Monday, August 18, 2008

À procura da casa perfeita

O trato desde o começo era "nós vamos morar juntas. De preferência, nós três, mas, mesmo que não dê certo, pelo menos nós duas vamos ter a nossa casa". Então, por mais que eu gostasse da minha homestay, do seu namorado (quase meu host cunhado) e de seu cachorro, no meio da minha segunda semana aqui comecei a procurar uma casa.

Achar sharehouses (repúblicas) é fácil. Uma caixa inteira, nem tanto. Na verdade, todo mundo dizia que era tão difícil, mas tão difícil que preferi pecar pelo excesso. Um dia depois de ter resolvido minha vida em relação ao curso (agora, depois ter pago o curso de Public Relations, ter tido que transferir no último minuto para Writen and Spoken English e ter feito um outro curso de inglês por engano durante dez dias, estou fazendo Management), ficamos - eu e minha amiga - procurando casas ou apartamentos, que são poucos, em prédios bem baixos, sem zelador, mas que, ao contrário do que eu pensava, existem aqui em Perth.

Começamos devagar, juntas no computador da biblioteca, com a lista de sites indicada pela moça da escola. Algumas coisas boas, perto do centro, mais ou menos o preço de uma homestay, mas um quarto só, pras duas. Anotamos os telefones, mandamos alguns e-mails.

Vagou o computador ao lado, começamos buscas separadas. Quando vi estava, como de costume, com mais de dez abas do internet explorer abertas, olhando descrição, preço e jogando no google maps pra ver se era ou não viável. Passamos a manhã e a tarde inteira assim. Por dois dias. Quinta e sexta. Na verdade, na própria sexta de manhã, fomos ver as primeiras casas.

Ao contrário do que acontece no Brasil, onde você procura um apartamento, liga pra imobiliária e ela faz quase todo o trabalho, aqui os imóveis estão listados na internet. Gostou? Ótimo! Espere até o dia da visita, porque ninguém vai te levar pra ver o apartamento só porque você quer. Eles têm dias pré-determinados para conhecer a casa e todos os interessados aparecem juntos, por quinze minutos. Se é isso mesmo o que você estava procurando, preenche o formulário e torce muito para que a agência escolha você em vez de qualquer um dos outros interessados. Uma brasileira que a gente conheceu no trem disse que demorou um mês até ser aceita em dos lugares. Daí fez sentido. Por que casa a gente viu que tem, a dificuldade então está em parecer confiável pra agência, o que, para duas garotas que haviam chegado há menos de duas semanas no país, não tinham emprego e muito menos referências, além das respectivas homestays, não ia lá ser muito fácil.

Bom... o normal agora seria contar essa história relatando os mil problemas que a gente encontrou, o número de vezes que fomos rejeitadas pelas agências e os inferninhos em que fomos parar. Mas, infelizmente pra história, felizmente pra mim e pra minha amiga, não teve nada disso. O único quase problema foi o contato com dois vigaristas. Um homem e uma mulher. Ambos colocaram mil anúncios desesperados nos sites de imóveis. Como a gente tava mandando e-mail pra todo mundo, mandamos pra eles também.

As histórias eram parecidas. Ele foi morar no Reino Unido com a família. Ela perdeu o marido e voltou com a filha pro Texas, nos Estados Unidos, onde deve se casar de novo em breve. Os dois estão com seus apartamentos mobiliados aqui, tentando desesperadamente alugar por um preço fantástico. Pra isso, eles te mandam as fotos. Você gosta, manda seus dados, eles preparam os documentos. Os dois assinam. Você faz um depósito sem nunca ter entrado no lugar. Eles mandam as chaves pelo correio. Simples, né? E tá cheio de espertinho desse jeito por aqui, pelo menos na internet. A gente ainda deu corda pro cara, falei por gtalk com ele, mas depois esqueci o assunto, ele também não insistiu.

Por baixo, devo ter mandado uns 30, 40 e-mails para donos e imobiliárias. Mas conhecer mesmo, só quatro casas, duas no sábado e duas no domingo. A primeira era num dos bairros mais queridos tanto por brasileiros quanto por australianos. Subiaco, lugar que dá nome a um estádio de football. O bairro é realmente uma graça. O apartamento, até hoje eu não sei. O lugar lembrava de longe um complexo habitacional, com um monte de casas geminadas, uma em cima da outra. Dois ou três andares, com escadas do lado de fora. Logo que chegamos, um dos nossos possíveis vizinhos, meio indonésio, olhava bem desconfiado. Em seguida, passamos por um velhinho totalmente trêbado. Por fim, o apartamento. Trancado e com uma porta tão suja quanto os outros. Fomos para o segundo do dia. Um estúdio, perto da escola, não tão perto do trem. Mobiliado, mas com só uma cama. Como móveis de segunda mão são baratos, a gente podia comprar outra. O problema era a total ausência de paredes. Nem a maior das amizades sobreviveria a isso. Então, fomos embora.

Se o sábado foi corrido, domingo deveria ser um pouco mais. Tínhamos decidido ver três casas. Uma às 10h30, outra às 13h30 e uma terceira às 16h. A primeira foi cortada de cara. Apartamento de um quarto pelo valor de dois. E sem mobília. Não valia a pena acordar cedo. A segunda casa era meio longe, mas tinha um preço bom, dois quartos e pertinho da estação. Por dentro, eu não tenho idéia de como é. Cheguei meia hora depois do combinado. Fui de trem. não sabia que precisava fazer baldeação, tive que voltar. Desci, fui pegar o trem certo e era o errado. Voltei mais uma vez. Minha amiga estava lá no horário certo, mas não conseguiu achar o endereço. Perguntou pra todo mundo, olhou no mapa e nada. Quando achou que ia ganhar uma informação relevante, recebeu foi um número de telefone, pro caso de um dia ela querer companhia pra sair. Quando finalmente achamos o lugar (por sinal muito perto da estação), só deu pra espiar pela janela. Nem sombra do pessoal da imobiliária. Na volta, conheci o tal cara do telefone, que refez o convite, dessa vez pras duas, de um dia jantarmos ou mesmo irmos a um pub.

A última casa era mais perto da cidade. A dona foi uma das primeiras a responder meu e-mail e inclusive mandou fotos. Casa de dois quartos, bonitinha, mas sem mobília nenhuma. Dessa vez, chegamos no horário, depois de almoçar cochinhas de frango frito dentro própria da estação. A dona veio com o marido e uma amiga. Mostrou a casa, que a gente já conhecia por fotos. Dois quartos bons, um banheiro meio feio, valor do aluguel dentro do aceitável. O único problema era a mobília. Era. Ela respondeu que tinha alguns móveis guardados e que poderia emprestá-los. Ia mandar um e-mail dizendo quais móveis eram esses e quanto iria aumentar no valor do aluguel por isso.

Segunda-feira, quatro dias depois de começarmos nossa busca, estávamos com todos os documentos assinados. Como o negócio foi feito direto com o proprietário, não precisou da tal burocracia de formulários. Bond pago, já tínhamos a nossa casa.

*Bond é uma exigência da lei australiana. Sempre que você aluga um imóvel tem que deixar o valor de quatro semanas em uma conta conjunta entre proprietário e inquilino. Ao fim do contrato, se nada estiver danificado, inquilino recebe todo o valor de volta. Se algo tiver que ser consertado, debita-se do bond. Só se pode tirar o dinheiro com a assinatura de todos os envolvidos no negócio.

Sunday, August 10, 2008

Impotência

Eu não deixo de viajar por conta disso, mas tenho que admitir que não sou a pessoa que mais adora aviões nesse mundo. Concordo que a chance de um avião cair é não sei quantas mil vezes menor do que eu bater um carro. Só que a batida de carro faz menos estrago.

Por tudo isso, pelo medo de pensar que vou ficar tanto tempo sem ver pessoas de que tanto gosto e até por rejeitar a idéia que talvez nunca mais veja alguma delas, demorou pra me emocionar por conta da viagem.

Tinha certeza que ia começar a chorar no arraial, quando estivesse reunida com todo mundo, amigos e família, pela última vez em quase dois anos. Mas acontece que a festa julina passou a ser só para alguns, meus pais não foram e eu queimei minha perna. Acontecimentos que anularam qualquer possibilidade de introspecção. Na verdade, acho que até parei de pensar nela com medo de que o médico vetasse os planos. A preocupação era só em ficar boa logo.

Mesmo aqui, o trauma não foi tão grande. Vim viajar com duas amigas, quase que irmãs, então aquela saudade absurda de carinho, de família, foi meio que suprida. Até nos piores dias aqui, aqueles em que tudo dá errado e a única coisa que você quer é um colo, a gente encontra paz só de ver um rosto querido e poder falar português. O meu problema, então, não é o presente, mas o futuro.

Ainda no Brasil, fui sentir o primeiro aperto mesmo quando me despedi da minha cachorra, bem velhinha já. Diabética, ceguinha e tomando um monte de remédios neurológicos, dá medo pensar no que pode acontecer em um ano e meio. Com o resto dos amigos, é simples. Por tudo isso é que fiquei tão chocada com o que aconteceu.

A mãe da minha amiga disse pra minha mãe que, pelo meu e-mail, parecia que eu estava com medo e acho que estava mesmo. Menos de um mês depois de eu ter queimado minha perna, meu irmão quebra duas vértebras do pescoço. Como o médico tem feito questão de relembrar, ele podia ter morrido, ter ficado paralítico, mas por sorte foi muito menos do que isso. Já fez uma operação, em breve fará a segunda, só pra ajeitar os pinos que seguram os pedaços de osso do quadril implantados na coluna.

