto e peitos à mostra desfilavam pela sala. Como a gente foi descobrir depois, essas eram as garçonetes. "What can I do? This is an australian party, man", me explicou o amigo que trouxe a gente pra lá.

Conheci uma outra menina, essa convidada, vestida. Tinha mais umas três na casa. Ficamos um pouco na varanda, sentadas, até começar a tocar "Seigh is King" - uma música sobre Punjab que a gente já tinha quase decorado de tanto ouvir no carro. Fomos dançar todas empolgadas, entretanto meio distante do monte de indianos do lugar, que pulavam e usavam o taco de bilhar em suas coreografias.

Por três vezes eu pedi pro amigo me ensinar a dançar indian music, mas ele estava muito bêbado pra manter o mesmo pensamento por dois segundos na cabeça.

Jogamos bilhar, eu e as meninas, de três mesmo, sem muitas regras. Então, o resto da casa compensou a falta de atenção. Quando acabaram as bolinhas, fiz dupla com um indiano de meia idade, que me cansou em menos de uma partida. Pela primeira vez em muito tempo, pedi pra ir embora. As meninas gostaram da idéia, mas tínhamos que falar com nosso amigo.

Enquanto a gente não se resolvia, pedi pro dono da casa pra tirarmos uma foto com as garçonetes, que poucos segundos antes dançavam no colo de um dos convidados, imenso de tão gordo.

Elas estavam no quarto, se trocando. As duas eram simpaticíssimas e mesmo quando estavam servindo, pareciam mega à vontade sem roupa. Com frio, como constatou minha amiga, mas à vontade.

O aniversariante explicou que a gente era do Brasil e que por isso queria uma foto de recordação. Uma delas se desculpou e disse que não tirava fotos. A outra, mesmo já de calça jeans, aceitou na hora e ainda perguntou se a gente não queria fazer topless com ela. O "oh, no!!! I am fine" nunca foi espontâneo. Tiramos a foto as quatro, de pé em cima da cama do cara. Saímos do quarto, jogamos mais uma partida, dessa vez com o único loiro da casa, e então fomos embora.

Nosso amigo, de tão bêbado, nem conseguia ficar parado. Juntou uma trupe de uns cinco, seis guardinhas pra convencê-lo de que ele não poderia dirigir. Eu estava achando toda a festa muito louca e já me divertia, conversando com os moços. O amigo policial, muito, mas muito gente boa, ia nos levar pra casa. Entramos as três meninas no banco de trás do carro e o amigo ficava do lado de fora, se recusando a entregar a chave dele. Eu estava do lado da janela e perguntei pro motorista de podia roubar as tais chaves. Ele deixou. Eu abri o vidro e, toda feliz, arranquei o chaveiro da mão do indiano. Na pressa, quase arranco junto o fone do iPod.

Como não tinha mais como lutar, ele entrou no carro, veio nos deixar e voltou pra festa. Ainda ligou depois, queria dormir aqui, mas minha roommate, saturada, cortou qualquer possibilidade. No dia seguinte, uma mensagem no celular da outra, oferecendo carona pra casa dela. Quando as meninas olharam pela janela, foi aquele susto! O carro dele parado, ali na frente. Não ia nem dar pra fugir. Mas não era o carro dele. Era parecido, mas sem o enorme adesivo branco de uma frase em Punjab junto com o rosto de Singh (o herói deles que matou um general britânico depois de tê-lo caçado por 18 anos). Então não era o carro.

Ainda meio com sono, mas sem ressaca, eu fui descarregar as fotos da terceira máquina no computador. 805! Lógico que não era tudo de ontem, mas é mais fácil do que selecionar uma a uma. Pra dar bom exemplo, mostrei pras meninas que é bom apagar as fotos depois de descarregar e deletei todo o arquivo de ontem da minha máquina. Dois segundos depois lembrei que não tinha passado as fotos da festa, só as da praia. Idiota, mas, segundo opinião de todas, talvez tenha sido até melhor manter as imagens dessa festa só na nossa cabeça.

Sunday, November 02, 2008

Com ou sem festa, it is halloween

A tradição mesmo vem dos Estados Unidos. Quer dizer, eu acho, já que nunca vi nenhum filme de crianças londrinas brincando de trick ou threat. Mesmo assim, halloween já virou coisa comum no Brasil. É lógico que tem a galera contra e que, pra fortalecer a cultura brasileira, resolveu fazer do dia 31 de outubro o Dia do Saci. Eu, na melhor atitude antropofágica, não teria o menor problema em celebrar os ícones nacionais, mas como ainda não inventaram nenhuma atração extramemente divertida, como futebol pulando de uma perna só ou festas com pessoas vestidas de saci ou curupira, continuo indo a comemorações ao Dia das Bruxas.

E se eu fazia isso no Brasil, na Austrália não ia ser diferente. Infelizmente, não tenho a desculpa de estar no Hemisfério Norte, já que continuo abaixo da linha do Equador, mas eles falam inglês, então deve ter alguma coisa a ver.

Procurei mais ou menos, mas nenhum club grande de Perth fez propaganda de noite à fantasia - ao contrário dos de São Paulo, que me mandaram mil e-mails. As melhores festas eram as particulares e a gente acabou confirmando presença na dos meninos de Fremantle. Como acontece na maioria das vezes, sobre a festa mesmo, não tem muito o que contar. O melhor é a preparação.

Apesar de adorar bruxas, só fui vestida assim uma ou duas vezes. Sempre acho sem cratividade. Mas em outro país, halloween, resolvi arriscar. Comprei um chapéu laranja numa lojinha tipo Armarinhos Fernando que tem aqui. Paguei 3 dólares, mas não tava feliz. Num dia em que terminamos a aula mais cedo, fomos eu e minha roommate pra Second Hand shop - meu lugar favorito pra fazer compras. Levei entre outras coisas um vestido verde água mega curto de 12,50 (que pretendia usar pra ir de fadinha) e um chapéu preto, diferente, que não tinha o menor porque além de ficar legal com meu cabelo novo, acima do ombro.