Era de noite, ele estava no sítio, pulou na piscina, bateu a cabeça. Dormiu lá fora porque não conseguia andar. No dia seguinte, um pouco melhor, foi levado pro hospital e da lá, de ambulância, até São Paulo.

Não é à toa que fiquei assustada. Quando deixei o Brasil estava com medo de tudo o que poderia acontecer em um ano e meio. Meus pais, minha avó, minha cachorra, até mesmo eu, em meio àquela turbulência horrível entre São Paulo e Joanesburgo. Meu irmão, meus amigos, jovens, fortes, a gente nunca pensa.

Wednesday, July 30, 2008

São todos sacanas!?

Há séculos se discute o que torna os homens diferentes das mulheres. E o que fazer para diminuir essa diferença.
Nunca vi problema nisso. Pelo contrário. Graças a Deus que somos diferentes, porque se fossemos iguais, não haveria nada para ser complementado. A auto-suficiência soa tãããão chata.
O meu problema é outro, e esse eu nunca vi ninguém discutir. Porque até os homens mais bacanas são sacanas? Será que eles só são sacanas comigo, ou isso é do comportamento masculino?
Calma, antes de vocês começarem a listar um milhão de casos em que os meninos foram sacanas com as meninas, eu explico.
Não costumo me envolver com aquilo que muitas mulheres consideram o homem ideal: o cafajeste. Pelo contrário, gosto dos caras honestos e leais. Os que saem pra jogar bola, que viajam a trabalho, que vão pro bar com os amigos, mas nunca esquecem do respeito pela namorada. Nunca tive dúvidas com relação ao caráter deles.
Mesmo sendo honestos, atenciosos, carinhosos e bons caráteres, eles acabaram sendo sacanas comigo. No fim, eles acabam me magoando, me fazendo sofrer, me causando crises imensas, mesmo sem terem noção do que a atitude deles estava me causando.
Pra não prolongar muito texto, vou escolher só um exemplo.
E ele é inteligente, culto, interessante, carinhoso (quando quer), bonito, e tem aquela manha que derrete as mulheres (o tal Mr. Big de alguns textos atrás).
Por alguma razão inexplicável, acabamos nos envolvendo. Por razões mais do explicáveis, o nosso relacionamento estagnou. E chega uma hora que ou vai ou racha.
Decidimos (eu até estava me preparando pra isso, mas ele foi mais rápido) que o melhor era nos afastarmos – como um casal. Porque como amigos, nunca estivemos tão próximos. Eu, como sempre, concordei. Tenho esse problema sério, uma dificuldade absoluta de dizer não para as coisas que eles pedem. Não costumo dizer não para nada, mesmo que isso me incomode profundamente.
Mas o que distingue uma relação da outra?
Faço um esforço tremendo pra fingir que não sinto. Mas a verdade é que ele sabe que gosto dele, que tenho sentimentos. Quanto a ele, não posso dizer o mesmo. Aliás, o que posso dizer? Não tenho idéia.
Nunca mais fui à casa dele. Nunca mais fomos ao cinema. Nunca mais tivemos um jantar romântico. Por outro lado, continuamos nos vendo, nos falando quase que diariamente, trocando e-mails e mensagens, nos preocupando um com o outro. Quando por algum acaso estamos juntos, ele não hesita em me fazer um carinho, um cafuné, em me dar um beijo apertado (na bochecha).
Ele me provoca, e eu caio como uma patinha. Fico esperando a reação, a atitude. Fico esperando ele dizer que sente a minha falta, e que quer tentar de novo. Mas as palavras não vêm.
E tento superar isso, criar um milhão de pensamentos na minha cabeça que me afastem dele for good. Mas ele acaba com esse esforço imenso quando me dá um olhar carinhoso, um carinho mais intenso, um sorriso aberto, quando vem todo fofo me contar alguma coisa que aconteceu na sua vida.
Mas depois, o convite não vem, os carinhos não se prolongam, as situações não são discutidas. E a crise começa outra vez.
Talvez ele seja auto-suficiente de uma companheira e precise só de distrações temporárias. E nessa lista acho que sou a primeira. Nada de que eu me orgulhe.

Saturday, July 26, 2008

Estréia na balada

Era mesmo uma cena esquisita. Na hora que minha amiga chegou na porta do bar, eu estava com a câmera empunhada, tentando deixar a foto tão boa quanto a história. A modelo era minha outra amiga, que chegou junto comigo aqui na Austrália e que nesse momento, meio que contra a vontade, sustentava um periquito branco, uma cracatua, talvez, em cima da cabeça.

O bicho tentava se segurar no cabelo loiro enquanto ela, depois fui saber, só torcia pra que o passarinho não resolvesse transformá-la em seu banheiro particular.

A outra amiga, a morena, chegou, olhou aquilo, deu risada, mas desencanou de tentar entender. Ficou ali, parada no canto, conversando sobre qualquer outro assunto com as duas outras que vieram com ela, enquanto a ave era transportada pro meu ombro para mais uma foto; essa não tão legal.

O dono da passarinha (sim, ele garantiu que era fêmea e que era sua melhor amiga) era um cara quase gordo, meio sujo, loiro de cabelo enrolado e com seus 30 e muitos anos. Chegou ali, de repente, enquanto eu e minha amiga esperávamos o resto do grupo no local combinado, um dos vários bares do North Bridge, a Vila Olimpia - ou talvez Vila Madalena - da cidade.

A primeira frase eu entendi. "Ah... eu sei, vai, pode falar! Eu sei que você (ou vocês) tá louca pra passar a mão no meu passarinho". Eu olhei, dei aquele suspiro meio risada pensando que eu realmente só atraio louco. Minha amiga olhou pra mim com aquela mesma cara de surpresa. E o cara continuou. Falou por uns 2, 3 minutos. Só parava de vez em quando, esperando uma reação, que não acontecia, já que a gente estava parada, só olhando e esperando o fim da história ou alguma frase compreensível, mas ele deve ter achado que eu tava simplesmente concordando. Por fim, ele pediu uma manifestação sobre tudo aquilo. Eu fiz aquela cara de "é, não rolou" e emendei com um "sorry, we didn't get it".

Em vez do cara ficar puto, ele abriu um sorriso daqueles de orelha a orelha e perguntou da onde a gente era. Brasileiras??? E fez algum outro comentário que a gente também não entendeu. Se ele não tivesse dançando praticamente, trocando o pé de apoio a cada dois segundos e cambaleando pra frente e pra trás, poderia ter ficado meio preocupado, mas ele foi o primeiro com quem não consegui conversar, então tá tudo ok. E já que papos normais não deram muito certo, ele começou a puxar assunto sobre a passarinha dele, cujo nome, se não me engano é Eagle. Se não for isso, é o mesmo nome de uma águia famosa. De toda forma, um tanto quanto paradoxo prum passarinho de menos de 20 centímetros de altura e que não machuca ninguém, mesmo sendo muito corajosa. Essas duas últimas afirmações, lógico, foram o dono que fez, eu só repito.

E pra mostrar que ela era boazinha, ele pediu pra minha amiga estender a mão. Ela, com medo, hesitou umas três vezes, então, ele, delicamente, agarrou o bicho e quase o amassou no ombro dela. Eu adorei a cena e peguei o celular pra tirar a foto. Ela me deu sua câmera e o cara, que gostou ainda mais da idéia, resolveu trocar o lugar da ave, pra dar uma foto mais legal. Foi nessa hora que minha amiga chegou. Conversamos mais um pouco com o cara e fomos embora. Ele chamou a gente pra ir prum bar e, depois de ter ficado meio bravo com a recusa, minha amiga disse que ele deveria dormir um pouco. "É, quem sabe amanhã", e foi beber mais um pouco. Dizem os boatos que Perth é cheio de loucos. Não sei se é verdade, mas esse foi meu primeiro.

Todas reunidas, fomos caçar um lugar pra ir. Nas redondezas, um monte de pubs. Em todos você entra de graça, mas ontem tava muito frio, chovendo e por isso ninguém sai. Uma professora disse que Perth é guiado pelo tempo. No frio, nada acontece, no verão, isso ferve. Não sei quanto a segunda parte, mas sobre o frio ela estava certa. Dez horas, passamos em três bares e os três vazios. Acabamos ficando em um com um ótimo aquecedor. A bebida da Austrália é o Lemon Limon Bittar. Algo tão alcóolico que você pode tomar uns 10 e continuar de pé, mas é bom. Tomei um só. Começou a banda, mas mesmo antes disso uma loira de vestido vermelho e um mega salto já tinha caído duas vezes no meio do salão e em todas as ocasiões foi acudida pelo moço que tava com ela. Segundo as meninas, esse é o normal. Australianas saem de micro vestido mesmo no frio. Bebem demais e nem sentem. Saem carregadas, tiram a roupa no meio da rua... mas tudo isso é só fofoca. Eu só vi a parte do beber demais mesmo.

Esperávamos dar umas dez horas pra gente trocar de bar. Em uma das músicas, eu e uma das meninas lembrávamos dos nossos tempos de show de rock todo mês, pelo menos. Ela na grade e eu lá no fundo, com os meninos, como sempre, no meio das rodinhas. Achei muita coincidência quando, uma meia hora depois desse assunto, a amiga loira (mais fácil diferenciar assim) me puxou pra longe da confusão. Só consegui ver um cara abaixado e correndo dando socos. Pensei... "nossa... rodinha aqui? E, depois de estar muito perto da mão fechada dele, saí de perto porque não tava mais na idade dessas coisas. Foi então, pela cara das pessoas, que entendi que era briga de verdade. Quer dizer, mais ou menos de verdade, né... porque com um soco daquele acho que não se consegue machucar ninguém. Seguranças, ele vai embora, se solta, volta pra tentar bater mais... aquela coisa de sempre. Mas foi a nossa desculpa pra dizer que tava na hora de mudar de bar.

O outro era um pub maior, também com música ao vivo. Na entrada, além deles checarem seu passaporte ou ID, carimbam um "ID checked" na seu pulso. Dizem que esse é o lugar onde vão os australianos mais sem noção, lesados mesmo. o que foi justificado pela criatura esquisita, loira e bêbada que veio dançar na nossa roda mas que foi logo dispensado.

Outra coisa bem diferente é o tamanho do decote da maioria das meninas; às vezes tão grande que o peito pula. Como resultado, freqüentemente elas tinham que arrumá-lo de volta no sutiã. Segundo minha amiga, a preocupação tão grande com a comissão de frente é pra compensar a falta de bunda. Não vou comentar... falar mal de mulher parece despeito.

Já de briga, o máximo foi um cara sendo carregado por um segurança e com mais dois acompanhando - o que foi um pouco de exagero, já que meio segurança já seria suficiente pra conter o pequeno encrenqueiro.

Se teve mais coisa, não sei. Em algumas das mil televisões do pub passava rugby. Em outras o tal footeball e numa única solitária, tênis. Amanhã faz um mês que não jogo. Terminou minha temporada com a final do campeonato paulista. Única partida em que acho que joguei bem. Olhava fascinada pras telinhas, mesmo sem entender o porquê de não existir rucks - o jogador caía, matava a bola no chão, o jogo recomeçava com uma saída simples. Mesmo scrum era difícil de se ver.

Voltamos pra casa um pouco antes da uma - penúltimo trem de final de semana. Nos vagões, um monte de australianas com micro vestidos e pernas de fora, extremamente bêbadas. Mais uma lenda que parece ser verdadeira.

Thursday, July 24, 2008

Os trens e o francês

Nos meus últimos meses no Brasil, minha mãe disse umas três vezes "que tristeza que é pegar ônibus de domingo", toda vez que via alguém no ponto de final de semana. E eis que no meu segundo dia em Perth, domingo, primeiro dia em que acordei aqui, eu peguei um trem, um ônibus, conheci minha escola, peguei o mesmo caminho de volta e depois de 15 minutos peguei mais dois trens pra ir e dois pra voltar da cidade vizinha onde um dos meus amigos está morando (isso sem contar as caminhadas). No final do dia, já me consideravam especialista nas timetables.

Há três tipos de trem em Perth. Pelo menos, três que peguei até agora, mas no folhetinho diz que tem muito mais. Um serve a todas as estações. Os outros dois só a algumas. A diferença está na letrinha que vem junto com o destino, mais ou menos com os Lapa T e Lapa H; República 5121 e República 5154 de São Paulo. Aqui, devo fugir fugir só do Arminale C, que não pára em Queenspark.

A técnica para pagar e simples e fácil de ser burlada, mas acho que ninguém pensa nisso, então eu também procuro não pensar. Ou você usa um cartão, meio a la bilhete único, ou compra tickets na hora, numa maquininha. O problema é que nem todas aceitam notas. Se você não tiver moeda ou o cartão de ônibus, não sei o que faz. Provavelmente entra sem pagar e só torce para que entre nessa estação que separa você da próxima maquininha não haja nenhum fiscal nos vagões (nem no ônibus nem no trem há qualquer tipo de catraca, no máximo um um cara controlando a entrada nas estações maiores).

Se a confiança é grande, a multa para quem a quebra é maior ainda. São cinquenta dólares australianos só para quem compra passe com desconto sem ter a carteirinha. Pra quem não tem bilhete, não tenho idéia de quanto seja.

No domingo, depois de ter conhecido minha escola com minha host mother (ou host big sister, como ela mais se parece), encontrei com minha amiga também recém-chegada e seu companheiro francês de homestay. No meio da viagem, vi o tal guardinha, cuja existência até então eu ignorava. Como eu e minha amiga tínhamos pagado passagem normal, não havia problema. Já o menino comprou de estudante e não levava a carteirinha - ou qualquer outro documento -, só, por sorte, vestia o blusão da universidade onde ele estudava inglês. O guarda entendeu, explicou que da próxima ele deveria comprar passe normal e foi embora. No fim, o inglês ruim do francês ajudou a embasar a tese de que ele não sabia o que tava fazendo.

A nossa intenção era chegar cedo pra ver o tal market de Fremantle, mas a gente chegou, demorou dois séculos até achar meu amigo num bar de comida asiática, conversamos um pouco, depois fomos comer no Hungry Jack - versão australiana pro Burger King. Um cara explicou que há alguma coisa, talvez alguma lei, que não permite o uso de nomes da monarquia em estabelecimentos comerciais. Eu relacionei direto com a monarquia britânica, a quem a Austrália responde, e desisti de descobrir se essa é a explicação verdadeira.

Depois de matar a gigantesca fome ao lado de um monte de adolescentes EMOtivos (eu juro que nunca vi na minha vida uma quantidade tão grande de crianças com cabelos lambidos e esquisitos, tachinhas, piercings, roupas pretas e acessórios coloridos juntas em um lugar supostamente neutro), uma família e um cara gordo, fomos encontrar o tal pub. Mas eu acho que tava tão feliz de ter comido que esqueci de prestar atenção no caminho. Como os outros dois conseguem ser tão ou mais desligados que eu, só percebemos que tínhamos andado demais depois de uns 15 minutos de caminhada. Dai a gente foi pra cima e pra baixo da rua algumas vezes, até que lembrei do final da explicação. Não era só virar às esquerda, também precisava virar de novo à esquerda no farol seguinte. Juntamos isso com algumas indicações coletadas na rua, chegamos até o tal bar.

A festa era de Satã, não aquele vermelho, de cifrinho, mas um amigo do meu amigo, vindo da Arábia Saudita e que realmente tem esse nome. O moço acabou de se formar na escola e vai fazer uma faculdade na Austrália. Por isso, tava dando uma festa numa área reservada no lugar onde ele trabalha, um pub todo bonitinho com música ao vivo.

A gente chegou, passou pelo cara que tava fazendo som com voz e violão, entrou na área reservada. Lá dentro, meu amigo sambava com uma amiga. Comecei a dar risada. O dono da festa, cuja brancura já tinha sido descrita, me olhava com uma cara de quem é você? Não tive tempo de me apresentar.

Atrás de mim começava uma discussão entre o bartender e o amigo francês, que acabou de fazer 18 anos, é branquinho, sem barba, cheio de espinha na cara e que, assim como minha amiga, esqueceu o passaporte. Mas o bartender não quis saber dela ou de mim. No fim, já que a gente não ia ficar de qualquer jeito, ficamos um pouco frustradas por as pessoas nem cogitarem que a gente pudesse ser menor de idade. Acho que a gente tá mesmo ficando velha.

Por mais que tentássemos conversar, não teve jeito e fomos os três embora. Já na saída, fui apresentada rapidinho ao dono da festa e conversei na rua com meu amigo, que ficava entrando e saindo de trás de uma linha branca pintada na calçada e que delimitava a área do bar, já que tem uma lei na Austrália (sim, a Austrália é cheia de leis) que não permite que se beba nas ruas.

O menino bem que sugeriu dele ir embora sozinho, mas se a gente veio junto, a gente vai embora junto. E na volta, nova confusão.

Australiano é um povo bem simpático, agradável, mas diz a lenda que eles bebem muito. Nesse dia, descobri que não é lenda, principalmente quando tem jogo do futebol esquisito deles, um mix do nosso futebol com rugby e que eu achei chatíssimo, mas que o namorado da minha homestay, e aparentemente o país inteiro, adora.

A gente pegou o trem e sentou os três juntos. Um cara que estava ao lado do francês resolveu puxar assunto e perguntou, se matando de dar risada, o que ele fez no domingo. Ele, inocentemente, contou seu dia, começando pelo homework. O outro então começou a fazer gracinhas e piadinhas a respeito do menino novinho com duas garotas visivelmente mais velhas. Mudamos de lugar e, ao chegar na estação central, cada um tomou seu caminho.

Eu, que já me achava a mais entendida sobre os trens de Perth, perdi três saídas e o tempo de escrever esse texto inteiro (o que deve ter dado mais ou menos uma hora) pra perceber que nenhum ou quase nenhum trem que vai pra Armindale passa na minha estação e que o T que tanto aparece é de Thornile, destino alternativo da mesma linha, que sai de outra plataforma e que era a minha única opção pra chegar em casa.

Tuesday, July 22, 2008

Primeiro dia na escola, mas nao de aula

No primeiro dia todo mundo chega atrasado. E na minha folhinha, não tinha nem ao menos o horário de início das aulas. Dizia somente pra eu ir até o centro de estudos internacionais. E isso no dia 12 - sábado - e hoje era dia 21, segunda. Portanto, o compromisso com o horário, que já era pequeno, se tornou nulo.