Chegando em casa, depois de muito pensar, deu um clique e resolvi ir de leprechaun, em homenagem à loira irlandesa. Na verdade, percebi que era uma leprechaun e não sabia. Tinha todas as coisas que precisava, mesmo sem ter trazido nada de especial do Brasil. Peguei minha camisa branca, decotada e de babado, minha saia pregueada, o casaco verda compridinho, um cinto preto usado do lado contrário, a meia verde limão até o joelho que ganhei de uma amiga dois meses antes e que nunca tinha usado, meu chapéu novo customizado com um trevo de quatro folhas e um quadradinho laranja recortados do EVA que sobrou do meu mural e meu sapato de trabalho.

Um dia antes da festa, guardei tudo na bolsa, já que iria direto do trabalho pra lá.

No próprio 31 de outubro, parecia realmente que a bruxa estava solta. Quebrei o negocinho de dosar bebidas quando queria trocar a garrafa de Canadian Club, fiz confusão com os números do restaurante e ainda quebrei dois pratos quando fiz uma pilha maior do que deveria em cima da mesa. Meu novo chefe, um japonês estressado gerente de uma taverna na City, disse que se eu quebrasse mais alguma coisa ele me mandava pra casa. Eu cheguei a cogitar que talvez fosse melhor mesmo. Além do que, se fosse, conseguiria ir com as meninas pra festa, em vez de sozinha. Mas, depois do meu break, tudo melhorou e quando ele me perguntou se eu tinha quebrado mais alguma coisa eu respondi toda orgulhosa "não!!! Nem mais um único copo!!!". No final do dia quebrei mais um copo, mas foi quase dentro da lava louças, então ele não viu e nem eu me senti culpada.

Aquele dia o bar ficou vazio na hora do almoço, cheio no happy hour e vazio de repente. Melhor pra mim, que fui dispensada às 9h e consegui ir pra casa pra me trocar e ir com as meninas - minha sharemate, vestida de vampira, e a amiga dela de Fiji, se fantasia - pra estação de trem. Já na ida pra casa, fiquei feliz ao ver umas pessoas fantasiadas. Tem gente que pareceu que nasceu pra Halloween, como um casal que parece ter vindo do mesmo lugar que os caras do Manifesto, inclusive a mesma idade (uns 15, 17 anos), e que estavam todos de preto, maquiagem perfeita. A bolsa da menina era um caixão com corrente de prata e eles ainda levavam uma aranha de pelúcia como marionete.

As nossas fantasias, por sua vez, não chamavam menos a atenção e a gente ainda contribuiu tirando mil fotos dentro da estação. Um velhinho, sentado na cadeirinha da plataforma, disse ter adorado as nossas roupas e perguntou se a gente era turista, já que só foi lembrar ue era halloween uns 15 minutos depois. O cara nasceu no Canadá. Quando tinha os seus 20 e tantos anos resolveu fazer um tour pela Europa. Acabou o dinheiro, ele não queria voltar pra casa, comprou a passagem mais barata que tinha e que era pra Perth, Australia, um lugar onde nem café café decente tinha. Isso foi há mais de 30 anos. Desde então ele fica um pouco em cada lugar. Já morou em vários estados da Austrália, Europa, Ásia. Ultimamente, vive em uma casa paga pela Seguridade Social australiana. Casa boa, comida, tudo pago pelo governo, mas o lugar é tranqüilo demais, segundo ele. Dois australianos e um aborígene também vieram puxar assunto. Todo mundo adorando os lookings.

Encontramos a outra amiga na estação de Perth, demos meu chapéu laranja pra ela e rumamos pra Fremantle.

Em dias normais em Fremantle você já conseguiria ver pessoas fantasiadas. Ela é uma cidade pequeninha, cheia de europeus - ao contrário de Perth, que tem muito mais asiático - e, por causa disso, com muito mais gente louca. Quando íamos da estação pra lá, vimos uma festa de Halloween num club famoso e conhecemos algumas pessoas no meio da rua. Um menina, bem gordinha e vestida de fada, viu a gente de longe, veio correndo, parou na noss frente e, extremamente feliz, gritou "happppyyyyy hallooooweeeeeeeennnnnn", a quem eu correspondi com o mesmo entusiasmo. Uma outra apontou pra mim e disse, toda meiga, "look... a leprecoun", o que me deixou felícissima, afinal, minha fantasia tinha sido reconhecida.

Na festa mesmo, ficamos uma hora. Pouco antes da gente chegar, alguém derramou cerveja no computador do dono da casa. Isso junto com um desentendimento com outros brasileiros fez com que o clima não estivesse dos melhores. Os únicos que não deram o menor sinal de estresse eram os árabes, amigos deles, que não desempolgam por nada desse mundo e se divertiam absurdos colocando e dançando aquelas músicas esquisitas deles.
Na verdade, se a gente não tivesse chegado tão tarde, a festa estaria perfeita. Mas como à meia-noite nós éramos umas das únicas sóbrias do lugar, preferimos voltar à 1h30, pegar o último trem e voltar de táxi de Perth, o que daria $12 em vez de $50, $60.

Na volta, perdemos uma das meninas, que acabou não pegando o trem depois de demorar demais no Hungry Jacks. No caminho de volta, conhecemos o guardinha do trem, indiano, com quem conversamos o caminho todo e que nos deu uma carona pra casa. Economia de 4 dólares e mais um motivo pra adorar festas à fantasia.

Slipknot

Saindo da estação de trem eu percebi que estava vestida com a minha combinação de sempre pra shows de rock: calça comprida, blusa preta, tênis. A diferença é que dessa vez eu estaria do outro lado do balcão, vendendo as cervejas em vez de comprando.

Apesar de ser a cidade mais isolada dentro do continente mais afastado, Perth recebe uma quantidade considerável de shows. Parece que só este anos já estiveram por aqui Bon Jovi, Alanis Morissete, Celine Dion, Eros Ramazoti, The Police, Alicia Keys e, o mais recente deles, Slikpnot.

Até semana passada eu não sabia da existência desse show. Fui descobrir depois de um desses acessos de 'preciso arranjar outro emprego'. Tenho uma coisa dessas mais ou menos uma vez por mês, às vezes mais freqüente. Fui até o seek, site de emprego mais famoso daqui, e fiz uma busca pelas vagas no ramo hospitaleiro (que inclui bar service) e marketing (onde também entra a parte de promoção). Fui preenchendo ofertas até chegar nas de 15 dias antes. No meio do caminho encontrei essa empresa de shows e eventos. Fiz o cadastro, consegui um login pro site deles e me ofereci pra trabalhar no show, que seria em menos de uma semana.