Eram sete e vinte quando eu finalmente resolvi levantar. Hoje, acordei às 6h, ainda vítima do fuso horário.

Logo no primeiro dia, depois de muito passar frio, resolvi dormir. Não sei que horas eram, mas possivelmente umas 9h da noite, quando ainda tava assistindo tv com minha homestay e o namorado. Algumas horas depois, acordei no meio da noite com uma vontade imensa de fazer xixi. Então, não consegui mais dormir. Ouvi um passarinho cantando, aqui, atrás da minha janela. Em seguida, um avião passando. Depois de mais uns passarinhos, ouvi o apito do trem. Por fim, começou a clarear e eu perdi o sono de vez. À noite, antes das 22h, eu já tava podre. Daí, pra parar com isso, hoje fiquei enrolando até demais. Na hora de sair, minha homestay disse que tava atrasada. Eu disse que não sabia se estava hoje, mas que eu tô sempre atrasada. Ela ficou toda feliz. "Oh, so you are just like me!!!" e saiu correndo.

Já na escola, fui levada até uma sala onde tava terminando a apresentação do curso. Depois, prova: redação e entrevista. A entrevistadora adorou meu livro, como ela mesma chamou. E isso que eu nem escrevi tanto. Já na hora da entrevista, algumas engasgadas e, por isso, não sei em que nível estou. Conversamos por cerca de cinco minutos, uma falando mais rápido do que a outra. Ela pra me testar, ver até que ponto ia o meu entendimento, e eu porque é o normal mesmo.

Depois do coffee break com uns muffins de chocolate muito bons (o povo daqui adora muffins e eu adoro os muffins deles), fomos fazer um pequeno tour pelo campus. Fui liberada pouco depois do meio-dia e tinha combinado de me encontrar com minha amiga só às 5h da tarde. O celular dela tava sem bateria e a tomada do carregador não serve pra cá, então não tinha nem como desistir.

Como minha casa fica a uns 10 minutos de caminhada do trem e o trem demora mais uns 15 minutos em média pra passar, resolvi enrolar pela cidade. Logo que saí da estação fui até o centro de informações pra turista e perguntei sobre algum café com acesso a internet. O cara me indicou um lugar, mostrou no mapinha, me deu esse mapinha, mas eu me perdi do mesmo jeito.

O centro de Perth é muito cheio e muito movimentado. Parece mesmo o centro de são Paulo, só é menor. E daí, como tava perdida, passei a perguntar por qualquer internet cafe. De indicação em indicação, rodei mais de duas horas com a mala do note no ombro. Meu pé tava doendo, eu já tava xingando todo asiático que via pela rua (só na minha escola tem milhões deles, ou adolescentes com aquele monte de tranqueira tecnológica ou caras mais velhos querendo cidadania, tipo um cozinheiro malasiano que eu conheci), toda lan house pra que me mandavam e todo restaurante chinês ou coreano ou tailandês que tem a cada esquina em um dos bairros daqui. Até que resolvi entrar em outro centro de informações para turistas. No andar debaixo, não tinha ninguém. Subi e lá a japinha (essa do Japão mesmo, que eu perguntei) disse que toooodo o centro da cidade tem internet grátis. Ela mesma tava usando internet banda larga, mas não pagava por ela.

Eu fiquei indignada de ter rodado tanto à toa, contei a história pra menina, simpaticissima, por sinal, peguei uma cadeira e testei na hora, pra ter certeza. Entrou!!! Mas daí precisava fazer um cadastro rápido, eu desisti. Preferi voltar até o shopping e comer alguma coisa em qualquer café, já que todos eram internet cafe e nem sabiam disso. Voltei, achei um café bonitinho, paguei 17 dólares por um sanduíche no croissant, um muffin e um chocolate quente, mas tava feliz. Tentei acessar e não entrou. Depois de três tentativas, todas frustradas, apareceu o aviso de falta de bateria. Fiquei puta, desliguei o bicho, coloquei na mala e comecei a pensar o que faria nas duas ou três horas que faltavam pra encontrar minha amiga.

Eu não aguentava mais andar, e enquanto pensava em demorar o máximo possível pra terminar a metade do chocolate quente e do muffin que faltavam, vi a mochila cor de rosa dela entrando no shopping, ali bem na minha frente. Eu pensei em gritar, mas ela tava muito longe e eu dentro do café. Então, virei a metade do copo que faltava de uma vez só, agarrei o resto do doce e saí correndo, esbarrando nas pessoas e derrubando meu guardanapo. Consegui encontrar com ela, que não teve aula hoje e estava rodando desde as 9h da manhã. Já tinha conhecido todas as lojas do shopping, ido até Fremantle de trem e voltado e por fim estava em dúvida se pegava o trem de novo ou se comprava um livro.

Durante as duas que tivemos antes das lojas fecharem (ou seja, se a gente se encontrasse às 17h não íamos conseguir fazer nada), a gente passou na farmácia duas vezes, uma pra cada uma, comprou um adaptador e um transformador de energia pra ela; comparamos os celulares e por fim compramos um, igualzinho, já que é o único que pega Skype.

Enquanto a gente conversava e fazia graça com a câmera do celular, descansando na pracinha, chegou uma menina perguntando se a gente tava procurando emprego. Eu dei risada e disse que ouvi que era fácil encontrar emprego em Perth, mas que nunca pensei que alguém fosse me abordar perguntando se eu tava procurando. Mas o emprego não era tão legal. A princípio, achei que fosse. Ela trabalha pruma agência ligada ao Greenpeace, mas você tem que parar as pessoas no shopping e pedir dinheiro. Se você consegue, ganha uma comissão. Além do fato de eu detestar arrecadar dinheiro, se estivesse doando pra uma instituição, não ia querer que a pessoa que veio me procurar ficasse com uma parte do que estou doando, então desanimei antes mesmo de saber que meu horário de escola impossibilitava a brincadeira.

Conversei mais um pouco com minha amiga e voltei pra casa. Combinamos de nos encontrar na quarta-feira só. Ela só tem dois dias de aula e amanhã é o mais pesado dele. Já eu estou louca pra entrar na internet e habilitar meu brinquedo novo, daí falo de graça a qualquer momento com todo mundo, já que eu percebi que internet sem fio banda larga é um pouco mais complicado.

A caminho da Australia

Ao desembarcarmos em Joanesburgo, a primeira tentativa foi a de fazer um city tour. Algumas pessoas já tinham avisado que a capital da África do Sul também é conhecida por ser a cidade com a maior incidência de estupros do mundo, mas ficar dez horas no aeroporto era um pouco demais. Alem disso, se fosse com um táxi do aeroporto não devia ter problema.

Fomos até o guichê da South African Airlines e, depois de alguma confusão para fazer o check-in da conexão, perguntamos da possibilidade de conhecer a cidade. "Mas o que é que vocês querem fazer lá fora?". Depois da explicação, a mulher da companhia disse que tudo bem da gente sair, mas que não era pra falar com ninguem, "nem olhem pro lado, vão direto para o ponto de informações".

A gente foi, mas fomos barradas na saída porque não tínhamos o visto pra África do Sul. Daí, enquanto pegamos a fila de novo, parou um cara atrás da gente falando português. Cara de surfista, gente boa daquele estilo quase folgado. Brasileiro, lógico. O menino foi se apresentando e eu fui lembrando do meu primo mais velho. Mesmo nome, ambos surfistas, passaram dois anos na Austrália, voltaram pro Brasil e foram moram em Florianópolis. Os dois não conseguiram o emprego que queriam e estão voltando pra Austrália; ele pra tentar ficar, meu primo só pra fazer um dinheiro.

Adotamos o cara, que tava viajando sozinho e que foi de grande ajuda. Ele que me incentivou a pagar um dos grandes micos da minha vida... dormir no meio do aeroporto, bem ao estilo "Terminal", o filme com Tom Hanks.

Durante a viagem, a minha amiga tava empolgadíssima, não queria dormir nesse avião, porque assim ficava cansada, dormia no seguinte e chegava já acostumada com o fuso. A gente conversou bastante, mas o que me deixou mesmo acordada foram os dois filmes do avião. O primeiro - que eu mais gostei - sobre uma menina, interpretada por Christina Ricci, que foi amaldiçoada com um nariz de porco. O feitiço só ia ser quebrado se ela se casasse, então os pais ficam caçando um pretendente. Filme estranho, mas muito bom. O segundo era sobre uma casa aparentemente amaldiçoada e seres fantásticos, como fadas, javalis falantes e bichos nojentos que soltavam gosmas verdes quando morriam. Por causa desses dois, cheguei exausta na Africa do Sul.

No aeroporto, a primeira coisa que vi pra vender foi uma camisa da seleção brasileira de futebol. Em seguida, uma havaiana com a bandeira do Brasil. Mas o que mais me encantou e eu quase comprei foi um bonequinho de pelúcia do antílope mascote do Spingbox, time sulafricano de rugby e atual campeão mundial (depois soube que no dia seguinte teria um jogo deles contra os wallabees, da Austrália, o que tornaria mais engraçado eu entrar no país com o rival deles debaixo do braço). Mas como em aeroporto tudo é estupidamente mais caro, não quis fazer as contas de quanto era o bicho.