Três dias depois me ligam. Estava no show! Não tanto por mérito meu. Apesar de já ter uma experiência considerável em serviço de bar, aqui faltam empregados, então se você tiver o tal RSA (Responsible Service of Alcohol, um curso obrigatório pra quem lida com bebida) já é meio caminho andado.

Diferentemente do que acontece no centro de convenções do cassino, onde o bar fica do lado de fora do lugar do show (como a bilheteria e o telão do cinema), em Showgrounds o bar fica dentro do próprio pavilhão, bem na entrada, mais ou menos como acontece no Brasil. São vários guiches e todos atendem em duplas. O cliente faz o pedido pro caixa, que tem um bar runner do lado. Enquanto o caixa cobra o valor, o bar runner pega o seu drink e abre a latinha. Todas as bebidas são em latinha, com exceção da água em garrafa ou copo de plástico (a primeira é vendida, a segunda, de graça).

A Austrália tem diversas leis pra inibir o consumo excessivo de álcool. Uma delas é essa do RSA, um curso que explica o valor alcóolico de cada bebida, dá dicas de como identificar se uma pessoa está bêbada e te avisa que se você vender álcool pra alguém bêbado ou menor de idade e ele aprontar, você pode vai ser indiciado também. Mesmo que a pessoa não faça nenhuma besteira, você e o bar serão multados em no mínimo mil e no máximo 10 ou 50 mil dólares.

Outra medida que eles usam é a de dar água de graça. Pra isso, além das garrafinhas, que custam $3,50, todos os bares, mesmo esses de shows ou feiras, distribuem copinhos com água corrente pra quem pede.

No show do Slikpnot, eu fui bar runner e passei cerca de 4 horas abrindo latinhas com a ajuda de uma colher de chá - meu chefe tinha pedido pra trazer uma de casa, mas como não tinha entendido a finalidade, trouxe só um abridor de tampa de garrafa, que acabei não tirando da bolsa.

Escolhi ficar como bar runner porque achava que assim ia dar pra conversar mais com os clientes e, portanto, seria mais divertido. Não é novidade pra ninguém que adoro gente bêbada. Acontece que eu não sabia desse esquema de ter que ficar atrás de uma caixa. No final, ela é quem conversa mais com as pessoas. Eu converso também, mesmo porque com essa altura pequeninha nem que eu quisesse ia conseguir me esconder atrás da loirinha. Além disso, os bêbados também gostam de mim.

No fim, bar runner é realmente mais cool. E isso nos dois sentidos da palavra. É mais legal porque é bem mais legal ficar correndo pra pegar e abrir quatro latinhas correndo do que simplesmente apertar quatro botõezinhos, mas também é mais cool porque durante vários momentos eu praticamente parei de sentir a minha mão de tanto que enfiava ela na água extremamente gelada pra tirar as latinhas.

Mais ou menos às 9 e meia da noite, alguém lá de cima resolveu fechar o bar. A platéia já estava ficando alterada, 'causando', na melhor gíria brasileira, então fecharam todos os caixas. Fiquei um tempinho enrolando e então fui ajudar o resto do povo a entregar água pras pessoas. 90% delas reclamaram que a não estávamos mais vendendo cerveja, mas, como não tinha outra coisa, vai água mesmo. Um, dois, três copos um seguida do outro e por fim outro jogado na cabeça. Alguns ensaiaram aquela zona de jogar água uns nos outros, mas não extrapolaram muito.

A água serviu mais pra acalmar os ânimos pela falta de cerveja, mas, segundo aprendi no meu RSA, de nada adianta beber água depois de ficar bêbado. Ela é boa antes, pra ocupar o espaço que seria destinado ao álcool e te fazer beber menos. Depois, com água ou sem água o tempo pra ficar sóbrio vai ser o mesmo.

Mesmo com a latinha de Tooheys Extra Dry custando $7 e o Bourbon and Coke a $9,50, o povo bebeu bastante e ficou revoltado com o fechamento antecipado do bar. Um deles vai ficar marcado como o meu primeiro cliente problemático.

O cara é grande, gordo, careca e com barba. A fisionomia lembraria o ferreiro (ou prefeito?) das histórias do Asterix. Também pode lembrar um pilar, de rugby, mas faz tanto tempo que não jogo que me sinto até mal de usar essas referências. Ele pediu cerveja, eu disse que não tinha mais e ofereci água, ele reclamou, como todo mundo, mas não quis a água e nem foi embora. Ficou falando meio sozinho, meio com o amigo, meio com a outra menina que tava trabalhando do meu lado, também ditribuindo água. Depois de um tempo, ela chamou os seguranças que só pediram pro cara ir embora e ele ficou mais irritado, mas foi. Eu tinha quase ficado com pena dele, achando exagero dela. Depois de cinco minutos, ele volta. Me pediu cerveja. Eu disse que não tinha. Ele então pegou um copo de plástico com água que estava no balcão e bateu na mesa. "Não, não, cerveja, não!". No momento em que o copo bateu na mesa, a água saltou do copo. Eu tranqüilamente dei um passo pra trás, mas só por dar, já que não ia ficar muito mais encharcada do que já estava, de tanto mexer com gelo e água.

Na hora me veio a imagem do gigante do 'João e o pé de feijão' batendo o pé fazendo riminhas pra dizer que "mim sente cheiro de humano". O cara e o amigo magrinho dele fizeram isso mais umas três vezes até que os seguranças vieram, conversaram e acho que os fizeram irem embora vencendo pelo cansaço, já que ninguém fez a menor menção de encostar no pequeno monstro.

Um pouco antes das dez e meia, meu chefe veio com o papel e a caneta pra eu assinar o ponto e ir embora. Saí da área restrita, fiquei mais cinco minutos, ouvi a última música enquanto conversava com um dos meus clientes da água (com esses sim, consegui bater o maior papo). Acabou o show, voltei pra casa de trem, como a maioria dos fãs do Slipknot. Na estação, uma menina me perguntou se eu tinha acabado com toda a água. Achei o máximo a simpatia dela e continuei conversando. Umas três frases depois, percebi que ela não era cliente. Tinha trabalhado comigo no final da noite. Mas australiana é tudo parecida. Das cerca de 20 meninas, só 4 (eu incluída) eram morenas. E entre as loiras a maioria tem o mesmo corte de cabelo, aquele todo, mas todo repicado. A tentativa é de deixar diferente, já que todas elas tem o cabelo lisinho e fininho. Como resultado, o cabelo fica com volume e com uma cara de desarrumado - o que não podia ter mais a ver com anos 80 e com esses shows em que me enfio.

Saturday, October 25, 2008

Acertando os ponteiros

Coloca a setinha no primeiro número, que é cinco. Dá três voltas no sentido horário. Agora gira no sentido anti-horário, passa uma vez pelo cinco e vai até o segundo número que é 27. Agora gira no sentido horário de novo, passa pelo 5 e vai pro terceiro número, que é 2. Por fim, é só tentar abrir.

Na verdade, o certo seria "por fim, é só abrir", mas como eu esqueci qual era o meu armário, eu repeti essa operação umas vinte vezes. Por vezes no mesmo cadeado, porque não tinha certeza se estava fazendo do jeito certo. Isso tudo às 10h30 da noite, depois passar as últimas quatro horas trabalhando no centro de convenções de Perth. Coisa fácil, só vendendo bebidas, todas em garrafinhas individuais, durante a entrada e o intervalo do show de uma cover qualquer do Abba.

Eu cheguei ali através de uma agência de trabalhos temporários. No dia anterior, aceitei dois shifs (dias de trabalho) pra semana seguinte e, já que estava tão solícita, ela perguntou se eu não queria trabalhar hoje em Burswood (onde fica o centro de convenções e o cassino). Eu aceitei, ela me passou os detalhes e depois de meia hora pediu desculpas, disse que eles diminuíram o número de funcionários e por isso eu não precisaria mais ir. Hoje, às 4 da tarde, outro funcionário me liga pedindo pra que eu fosse pro tal shift, já que alguém tinha desmarcado em cima da hora, como acontece com certa freqüência por aqui. Inicialmente, eu tinha que estar lá às 5h30, mas como isso era impossível, ficou marcado pras 6h.

Cheguei, de ônibus e trem, meio atrasada, correndo, como sempre. Peguei credencial, uniforme e cadeado, que tinha número, mas não adiantou, já meu armário estava sendo usado. Im, a menina que conheci no outro shift, me viu e veio falar comigo, toda feliz. Eu não lembrava dela, mas, graças àqueles meus momentos de "cuidado pra não ser grossa", preferi omitir esse fato. Ela me mostrou outro armário vazio, eu joguei as coisas lá dentro, aprendi a abrir o cadeado, fechei, fui encontrar com a supervisora.

Na volta, não lembrava o número. No máximo, sabia mais ou menos a posição dele em meio às dezenas de caixinhas prateadas. Várias pessoas vieram me ajudar, me mostraram como abrir os seus respectivos cadeados, mas todas com muita pressa pra ficar por lá. Im, por sua vez, é muito, mas muito baixinha e a única certeza que eu tinha é que minhas coisas estavam na fileira mais alta. Por isso, torcer era o maior apoio que ela podia me dar.

Fiz umas dez tentativas. Nada. De repente, força um pouquinho, abriu! Quando olhei dentro, simplesmente não era o meu. Analisei umas três vezes. mas nem era meu estilo de bolsa ou casaco. Fiquei o cadeado depressa antes que alguém percebesse que a delicada aqui tinha arrombado o armário dos outros. Tentei de novo os outros. Pior que nem abrir à força, como tinha feito com aquele, eu consegui. Tentei alguns mais pra frente.

Tinha tantos outros armários ainda, não ia dar certo esperar todo mundo sair pra ver qual sobrava. Me senti em São Paulo de novo, quando esquecia onde tinha deixado o carro. O problema é que dessa vez em nem sabia reconhecer meu carro. Uma outra menina veio me ajudar. Ligou pro meu celular, mas por mais que a gente encostasse o ouvido na portinha de metal, não deu pra escutar o celular dentro da bolsa, dentro do armário. As pessoas que passavam olhavam, estranhavam. Ela foi embora, ficamos só eu e Im. Resolvi tentar todos os cadeados, sem exceção ou esperança. Poucas vezes detestei tanto uma coisa quanto detestei esses cadeados. Se fosse chave, tudo seria mil vezes mais simples.

Algumas tentativas. Novo de repente, o cadeado abriu. Olhei pra Im com uma cara de "será?". Puxei a port do armário e lá estavam meu casaco e minha bolsa. Num acesso de felicidade que definitivamente não é minha cara, abracei a tailandesa de 1,50m que também pulava de emoção. A coitada estava morrendo de fome e tinha prometido me dar carona, já que às 11h da noite não tem mais ônibus pro trem e a primeira menina que ia me levar já deveria estar deitada há muito tempo.

Jantamos de graça no restaurante de funcionários e ela me deixou na estação de trem. Quinze minutos depois estava em casa. Ainda no carro, porém, soube que minha saga girando botoezinhos pra direita e pra esquerda não tinha acabado. Nesse mesmo dia, começou o horário de verão na Austrália. O relógio de patinho, porém, continua errado.

Monday, October 20, 2008

Fim do tempo de experiência

Nesse domingo, dia 19, fez três meses que estou na Austrália. Já? Ainda? Não sei qual a sensação mais apropriada. Nesses 90 e... dois dias que estou aqui aconteceu muita coisa, mas pouco a pouco tudo começa a entrar numa rotina, então vale a pena relembrar. A maioria dos eventos eu já relatei aqui de uma forma ou outra, então vou tentar não me estender muito, mas duvido que consiga.

Cheguei em Perth, fui pra homestay, comecei o curso de inglês, comecei a procurar casa, fui informada que estava no curso errado, troquei pra Management, arranjei uma casa, fui morar com minha amiga. No curso, já passei por cinco grupos, escrevi dois artigos de jornal, quase demiti uma menina, aprendi a desenhar usando vetores e voltei pra programas com mais recursos que o Paint, pra satisfação de Lucy.