Outra coisa que chamou a atenção foi uma máquina de massagem com água. A pessoa deita na maca, eles colocam a máquina por cima, que tem um plástico embaixo e jogam jatos de água nesse plástico, ou seja, em você, mas sem te molhar. A impressão de quem vê de fora é que tem uma pessoa sufocada dentro do plástico, já que não dá pra perceber que ela está solta embaixo da engenhoca.

Eu e Cris chegamos à conclusão que gostamos da África do Sul só pelo estilos deles. Todas as mulheres t^em desenhos nos cabelos, um diferente do outro. Os homens são todos estilosos (o que é legal só pra ver... eu não gostaria que meu namorado usasse um terno e uma calça dourados como vi um cara usando). Mesmo as coisas da companhia aérea, como negocinho pra tapar os olhos, cobertor e afins, eram desenhadas com um monte de formas geométricas e bem coloridas. Lina ia amar.

Mesmo assim, meia hora no aeroporto e eu já tava exausta, quase dormindo em pé e com uma dor de cabeça absurda. No aeroporto inteiro tinha somente um lugar pra entrar na internet. Sem atendente, você tinha que entrar no site e comprar o acesso pra uma semana inteira via cartão de crédito. Desisti.

Fui até a farmácia do aeroporto e comprei uma aspirina efervecente por 33 Raids, o que é cerca de seis dólares. Então foi que o menino me incentivou a dormir nas cadeiras vazias de uma parte mais isolada do aeroporto. Dormi um pouco e fomos comer alguma coisa. Depois da comida, voltamos pro mesmo lugar, dormi de novo, dessa vez mais pesado. O menino também dormiu. J'a minha amiga continuava pilhada, devorando o livro do Garfield que meu pai deu de presente ou andando de um lado pro outro. Foi comprar 'agua, comida, o que precisasse. Quando acordei de novo, a dor de cabeça tinha passado. Fomos ver o horário e descobrimos que o vôo tinha atrasado duas horas. Alguém lembrou de um sofá aparentemente hiper confortável no mesmo restaurante que tínhamos comido. Dez minutos depois e já estávamos os três dormindo de novo. O sofá ficava no final do andar, protegido por um vidro. Depois disso vinham as escadas rolantes. Várias vezes eu abri os olhos e vi alguém que descia a escada olhando pra gente e dando risada.

No segundo avião, vi só um filme e passei o resto da viagem ouvindo música, uma rádio de classic rock e outra de anos 80, principalmente de trilhas de filmes, o que me fez lembrar muito de Lana. Na verdade, eu deveria me sentar em uma cadeira com mais espa'co pras pernas, ainda por causa da queimadura, mas nao deu no primeiro aviao, muito menos no segundo, quando sentei em uma cadeira e minha amiga em outra. Mesmo assim, me senti tão em casa com as músicas que cheguei mais tranquila ainda em Perth, nem liguei muito pra perna. Liguei pra minha homestay, conferi que ela estava mesmo em casa e fui pra lá de táxi. Ela e o cachorro me receberam extremamente bem!

Saturday, July 12, 2008

A sanidade sem sair pra rua

Lucy me diz que essa minha fase em casa a faz lembrar constantemente do filme 28 Dias, com a Sandra Bullock, que coincidentemente eu adoro.

Na trama, que ainda não vi, a protagonista tem que ficar por quatro semanas em uma clínica de reabilitação e fica repetindo que é um ser humano e que um ser humano tem que conseguir ficar sozinha dentro de um quarto sem enlouquecer.

A minha pretensão é menor. Tenho certeza que só de ficar em um quarto com um monte de gente eu enlouqueceria e que só de ficar sozinha numa casa enorme eu enlouqueceria; nem precisava juntar os dois.

Na verdade, nesse exato momento eu tento me convencer que ficar dois finais de semana sem sair de casa já não são suficientes para me fazer surtar.

Pouco mais de dez da noite e eu controlava aquele desejo tentando simplesmente não pensar nele. Saí durante a tarde e apenas quatro quarteirões conseguiram me deixar cansada, ou melhor, sentindo um pouco.

A cicatrização está melhor, então aquela dor que me consumia na quinta-feira quase já não existe. Mesmo assim, ontem preferi ficar em casa. O médico foi enfático ao dizer que se eu andar muito, vaza hemoglobina. Se vazar hemoglobina, o ferro das células mancha a minha pele. E mancha de ferro não sai. Então, melhor eu também não sair.

Ontem nem reclamei muito. Os programas disponíveis não eram aquilo que mais gostaria de fazer, mesmo em dias saudáveis. O templo do rock só costuma ter graça com uma boa dose de veneno, senão estressa, e meu principal parceiro de Butantã está a milhares de quilômetros.

Outra opção seria um barzinho simples, com conversa boa e gente divertida, mas o frio e a impossibilidade de dirigir tornaram essa escolha menos atraente. Me contentei em ir prum bar com meus pais, frango a passarinho e batata frita com milk shake, bem criança.

Hoje, pelo contrário, bati perna razoavelmente. Apesar de ter me cansado só com aqueles quatro quarteirões, depois ainda saí de novo e até paramos o carro em vaga de deficientes, o que faz todo sentido nesse caso.

De volta, troquei os curativos, tirei nova foto da perna sem pele (prometi que só termino essa seqüência quando tiverem sumido todas as manchas) e entrei no msn. No fundo, sabia que mesmo que me chamassem não deveria sair, mas não custa matar o tempo.

Duas horas na internet, várias fotos distribuídas, todo mundo vai embora, eu fico. Minha mãe pergunta se minha perna dói e em seguida dá risada. Se doesse pelo menos um pouco, não ficava com tanta vontade de sair.

Apesar de tudo, a razão ainda comanda. Eu até poderia ligar, mas se recebesse o convite, seria sensato sair? E se não saísse, pra que dar sinal de vida?

Quase entrei em crise duas vezes ao ter que escolher uma roupa simples. A bota aperta a perna, a calça não passa por causa das ataduras e nenhuma blusa ou sapato combina com uma calça de malha fria. O que faria então se tivesse que me arrumar de verdade?

Já estava me contentando em desistir da rua quando o telefone toca. A bolsa, como sempre, tá lá longe e a música pára antes de atender o aparelho. O número, privado. Vou entender isso como um sinal.

Hoje deveria ser minha última balada de sábado, mas pelo jeito não era mesmo dia de sair. Como consolo, algum martírio está chegando ao fim. Essa é a minha última chance de não ver Zorra Total. Com toda certeza, algumas horas desse programa são suficientes para deixar qualquer um louco.

Thursday, July 10, 2008

Patty's on fire

Na escola, aprendi que a dor é uma maneira do corpo dizer que alguma coisa está errada e que, por isso, você tem que tomar alguma providência. Enquanto tá com dor é que nao tá tudo ok. A mesma coisa acontece com o choro. As lágrimas são uma forma do nosso organismo lidar com as emoções com as quais não consegue expressar. Por isso, apesar de não chorar com freqüência, acho que de vez em quando é necessário - e benéfico.

No caso da dor, se for mesmo isso, devo confessar que meu corpo é um tanto quanto prolixo, pra não dizer burro. Já faz mais de 48 horas que essa dor maldita não passa. Eu entendo que minha pele está se recuperando, mas eu já fui medicada, já estou em repouso e as pontadas continuam. É só ficar de pé - não precisa nem fazer força - que parece que minha panturrilha está sendo dilacerada de dentro pra fora. Como conseqüência, eu, que sempre me considerei a pior pessoa do mundo pra ficar doente, agora passo as tardes deitada no sofá ou na cama com as pernas pra cima. E tudo isso a uma semana da viagem.

Um pouco de bebida a mais e um pouco de juízo a menos fizeram com que um amigo colocasse fogo na minha perna enquanto tentava acender a fogueira de festa julina. Ironia ou não, em vez de apagar o facho ou o fogo no rabo pra ficar tranqüila, foi preciso que eu pegasse fogo para então sossegar.

A festa em questão tinha lista fechada. Seria minha despedida, rumo ao país dos cangurus. A princípio, reuniria amigos e família e, portanto, só chamei pessoas de quem realmente gosto muito. Amigos queridos, daqueles com quem me sinto em casa, e de quem vou sentir muita falta quando estiver longe. No fim, não poderia ter escolhido melhor.

A explosão em si foi muito rápida. Estávamos todos comendo, quando aceitei o oferecimento do meu irmão de acender a fogueira no meu lugar. Foi ele e foi um amigo. Não sei como, uma lata de tinner foi parar na mão do moleque. Ele jogava o combustível, o fogo subia e desaparecia com a mesma rapidez. Preocupada, cheguei perto pra tentar ajudar. Porém, o álcool consumido por nós durante a tarde na sueca anulou o pretenso conhecimento adquirido no Exército. Numa última esguichada, o tinner passou por cima da fogueira e levou o fogo pra mim e pro meu irmão - nele, com menos gravidade.

Na hora, só vi minha perna pegando fogo, mas nos poucos passos até a borda da piscina ele cedeu. O cheiro de cabelo queimado e os fios chamuscados só foram percebidos depois. Fiquei puta, agarrei a lata da mão do menino e saí xingando, arrancando casaco e pantufa, enquanto seguia para o quarto onde as meninas dormiam para pedir um hidratante emprestado. Acordei as garotas meio como um furacão e a partir daí parei de ser a responsável pelos meus atos.

É de conhecimento mais do que público que eu não sou a pessoa que mais aceita ajuda nesse mundo. Gosto de sustentar a fama de auto-suficiente. Mas, dessa vez, parecia uma criança sendo levada pra cima e pra baixo, obedecendo as instruções daquele grupo de amigas-irmãs.

Primeiro lavei a perna. Em seguida, fiquei sentada, tentando me acalmar enquanto as meninas me faziam compressas com toalhas molhadas. O choro que não saiu já foi suficiente pra deixar Ariel preocupada. Em algum momento que não lembro qual, tomei um banho pra tentar tirar o cheiro de queimado do cabelo, o que não funcionou.

Lucy, mal havia saído da cama, já sacou o celular e conseguiu instruções do que fazer em casos de queimaduras. Outro amigo, assim que descobriu o nome da pomada receitada, pegou a chave e correu em direção em direção ao carro, só perguntando ao léu se alguém queria ir junto. Pra mim, que só via a movimentação, ainda confusa, tudo aquilo parecia um balé ensaiado, com pessoas correndo em todas as direções, cada uma com seu papel.

Na volta, como o creme não fazia efeito, fui quase arrastada para o hospital. Os 40 quilômetros mais a confusão para chegar até o lugar me mostraram que a preocupação alheia tinha fundamento. A pele ardia tanto que foi preciso o ar frio do carro para acalmar os arrepios.

Chegando lá, enquanto andava de vestidinho vermelho e ceroulas de festa junina pelo pronto-socorro, doentes, médicos e enfermeiras olhavam com espanto para minhas pernas. Um médico sarcástico mas muito simpático começou o atendimento, que uma enfermeira extremamente cuidadosa completou, com soro e mil remédios diretamente na veia.

A mesma atenção eu recebi dois dias depois, aqui em São Paulo, na ala de queimados do HC. Enquanto conversava com o médico, a enfermeira se divertia arrancando bolhas e pele necrosada.

Apesar da insistência de Ariel e de outra amiga, essa de infância, voltamos pro sítio e não para São Paulo depois do primeiro atendimento. O clima ruim já havia tomado conta das pessoas que continuavam na casa e das que tinham acabado de chegar. A festa julina se resumiu à comida e à fogueira, acendida depois e deixada de canto, como que de castigo.

No dia seguinte, por insistência do padre fajuto que chegou trazendo Lana, fizemos o tal arraial, com casamento, damas de honra, Bíblia de viagem à Disney e tentativa de Queen para trilha nupcial. A quadrilha deixou tudo mais ameno. Até mesmo piadinhas com minha perna foram aparecendo.

Antes, pensava em fazer uma despedida para todo mundo, assim comemorava com um final de semana inteiro para os mais próximos e um tchau geral para os outros. No fim, o acaso fez com que essa fosse o veradeiro e único evento. Apesar da fama de festeira, só pude dar oportunidade para os amigos mais queridos me darem tchau. Os que aproveitaram a chance acabaram mostrando que mereciam o convite. Esse blog já fez diversas odes à amizade, mas acho que nunca é demais. Se amigos são irmãos que a gente escolhe, esse final de semana me mostrou que minha mãe social era bem da assanhada. Ainda bem.

Tuesday, June 24, 2008

O doce de cada um

Lucy me disse certo dia que preciso arranjar pessoas menos bregas. Sim, bregas - adjetivo usado por ela, talvez a mais romântica do grupo, para determinar o tipo de pessoa que eu, talvez a mais racional entre nós, costuma encontrar.

É fato que diminutivos, superlativos, palavras e frases de efeito que às vezes não dizem muita coisa e não expressam a realidade são a tônica de todo e qualquer relacionamento. Por isso, acho que me acostumei a não criticar mais. Se eu sou um extremo, me recusando ao máximo a chamar alguém de gatinho, gato, gatão, benzinho, mozão e afins, o resto do mundo pode fazer parte do outro pólo. E para o sul se relacionar com o norte, é só a gente entender as diferenças e brincar com elas.

Apesar de nenhuma das Jones ser um poço de doçuras (no sentido brega da coisa), há uma escala de meiguice entre as cinco, com a existência de algumas peculiaridades. A palavra "fofo", que começou com Lucy, hoje já é praticamente usada por todo grupo, mas cada uma no seu caso. Lucy diz que homens são fofos - isso, inclusive, já foi comentado por ela em algum texto. Mesma opinião tem Lina, que há tempos está sumida. Para Ariel, bebês são muito fofos. Já no meu caso, e onde talvez se inclua Lana, o adjetivo está mais ligado a cachorros ou a outros animais que andem em quatro patas em vez de duas.

Indo um pouco mais a fundo... a metade da minha laranja, a tampa da minha panela, minha vida, meu amor, o tijolinho que faltava na minha construção... tudo isso é clichê e, dependendo do seu humor no dia, ridículo. Entretanto, faz parte.

Uma professora de ginásio leu uma vez o texto "Todas as Cartas de Amor são Ridículas", de Álvaro de Campos. A tese é simples: todas as cartas de amor são ridículas. Se não fossem ridículas, não seriam cartas de amor. Ou seja, se você gosta da pessoa, até as coisas bregas podem virar bonitinhas. O problema é quando que essa mudança acontece.

Certo dia, depois de ouvir um "porque a gente se gosta" de alguém que mal tinha conhecido, fiquei pensando e - mais do que isso - perguntei se a pessoa realmente acreditava naquilo que estava dizendo ou se falava por falar mesmo. A resposta foi meio que uma mistura dos dois.

E daí, o que é pior: pecar por uma seriedade excessiva, esperando surgir o sentimento para depois expressá-lo e, assim, correr o risco de não se deixar envolver o suficiente, ou dizer coisas que você às vezes nem sente só porque acha que vale a pena apostar na relação e esperar que, com o tempo, tudo o que você está dizendo vire realidade?

Se eu ouvir 40 vezes a mesma música é bem possível que acabe gostando dela. Então, se uma pessoa falar mil vezes eu te amo, é provável que isso aconteça mesmo ou que, pelo menos, a gente acredite nisso. Porém, além da auto-afirmação, acredito que há outro elemento para essa chuva de elogios e frases bonitinhas que começam na adolescência e às vezes não terminam nunca: a vontade de agradar ao outro.

O que mais se ouve é que mulher gosta de homem romântico, apaixonado e que, por isso, ela costuma ser mais piegas. Uma cena clássica de começo de namoro (às vezes mesmo depois de um bom tempo de namoro) é a de Kate Hudson fazendo biquinho pra chamar o cara que ela mal acabou de conhecer de "my Benny Bear", em "Como perder um homem em 10 dias".

Segundo a lógica do filme, homens detestam esse excesso de doçuras, mas o que acontece na prática não é bem assim. Talvez por realmente acreditar que as mulheres gostam e precisam disso, os homens cada vez mais se acostumaram a usar essa melosidade em demasia para explicitar seus sentimentos. E nessa bola de neve, mulheres que não são tão adeptas a essa chuva de glicose acabam se acostumando com o tratamento e homens que não eram tão... açucarados acabam virando os próprios bonequinhos de glacê de Natal.

E, apesar desse texto parecer uma crítica ferrenha, confesso que não é tanto. Quando era mais nova, meu estômago já revirou várias e várias vezes toda vez que o moço em questão fazia biquinho ou voz de bebê pra falar comigo. Mas não tem jeito, há leis da natureza com as quais não podemos lutar. Com o passar dos dias, a bolacha fora do pacote vai ficar mais murcha e a gente, menos crítica.

Um exemplo é o 'querido' - também incorporado de dona Lucy Jones e contra o qual sempre lutei -, que deixou de ser irônico para virar sincero e já nem soa mais tão engraçado. Pessoas queridas são queridos e ponto. Nada de errado nisso. Afinal, vale lembrar que açúcar sozinho enjoa, mas é imprescindível pra se fazer um bom chocolate.

Wednesday, June 04, 2008

O Mr. Big de cada uma

Para muitas mulheres, ele era o cara. O genro que mamãe pediu a Deus. Culto, inteligente, divertido, bom caráter, maduro, bom de papo, enfim, uma ótima companhia.

Pra mim, pra você... infelizmente ele não era o cara pra ela. E ela sabia disso desde o começo, desde a primeira olhada. Sem estalos, sem suspiros, sem sonhos ... Os pensamentos em comum tornaram a convivência uma amizade. E de um beijo roubado, mas beeeem consentido, a amizade evoluiu.

Se não era pra dar certo? Se era pra dar? Nem os dois sabiam dizer. Já estavam há alguns meses juntos como amigos, amantes, companheiros e confidentes. Os sentimentos existiam, ou melhor, bravamente persistiam, resistiam, porque eram abafados por ambos os lados.

E tudo estaria comodamente perfeito se ela não se desse tanto ao direito de sonhar. De querer ao menos se deixar apaixonar e viver uma história, mesmo que não tivesse final feliz.

Ela decidiu quebrar a cômoda harmonia e falar. Discussão de relacionamento não foi, porque aquilo não era uma discussão, tampouco de um relacionamento. Mas se não era, nunca será. Ele entendeu e respeitou os sonhos de menina dela, mas já não estavam na mesma sintonia. Ele não queria se deixar envolver, nem criar raízes.