A casa
Aqui fiz as maiores faxinas da minha vida (não que eu tenha muita experiência nisso, mas a casa estava realmente suja). Logo no primeiro final de semana passei mais de três horas limpando o banheiro. A janela tava emperrada de tanta sujeira. Delicada como sempre, acabei quebrando o vidro enquanto tentava abri-la. Já a cor da madeira mudou de cinza quase preto pra branco, na hora que saiu todo o pó impregnado.

Equipando mesmo, a gente foi aos poucos. A primeira compra foi de comida (pão, presunto e queijo), pratos (de papel) e produtos de limpeza. Com alguns dias de casa, recebi pelo correio um dvd player de presente do meu pai. Mas a TV é tão antiga que não tinha entrada de três fiozinhos, só aquela de tv a cabo. Comprei o tal Radio Frequence Modulator (cujo nome aqui é de verdade, sem nada a ver com organizações Tabajara), mas daí o dvd foi quem pifou. Passamos um mês assistindo filmes no note, até que hoje, depois de não aguentar mais ver propaganda e música alternativa durante a madrugada, fiz a reposição por outro aparelho, de 39 dolares, da marca Palsonic e que veio até com pilha pro controle remoto. A proximidade da China tem suas vantagens.

A casa é grande, bonita, mas no começo estava meio impessoal. Comecei a sentir que era realmente minha quando comprei meus vasinhos de flores e enchemos o lugar de fotos. No meu quarto, dois murais enormes. Um com fotos do Brasil (despedida e aniversário) e outro com fotos daqui. Na sala, uma da Coca e na geladeira, minhas e de minha roomate.

Contrariando a indignação do chinês, dono da loja, que insistiu que aquilo era coisa pra criança e não pra gente, o relógio vermelho do Patinho Feio deu todo o toque na parede da cozinha. Os pratos de louça (três no total), liquificador e batedeira a gente comprou relativamente rápido, já que minha amiga queria fazer sopas no liquidificador e eu bolos com a batedeira. A lava-roupa também não demorou muito pra chegar, graças ao vendedor solícito que trouxe a gente e o bicho pra casa. Ele, aliás, voltou aqui na semana passada. Bateu na porta do nada e perguntou se a máquina - de segunda-mão - estava funcionando bem. Não sei se ele estava esperando um convite pra entrar e tomar um café (cujo funil até hoje é a parte de cima de uma garrafa d'água cortada), mas chegou no pior dia possível. Eu estava no quarto, acabando a segunda mega faxina dessa casa, na qual fiquei três horas só tirando as três mãos de tinta do exaustador, já que os donos acharam mais fácil pintar o negócio toda a vez que pintavam a parede em vez de simplesmente limpá-lo de vez em quando. Minha amiga, por sua vez, se entretia tentando carregar três pratos de uma só vez, por conta do trabalho. No way da gente parar pra dar atenção pra ele.

Por fim, o rádio, cor de rosa, veio depois de um mês, como presente de aniversário pra ela.

Nessa semana, minha ex-homestay e as suas novas estudantes vêm comer aqui e a grande preocupação é comprar mais pratos, já que três pratos definitivamente não são suficientes. Quando os meninos vieram fazer feijoada aqui, um deles teve que usar prato cor de rosa de plástico pra poder comer todo mundo ao mesmo tempo. Por sorte, a outra amiga chegou mais tarde e pôde lavar um deles pra almoçar.

Com comida a gente se vira. Meu arroz com brócolis tem ficado cada dia melhor e o da minha amiga nem queima mais. Fora isso, macarrão (básico), linguiça, purê de batata, salada, muita comida semi-pronta, batatas, frango assado, grelhado, bife simples e a cavalo. A lista tem ficado cada dia maior e melhor. Mas como eu não tenho que provar nada pra ninguém e cozinhar pra muita gente dá trabalho, nessa quarta-feira vamos acabar na pizza mesmo.

Os australianos
É meio difícil definir um povo inteiro, então vou usar o mesmo texto, assim não fico tentada a entrar em detalhes. Na primeira balada que fui, passamos do lado de um grupo de australianos e minha amiga comentou "bonitos né, mas é só pra olhar". A maioria dos australianos, de Perth, pelo menos, não é de chegar e conversar. Principalmente não em balada. As australianas, pra compensar, são mega atiradas, dançam se esfregando nos moços e eles ficam numa boa. O problema - ou a solução - é quando elas fazem isso com brasileiros.

Aussies são muito de sair entre amigos. Fazem muito barulho e bebem muita cerveja. Nenhuma crítica nessa sentença, mesmo porque rola uma certa identificação. Já quando eles ficam bêbados, se tornam as pessoas mais sociais e explosivas do mundo. Puxam assunto mas também brigam muito - entre eles. O lado bom é que eles brigam só de soco. Ninguém usa arma de fogo ou mesmo faca. O lado ruim é que eles sabem onde bater. O tema de uma das propagandas governamentais que mais passa na TV diz "um soco pode matar", porque realmente tem gente que morreu com um soco dado no lugarzinho certo, entre o queixo e o pescoço, acho.

Por conta dessa insegurança, grande parte dos relacionamentos aqui começa pela internet. O da minha ex-homestay é só um exemplo. Por outro lado, é difícil ver australiano meeeesmo por aqui. Segundo estatísticas coletadas numa mesa de bar, só 30% de Perth é constutuída por aussies e a cada semana chegam cerca de 2000 estrangeiros na cidade. Até agora não conheci nenhum aussie antipático, principalmente entre os homens. "Friendly but not your friend", eles são legais, conversam, mas são poucos os que ficam realmente próximos de estudantes internacionais. Normalmente eles ficam no grupinho de conterrâneos deles. Por outro lado, há aqueles que tentam se relacionar quase que só com gente de fora e aprender o máximo de línguas possível. Esses são figuras.

O clima
Todo mundo diz que a Austrália parece com o Brasil, mas eu sou de São Paulo e vim pra Perth. Há três meses era comum a temperatura mínima ser 4 graus. Já essa noite, depois de um dia torrando (com protetor solar) na praia, eu não consegui dormir por conta do calor. Às 3h da tarde de hoje fazia 35 graus na cidade. E isso que nem chegou o verão. Não é à toa que essas meninas andam quase peladas.

Os bichos
Minha sharemate disse que vai fazer um álbum chamado "Patty e os bichos", de tanto que tirei (ou tentei tirar) foto com cavalo, ovelha, porco, rato e mais um monte de animais que encontramos numa feira de agropecuária daqui (o país muda, mas os programas de índio permanecem). Em homenagem a ela, resolvi incluir esse item no texto. Um dos maiores motivos pra eu ter vindo pra Austrália é por conta da preocupação do país com o meio ambiente. Estava certa. Em Perth ninguém fala em poluição (coisa que não acontece em Sydney, mas eu tô no interior, vou falar daqui) e pelo menos uma vez a cada quinze dias tem alguma notícia relacionada a bichos nos jornais. Já foi um tubarão que apareceu perto da costa, um bebê baleia que confundiu um navio cargueiro com sua mãe (e por isso ficou atrás dele por mais de uma semana, até que, quando estava quase morrendo de fome, foi morto pela Guarda Costeira), um canguru que foi torturado por um cara, que depois foi preso e um crocodilo gigante que engoliu um turista. Por mais que tenham procurado, só acharam a máquina fotográfica dele, na beira do lago.

Na nossa própria casa de vez em quando aparece umas aranhas. Já pesquisei e não se tem registro da última pessoa que morreu de uma picada de aranha por aqui, então, não mato, mas também não ajudo. Ontem uma delas morreu afogada enquanto eu tomava banho. Mas foi burra ela de querer passar debaixo do chuveiro. Em toda a cidade, calçada é só uma faixa de concreto no meio da grama que fica frente das casas. Na maioria das ruas elas ficam só em um dos lados. Só as avenidas têm calçada dos dois lados. Quando o dia está frio e úmido, os caracóis que ficam de um lado da calçada resolvem atravessar por outro de madrugada e a gente, indo ou voltando da balada, tem que ficar desviando pra não pisar. As lesminhas são tão grandes que minha sharemate brinca que é a invasão alienígena. Já a outra amiga, quando vai dormir em casa, prefere andar no meio da rua pra não correr o risco de ouvir aquele creck nojento. Das aranhas não tirei foto, mas se alguém quiser, dá pra ver até a gosminha que caracol deixa por onde passa. Qualquer dia faço um vídeo.

Thursday, October 16, 2008

Which clothes?

(texto escrito pro meu curso há uns dois meses. Como eu estudo Management e não inglês, se alguém quiser me dar toques de gramática, eu agradeço.

vocabulário útil: thongs = sandálias; rubber thongs = havianas ou alguma imitação delas)


At the first week of September, from 4th to 12th, takes place in Australia the Perth Fashion Festival. The event happens once a year and in 2008 completes its 10th edition. For this special date, there are many free attractions in and around the City, which emphases the idea that fashion isn’t restricted at parades. The real fashion is on the streets and reflects peoples’ life style. This, actually, is one of the first things international students note when they come to another country. Fashion can change based on which place you are and sometimes is good to be prepared to know what is and what is not suitable.

According the Polish Magda Korecki, International Students adviser of Tafe’s Art, Design & Media courses, people in Australia have too many styles, but the main ones are the Bush Wear, used by those ones that came from the country and decided to continue dressing themselves as cowboys and cowgirls, and the Beach Wear, stamped by shorts with flowers and more common specially now, when the Spring-Summer season begins.

“The Australians are very practical in the way of dressing. In Europe, for example, people are more formal. Here, there are not some many rules. The Aussies use what they want. If you feel comfortable, that is ok”. One example, explain her, are the thongs, specially the rubber ones. “Those shoes are very popular here. People use to have a lot, of many colours and use it in all occasions. It is part of the Beach Style”.

At evening, boys continue with the basic look, while the girls invest in a sexier and fancier choice, using very short dresses or dresses with not back, sparkling, silver, high heels.

When in Rome, do as the Romans do?

If you decide to mix your country’s style with the Australian’s one, Perth has brands for all tastes and wallets. Murray and Hay Street, at the City, have a lot of good stores. One of the most famous is Myers. On Fridays the stores remain open until 9 PM.

Who wants something more glamorous and also more expensive can visit the stores of Kings Street, also in the City.

If the idea is buying without spending much, there are others department’s stores as Target and Kmart with basic items - "they have nothing special, but have good prices" – and some discount shoppings. The Harbour town is most famous one, with a lot of outlets and sales. It is easy to go, close of West City Train Station.

For those ones who want to meet Perth more deeply while do shopping, the suburbs use to have some shopping centers. Almost all they are open until 9 PM on Thursdays.

Fremantle also have good opportunities. Its market has more than 150 stalls with clothes and jewellery, besides food and craft. It is open 7 days, normally until 5 PM and Thursdays until 9 PM.

Ahhhh, o verão

Não, o verão ainda não chegou, mas tá quase. E pra quem passou os últimos meses passando frio (por pura teimosia em não admitir que estava mesmo muito frio), esses últimos dias de calor em Perth têm sido uma bênção. Infelizmente, ainda não deu pra ir pra praia. O curso é mais puxado do que imaginava, então o meu tempo livre eu tenho passado na frente do computador, brincando de estilista ou de administradora. Mesmo assim, acabei descobrindo que essa casa vale cada centavo que estamos gastando.

A porta enorme de vidro dá pra avenida e do outro dela tem um parque enorme. Ainda não pisei no parque e acho isso uma vergonha. O problema é que, como graças à minha vida sem carro não tô precisando fazer muito esforço pra perder peso, correr por correr não é uma opção. Um dia, os meninos até vieram aqui com a bola de futebol, mas a feijoada que a gente comeu antes impossibilitou qualquer atividade física.

Sim, feijoada, futebol e brasileiros. Não parece, mas estou na Austrália. Nesse momento, deitada no sofá, olhando pro tal parque e ouvindo a versão forrozeada de Gilberto Gil pra Three Little Birds, do Bob Marley (pra possível surto de Lucy, que detesta o tal do reggae).

Dizem que o verão daqui é insuportável. Deve ser mesmo. As australianas já começaram a mostrar isso pelas roupas. Foi só sair um solzinho que todo mundo saiu de micro shorts. Micro mesmo. Os meus, que Lana Banger (agora assumidamente Paullette) dizia que eram de Carla Peres, são muito grandes! E não é exagero. A maioria das meninas é mais magrinha, então não fica feio. Todo o resto é bem gordinha (aqui parece que é tudo em extremos), mas elas usam as mesmas roupas (sobre as roupas daqui, escrevi um texto em inglês pro meu curso; é bobinho, bem texto de revistinha, mas dá uma idéia).