A decisão era de que a amizade era forte e verdadeira demais para se deixar de lado. De certa forma, um precisava do companheirismo do outro. Eles apagaram a porção amante e agora tentam tocar a vida. Como amigos...

Será que a amizade sobreviverá?

XOXO

Monday, May 12, 2008

25 anos

É muito provável que nunca tenhamos nada. Nada a mais do que tivemos até hoje. E o que seria isso? Alguns sorrisos, uma brincadeira, pernas e braços um pouco mais encostados do que precisariam.

É bem provável que os dois já tenham cogitado várias vezes passar um pouco disso, mas nunca aconteceu. "Você não dá mole nem pra quem deveria", me disse recentemente uma amiga. Verdade.

Nas vezes em que parecia que algo a mais pudesse acontecer, apareceu uma outra menina, um outro cara, alguém mais rápido e com menos a perder do que uma convivência amistosa. E a gente cede.

O álcool, da mesma forma que deixa mais solto, também contribui para tirar (a mim, principalmente) de circulação. No dia seguinte vem, além da dor de cabeça, aquele peso enorme na consciência. Ressaca moral, diria um amigo.

Lucy, provavelmente, ao chegar nessa parte do texto, deve estar pensando "amiga, tá bem? quem costuma surtar assim sou eu". Mas meus surtos são diferentes. Não são profundos, não falam de amor, não falam de paixão, mas, sim, de um medo imenso de decepcionar os outros. Medo de trazer qualquer coisa de ruim a pessoas tão queridas, de quebrar esse sentimento belo, a amizade e o carinho que tenho por tanta gente, de que gosto tanto.

Essa semana fechei minhas comemorações de aniversário. Sítio com as garotas, almoço com amigos, jantar com meus pais, festa com mais amigos e almoço em família (que também serviu para o dia das mães). Ficar mais velha é uma ótima desculpa para estar com quem a gente gosta e que gosta da gente.

Na hora de publicar algumas fotos, principalmente as de sexta, me deu um branco. Não sabia que legenda colocar. Por maior que fosse a criatividade, as frases pareceriam clichês, impossível de dizer mais do que eles sorrisos enormes, rostos queridos. Mas, agora, conversando com Lucy, me vieram alguns momentos que precisam ser relembrados.

- não deixe para fazer compras numa 5a-feira de feriado. Parece que ninguém tem mais nada pra fazer na vida do que ir ao supermercado
- ao comprar licor pra fazer drinks, esqueça os de morango. Se não tiver de melão ou laranja, melhor ficar só nas caipirinhas
- se for passar o feriado com três loiras, faz mais sentido pegar o menor dos quebra-cabeças
- por mais frio que faça, tenha sempre um biquini na mala
- às vezes, é melhor não perguntar o motivo das coisas. Ajuda na surpresa e não estimula sua amiga a contar mentiras
- boteco, bolo pulmann e meia dúzia de amigos são mais do que o suficiente prum festão
- família é família... fundamental
- o problema de pegar um balde de cerveja é que você tem que tomá-lo
- proseco não combina com cerveja, ainda mais com 9 cervejas e dois chopps
- Jones e amigas não precisam de funk pra descer até o chão, por mais que às vezes fosse melhor não fazê-lo
- se a platéia é animada, a banda pode estar dormindo que a gente nem liga
- bêbados são facilmente influenciáveis e com o tempo até assumem que estão realmente bêbados
- a festa foi boa de verdade quando a gente se liga que se divertiu com várias pessoas que você nem ao menos sabe o nome e poderiam ser identificadas somente como "amigo ou amiga do ciclano"
- bolo não serve só pra comer, mas... quando for escolher um pra jogar na coleguinha, pegue o sem marshmellow, por favor
- melhor do que levar uma máquina fotográfica é entregá-la às pessoas certas
- alguns amigos são tão amigos que te incentivam a ficar longe deles só porque querem o melhor pra você
- outros são tão amigos que continuam contigo mesmo quando nem você mais sabe que está com você mesma

Tuesday, April 01, 2008

Do you trust me?

Uma das qualidades mais importantes nas pessoas é a confiança. Se Jasmine não acreditasse em Aladin, eles nunca teriam dado aquele passeio fantástico de tapete pela noite de Bagdá. Se você não confia na pessoa com quem está, não se entrega, o relacionamento não é metade do que poderia ser. Mas é complicado se abrir, se entregar, ser sincero consigo mesmo e com os outros.

Inconscientemente já nos enganamos. A gente não tem tempo para parar e pensar nas decisões diárias. E nessas, você não sabe mais o que é verdade e o que você gostaria que fosse. Toma decisões baseadas no que acredita ser verdade e tudo vira uma bola de neve. De repente, vem aquele sentimento de vazio. O que eu estou fazendo com a minha vida é uma questão constante. Do que eu gosto de verdade, do que eu me acostumei a gostar ou do que eu nem gosto mais e ainda não percebi? Crises de identidade são mais normais do que deveriam.

Segundo alguns, elas acontecem porque as pessoas mentem tanto que acabam acreditando na mentira. Eu vou além. Acho que acreditar na mentira é uma necessidade. Se você a todo momento se lembrar que está mentindo, como conseguir viver? Como vai conseguir olhar no rosto das pessoas, se olhar no espelho? Por isso, às vezes é melhor acreditar na própria mentira. Assim não tem que enfrentar as conseqüências nem mesmo sua consciência.

Mas, como sempre, existe o outro lado. O meu problema é que mentir, omitir, dá muito trabalho. É preciso pensar antes de falar, lembrar da versão inventada, não cometer erros. Por isso, acho que o melhor é evitar a fadiga e a sujeira na aura e contar tudo de uma vez. O estresse é maior, mas não dura pra sempre.

Além do que, esse joguinho de meias-verdades é cansativo pros dois. Pro que mente e pro que escuta, que tem que ficar preocupado, tentando tirar a verdade o tempo todo.

Isso costuma acontecer de vez em quando, no dia-a-dia, mas é mil vezes acentuado em uma determinada época do ano. Inventada na França não sei em que século para pegar os que se atrapalhavam com a mudança de calendário (o ano novo deixou de ser comemorado na última semana de março para ficar como é hoje), a tradição do primeiro de abril consiste em contar mentiras para os amigos.

"Terminei o meu namoro", "voltei com meu ex", "seu pai sofreu um acidente", "vou te dar um cachorro de presente". Ah, quantas vezes eu já caí - e ainda caio - nessas brincadeiras no mínimo bobas (se bem que, pelo menos são bobas. Se me chamassem pruma festa de réveillon que não existe eu ia ficar muito, mas muito frustada).

Depois, fico na dúvida... é melhor acreditar de cara, mesmo correndo o risco de ouvir um irritante "pri-mei-ro-de-a-briiiil", ou me cansar fazendo todas as perguntas possíveis e imagináveis até ter certeza que é não verdade? Pra completar, sempre tem aqueles sem graça que resolvem fazer anúncios (verdadeiros) justo no dia da mentira, com o único intuito de tumultuar ainda mais a vida das pessoas.

Tanto desperdício de energia! É tão bom poder conversar com os outros, acreditando neles, sem a presença de um diabinho atrás da orelha lembrando o tempo todo o calendário...

Ano que vem acho que tomo um remédio e passo o primeiro de abril inteiro dormindo. Se bem que, eu, 24 horas dormindo, nem que não fosse dia da mentira alguém ia acreditar.

Tuesday, March 18, 2008

Abstinência

Substantivo feminino
1 - ato de abster-se, de privar-se do uso de alguma coisa
2 - privação de certos alimentos e bebidas em cumprimento de preceitos religiosos ou outros
3 - privação voluntária de prazeres e/ou bens materiais em busca do aprimoramento moral ou espiritual
4 - privação voluntária dos desejos sexuais, por exigências morais, espirituais ou religiosas
5 - privação, voluntária ou não, de substâncias tais como álcool, heroína ou qualquer outra droga de que se é dependente



Seja qual for o motivo ou as substâncias envolvidos, a abstinência é sempre um comportamento difícil.

Para se chegar ao ponto de prometer ficar um tempo sem determinada coisa é porque ela está nos fazendo tão mal (ou até mais) quanto está fazendo bem. Se fosse algo só ruim, ninguém precisaria se forçar a ficar sem. Eu posso ficar dois anos sem comer melancia que nem vou perceber (na verdade, acho que estou há dois anos sem comer melancia).

Ao contrário, vai me dizer que eu tenho que ficar uma semana sem comer chocolate, sair pra balada ou usar o msn, gtalk ou email no trabalho? Ô, dificuldade. Então, se a gente toma uma decisão dessas, é porque precisa. Promessas podem ser feitas para pedir, para agradecer ou simplesmente para o nosso próprio bem. Esse último é o caso de quando prometemos a nós mesmas que não vamos mais ligar pro ex, que não vamos comer besteira ou que não vamos beber. O meu recente caso de abstinência foi desse último tipo aí.

A história toda começou com um desafio pra mim mesma. Ressacas contínuas, engovs... passei mal duas vezes em uma semana. Não só por bebida, mas também por comida. Mas em todo caso, resolvi ficar até o carnaval sem beber. Até o carnaval? Não... tem feriado uma semana antes. Então ficaria até dia 25 de janeiro. "Dez dias só, lógico que eu consigo". Depois do quarto copo de cerveja lembrei que estava há três dias sem beber. "É... eu não consigo". E já que não consegui uma semana, ia ficar um mês. Aceitei o desafio, agora de um amigo, e fiquei exatamente 30 dias sem beber, contados a partir da quarta-feira de cinzas.