Toda vez que vejo uma dessas mais animadinhas, lembro da minha mãe, preocupada, enquanto eu fazia minha mala. “Pra que você vai levar essas coisas? Nem todo lugar é como o Brasil pra usar uma saia ou um shorts desse tamanho”. Pelo que vi, provavelmente, quando voltar, o discurso vai ser diferente “aonde você pensa que vai com uma saia desse tamanho??? Você não tá mais na Austrália pra se vestir assim”.

Exageros à parte, pouco a pouco, estou me libertando nas minhas calças jeans e, devidamente protegida com fator 60, volto a sair com as pernocas de fora. Elas ainda não estão boas, meio manchadas, pele bem branca por causa das queimaduras de três meses atrás, mas parece que o sol tem feito bem. Esse sol eu tenho tomado na porta de casa, nessa minha varandinha sem muros, sentada no chão com o note no colo, fazendo trabalhos.

Apesar da descrição maravilhosa (é mesmo), nesses últimos dias tenho sido uma leve falta do Brasil. Aqui é gostoso, mas quando está frio as pessoas não saem muito de casa e eu trabalho toda sexta-feira. As baladas durante a semana são boas, mas ainda não achei aqueeeeela festa, mesmo porque 90% delas terminam às 2h, mas esse assunto fica pra outro dia. Por ora, é muito bom perceber que o verão está chegando na mesma medida que meu curso acaba.

Tuesday, October 07, 2008

Tempos modernos

O que não é a tecnologia... Gossip Girls tem sido meu novo seriado favorito. O programa entra no ar na noite de segunda-feira, nos Estados Unidos e, terça-feira, já consigo baixá-lo para assistir em casa. Se esperar até quarta, daí já tenho o programa com legenda em português. E olha que a TV brasileira ainda está reprisando a temporada antiga.

Tudo bem, tudo bem, meus filhos conseguirão assistir a qualquer programa, no momento em que estiver sendo transmitido em qualquer lugar do mundo, sentados tranquilamente no banco de trás do carro enquanto vão para a escola... Mas vamos nos ater ao presente.

Quando nossos pais eram crianças, gente bonita era broto, diversão de moleque era carrinho de rolimã ou bolinha de gude e todo mundo podia brincar na rua, e roubar fruta do pé. O xingamento mais grave era viado e o maior perigo era ser atingido por uma pedrinha arremessada em um estilingue.

Passou tempo, revoluções, acabou guerra fria, caiu muro de berlim, criaram a internet, discoteca virou balada, nasceu o bebê de proveta... e nascemos nós também.

Pra não dizer que não brincava na rua, cheguei a brincar no jardim de casa, atrás do portão. Podia até levar as vizinhas, mas parei de fazer isso quando elas roubaram meu disco das paquitas.
Nunca me incomodou. Brincar na rua, claro, porque criei birra delas até hoje por causa do disco. Mas cresci ouvindo que a violência tinha roubado minha infância, que cresci trancada dentro de casa e por aí vai. Alguém me perguntou se isso me afetava?

Não temos rolimã, mas temos videogame; não tinha as ruas, mas a minha geração tem a internet, ou seja, o mundo todo; se não pego fruta do pé, vou ao SUPERmercado. CDF virou nerd, geek... e os carrinhos de madeira, as bolinhas de gude? Haha, joguinhos de computador, carrinhos de controle remoto, e até boneca que chora que nem gente.

A liberdade de brincar de pés descalços correndo no chão de terra batida não tem igual. Disso, não discordo. Mas liberdade também é poder comer gordura trans de um McNuggets com molho barbecue, poder passar horas conversando com uma amiga ou parente no exterior sem gastar um centavo, poder jogar videogame 3D com os melhores jogadores do mundo com as mesmas habilidades dos de carne e osso. Com a mesma cara e porte físico também. Ah, se comprar o joguinho pirata, ainda ganha uma narração do Galvão Bueno de brinde.

Liberdade é poder escolher qual é o besteirol quero assistir e a que horas posso assistir. E isso, só a minha geração pode se orgulhar de ter tido.

Por isso, se alguém disser que quando era criança o mundo era muito melhor, concorde. Mas isso não quer dizer que a infância dele foi melhor que a tua. Do que a minha não foi!
Agora me dá licença porque hoje é terça e eu já posso baixar o último capítulo de Gossip Girls.

XOXO

Wednesday, September 24, 2008

Surpresa!!!

Chega uma época na vida de todo mundo que a moda é festa surpresa. Muito mais fácil pro aniversariante e quase uma mostra de amizade de quem organiza. Essa quase não foi a tempo, já que eu e minha roommate já tínhamos combinado de fazer uma festa pra comemorar o aniversário dela. Mas daí a terceira amiga me veio com a idéia de festa surpresa - pra minha roommate e pra dela, que fazia aniversário dois dias antes (coincidência: uma taurina e uma virginiana em cada casa; a do dia 4 de maio com uma do dia 20 de setembro e a de 5 de maio com a de 22 de setembro). Eu concordei com a surpresa e a partir daquele momento, ajudada pelo fato de que ela não queria pensar em ficar mais velha, parei de falar abertamente do aniversário.

A festa ia ser no domingo. Meio da semana e nada estava pronto ainda. A virginiana da minha amiga já ia dar duas festas - às quais não pude comparecer porque estava trabalhando -, então ia ser complicado fazer seus amigos irem a mais uma comemoração. A festa virou só da minha, mas não ficou menos difícil por isso.

Eu e a loira (a daqui, não Lucy), passamos da fase de irmãs e viramos praticamente gêmeas siamesas. A gente mora juntas e estuda na mesma escola, por vezes no mesmo horário. Como não temos carro, sempre vamos ao supermercado as duas pra conseguir carregar as compras. Pra completar, ela trabalha no café da manhã, o que significa que só está fora de casa num horário em que nada está aberto.

Comprar as coisas escondido era praticamente impossível, então a gente teve que improvisar. A outra amiga aproveitou um dia que estavam as duas juntas e resolveu passar no mercado e compras coisas teoricamente pra casa dela. Depois, pediu pra deixar as sacolas em casa, já que ela ainda teria que ir pro trabalho. Comprou muita coisa e fez a coitada da futura aniversariante voltar carregada e sozinha.

As coisas pro bolo eu incluí nas compras da semana, o que deu uma ajuda. Mesmo assim, ainda faltou coisa, mas o acaso colaborou e no dia em que eu trouxe as bebidas pra casa ela estava dormindo à tarde. Tudo o que precisava ficar na geladeira eu fui enfiando dentro das sacolas da outra amiga, que ficaram mais de uma semana em casa na esperança de que ela viesse buscar. O resto, tudo pro meu quarto, no chão mesmo, debaixo de cobertores ou roupas pretensamente sujas. Um dia cheguei com uma caixa enorme debaixo do braço, mas joguei o casaco por cima e ela nao percebeu o presente. Já o rolo de papel de presente, deixei do lado de fora da casa até que ela fosse pro quarto e eu pudesse atravessar a casa sem perigo. Tudo estava dando mais ou menos certo.

Pro dia da festa, a outra amiga chamou nós duas prum almoço com uma brasileira recém-chegada, que fazia aniversário no dia 19 e que tem o mesmo nome da minha roommate (muita coincidência pruma história só). Eu inventei uma reunião de grupo como desculpa pra arrumar a festa. Tudo sozinha, já que a gente não arranjou outro jeito de tirar a moça de casa sem envolver uma de nós. Na verdade, a amiga que chamou pro almoço já não iria pro almoço. Ela tinha sido escalada pra trabalhar, mas só ia contar isso em cima da hora, quando as duas com o mesmo nome já estivessem esperando.

O almoço era às duas. Eu chamei as pessoas pra casa às quatro. Contando que ela saíria uns 40 minutos mais cedo, dava tempo. No domingo cedo dei uma pequena arrumada na sala, fiz meu trabalho de escola (que realmente existia, apesar de não ter reunião) e, fingindo que já estava indo pra reunião, fui comprar pães pros brasileiríssimos sanduíches de metro. Quando voltei, vi a cortina da sala aberta, o que só acontece quando tem gente. Liguei, perguntei se ela ainda estava em casa. Sim, ela estava. Perguntei se minha usb ainda estava no computador. Não estava, eu sabia. "Nossa eu não tô ach... AAAAI, ACHEI!!! Nossa, que bom, tava aqui jogada na minha bolsa, mas eu não tava achando. Só isso, beijinhos".

Liguei pra outra. "Oi, então... eu tô aqui na esquiiina de casa, sentada com a sacola de pães. Não... ela ainda não saiu de casa aiiiinda. Isso porque vocêee disse pra ela que era pra ela ir pro almoço de vocês, mas já almoçada, por que não era bem um almoço. Além disso, ela tinha que lavar a roupa justo hooooje, porque senão não ia dar tempo". Apesar dela ter pedido, eu não podia ligar de volta pra outra e mandar ela tomar nisso ou naquilo. Ela é que tinha que ligar, dizer que estava atrasada e que ela precisava sair correndo pra fazer companhia pra menina, que era nova na cidade.

Deu certo, mas eu não sei quanto tempo depois, já que não podia ficar olhando de tão perto. Meia hora depois de ter desligado, cheguei perto e pedi prum cara que tava passando bater na porta pra mim. Entrei e a casa ainda estava cheia de fumaça, o que significa que ela tinha fritado um hamburger antes de sair. Fechei a cortina, que ela esqueceu de fechar, coloquei a música no note e comecei a arrumação. Primeiro o bolo. Enquanto ele assava, fiz os sanduíches. Lavar alfaces, cortar. Depois tomates. Lavar, cortar. Toca o telefone. A indiana pedindo a 3a ajuda pro mesmo trabalho. Disse que estava ocupada, mas enquanto tentava entender o que ela falava, cortei meu dedo. Fiquei brava, cortei também a conversa. Sanduíches prontos, tirei o bolo. Muito baixo. Tinha que fazer outro. Mas a casa tava uma zona. Fui pra arrumação. Um jeito na sala e tudo o que era complicado pra dentro dos armários, inclusive as calcinhas do banheiro. Mudei uns móveis de lugar. Chegou o venezuelano. Já eram quase 4h. Botei o menino pra encher bexigas, ou melhor, globos, já que tento falar em espanhol com ele. Fui fazer o bolo. Chegou a menina de Fiji. Apresentei os dois e pedi em inglês pra ela ajudá-lo com the balloons. Dez minutos depois chegam os dois amigos brasileiros. Conversamos um pouquinho em português. Quando me virei pra apresentá-los, percebi a zona cultural e linguística que estava naquela casa. Muito bom.

Já eram 5h e eu não tinha terminado de assar o segundo bolo quando elas chegaram. Em compensação, a mesa estava linda, toda posta, com meu lençol todo colorido no lugar da toalha de mesa, que ainda está na lista de compras. Eu tinha mandado mensagens pedindo pra elas atrasarem, mas não dava pra enrolar mais. O bolo mesmo, decorado, com brigadeiro e morangos na cobertura e no recheio, só ficou pronto duas horas depois do combinado. Mas naquele momento já tinha desencanado de tudo, da hora e de me trocar. Dessa última parte me arrependi depois, quando vi as fotos do meu cabelo todo despenteado, a blusa amarrotada, meio fora de lugar, e o olho preto do resto da maquiagem do dia anterior.

A festa, por sua vez, foi ótima. A amiga taurina chegou trazendo as três virginianas. Conversamos, bebemos, comemos muito. As três cantaram parabéns e apagaram as 26 velinhas (1 grande pra uma, 1 grande pra outra e 24 velinhas de palito bem juntinhas pra terceira, já que essa foi comprada no próprio dia e era a única opção). O fogo acumulado das 24 velinhas foi maior do que o esperado e possivelmente teria disparado o alarme de incêndio, já a nossa casa tivesse um. As últimas a chegarem foram as primeiras a ir embora. Nas horas que se seguiram até o resto pegar o último trem, representantes de Brasil, Fiji e Venezuela se alternaram mostrando na internet suas músicas e danças típicas. A menina de Fiji dando um show à parte, seja na hula, no samba, axé, forró ou funk. Pra minha amiga que adora culturas diferentes, a festa não poderia ter terminado melhor.