E pra brincadeira ficar só um pouco mais divertida, nesse meio tempo, o que mais houve foi gente atiçando. As pessoas davam risada ao ouvir que estava "há três dias e meio" sem beber. Mais ou menos como aqueles diabinhos de desenho, amigos que nunca me trouxeram uma cerveja na vida a todo momento chegavam com uma latinha na mão. Os que não bebiam, passaram a beber. E o que eu mais ouvia era "ah, pra que toda essa besteira, você não vai conseguir mesmo, melhor acabar com isso de uma vez".

De todos os amigos, o máximo de incentivo que recebi foi um "eu acho que você vai conseguir, mas porque acredito que a gente é capaz de conseguir qualquer coisa. A questão é que você não vai ganhar nada com isso. Ao contrário, só vai perder".

Assim como os que param de fumar e passam a sentir melhor os cheiros e sabores, mesmo com essas poucas semanas eu consegui ver a diferença. Por exemplo...

Em toda a minha vida, eu nunca fui tão chata quanto nesses 30 dias. Nem eu me agüentava. Fiquei ansiosa, estressada. E olha que arranjei várias formas de liberar endorfina. Comi chocolate, vivia na academia ou nos treinos de rugby, tomei sol.

Os refrigerantes perderam toda a graça, assim como os sucos. Tudo é muito doce. Por isso, passei a tomar coisas light, que antes não suportava, mas que pelo menos têm um fundinho de amargo. Mas mesmo eles são gasosos, não têm espuma, não são amarelos - é... Guaraná é, mas esse não conta.

O fato é que cerveja me faz relaxar. Eu nunca tinha reparado nisso até Lucy dizer no meio de uma conversa qualquer que não sei quem parecia comigo quando tomava uma cerveja, meio que apertava o botão de desliga. Ficava quietinha, sentadinha. E não tem coisa melhor do que passar o dia sentada, conversando, tranqüila, dando muita risada ao redor de um monte de amigos.

Na falta da loira - a bebida, não a amiga -, muito chocolate, o que dá uma sensação boa, mas me deixa ainda mais elétrica e engorda. Aliás, cerveja dá barriga, ok... mas muito mais fácil se livrar dela do que da celulite causada pelo refrigerante.

Os exercícios também não foram os mesmos. Depois de um tempo, percebi que o álcool interfere diretamente na resistência. Conseguia fazer muito mais coisas sem me cansar - e isso não é necessariamente bom. Por mais que meus músculos estejam cansados, eu ainda não. A perna - que eu achava que não tinha mais pra onde crescer - cresce, o braço cresce... não é à toa que esse monte de gente bombada não bebe. Fica ansioso e depois se mata na academia. Ah, se eles soubessem como ficam feios. Vai pro bar que é bem mais legal.

O pior de tudo é que nesse meio tempo não deixei de sair um final de semana. Daí, o melhor é água. Uma, duas. Mais do que isso o estômago não suporta. Cerveja é absorvida mais rápido, é ótima pra hidratar, cabe um monte, além do gosto ser inigualável. A garrinha long neck é perfeita pra segurar. A latinha tem todo o ritual de amassar e o copo de caipirinha tem canudinho pra ajudar a comer as frutas depois! Sem isso, a mão parece que perdeu sua função, o corpo todo perde o equilíbrio.

Essa foi a impressão dos primeiros dias. Depois, até que acostumei e à meia-noite e meia do dia 8 de março, tomei minha primeira cerveja depois de 30 dias. Meio gripada, mal senti o gosto, mas era um marco. No dia seguinte, começou meu curso de bartender, que incluiu uma degustação de destilados e compostos. Nem percebi a coincidência de datas quando marquei o curso. Parece que certas coisas estão predestinadas.

No final, não sei se concordo com aquele meu amigo, de que só perdi ficando um mês sem beber. No primeiro final de semana, a cerveja que marcou minha volta à bebida foi a única que tomei. Nos dias seguintes, nem uma balada open bar aproveitei em quantidade suficiente. Já no final de semana, fiquei bebinha e sóbria três vezes em menos de 24 horas. No fim, acho que a abstinência valeu pela análise. Percebi que não preciso da bebida. Estou com ela porque quero e só nos momentos em que quero. E, como tudo nessa vida, é bom lembrar que se pode cortar quando começa a nos fazer mal.

Tuesday, February 26, 2008

Um desafio à lady

O princípio da lei de Murphy diz que se alguma coisa tiver qualquer chance de dar errado, ela vai dar errado. E ela é tão implacável que alguns engraçadinhos passaram a chamá-la de Lady Murphy, pra comparar com o possível sadismo das mulheres. Jogos sexistas à parte, é fato que a lei de murphy está irremediavelmente ligada a uma palavra do gênero feminimo: ironia.

Ironia não é sarcasmo. Sarcasmo, segundo o dicionário, é uma ironia melhorada, grosseira, na verdade. Em um aspecto muito pequeno, você tira sarro da pessoa para mostrar o quanto a idéia apresentada não é boa, por exemplo. A ironia, por sua vez, tem um sentido muito mais amplo de oposição, como dizer alguma coisa com a intenção de fazer outra ou planejar algo que depois terá tido um final totalmente diferente - a base para a lei de murphy.

É por causa dessa tal lei que só tem chovido nos dias em que há treino e normalmente no final do dia, porque como já choveu no domingo inteiro, tem que fazer aqueeele sol na segunda-feira.

Também por isso que a gente esquece o guarda-chuva justo nesses dias, por isso que quanto mais atrasada a gente está, mais tem trânsito na cidade, e parece que quanto mais a gente amaldiçoa isso, pior fica. Para tudo isso poderíamos dizer: "irônico. não?"

Apesar do meu recente - e espero eu, temporário - mau humor, confesso que sou daquelas chatas que conseguem ver lado positivo em tudo. Ontem, por exemplo, havia treino e era meu rodízio. Peguei o do meu irmão emprestado. Sem nada de gasolina. E eu já estava muito atrasada, como aliás, em toda segunda-feira. Na verdade, dava pra chegar no trabalho, mas não pra ir até o treino. Tinha duas opções: ir correndo pro trabalho e colocar gasolina saindo do trabalho ou ou passar no posto agora e ficar ainda mais atrasada.

Segundo a tal de de Murphy, se fosse direto pro trabalho, não ia conseguir sair na hora e ia chegar mais tarde ainda no treino. Já se fosse pro posto antes, ia ter algum problema no trabalho quando eu chegasse e no fim eu ia conseguir ir embora a hora que quisesse, só pra ficar com raiva, já que eu não teria precisado tomar a bronca de mais cedo.

Analisando as duas hipóteses, me deu um estalo que achei fantástico. Resolvi que ia jogar com Murphy a meu favor. Se eu passasse no posto antes ia chegar mais tarde e sair mais cedo... então, por que a dúvida? Trabalharia menos e ainda ia pro treino na hora. Bronca, todo mundo leva. Achei tudo aquilo lindo. A tal lady era bem possível que existisse mesmo e não era uma mulher perversa, mas simplesmente incompreendida. Quem soubesse argumentar com ela, como eu sabia, só iria se dar bem.

Fui pro posto, com calma. Ao chegar no trabalho, nenhuma bomba nem bronca. O único post que precisaria publicar estava pronto e eu, felicíssima por ter conseguido jogar com a lei a meu favor. Fui almoçar tarde porque tinha chegado tarde e, portanto, sem fome. Até então, tudo perfeito, minha teoria se comprovava. A lei elevada à lei dá um resultado bom pra mim.

Porém, ao chegar do almoço, meu chefe já estava lá havia algum tempo. Ele não viu que horas saí e portanto podia pensar que estava a não sei quantas horas na rua. Às 18h, pouco mais de duas horas depois de eu ter voltado do almoço, descubro que minha cachorra passou mal. Fiquei na dúvida se ia ao treino ou se passava em casa, via como ela está e aproveitava pra ir na aula de dança. Às 20h (horário que começava o treino), meu chefe me ligava pra contar que perdeu todo o material que seria publicado. Espero até as 21h, nada. Vou pra casa. Perdi o treino. Pra chegar na aula, que começava às 21h30, teria que passar em casa primeiro, ou seja, perdi a aula.

Contando com a lei de Murphy, cheguei tarde pra sair cedo e ficar muito brava por ter chegado atrasada à toa, mas acabei voltando ainda mais tarde. Se tudo fosse segundo a tal lei, eu teria sido flagrada quando cheguei ao trabalho, mas em compensação isso aconteceu quando voltava do almoço. Numa situação normal, estando o post pronto, publicaria cedo e embora cedo iria. Pela lei de Murphy, alguma coisa ia dar errado e eu sairia tarde, depois de publicar. Na versão final, tudo deu tão errado que, apesar de ter ficado até as 21h, o material só foi publicado no dia seguinte.

No fim, a única coisa coerente é que eu realmente não precisava ter colocado gasolina antes de chegar ao trabalho, já que saí tão tarde que não tinha mais pressa pra nada. O resultado, então, mudou. A lei de murphy elevada à lei de murphy dá qualquer coisa esquisita e confusa, diferente do diferente, e que não é boa pra ninguém.

Monday, February 25, 2008

Pane no HD, lapso da memória

Lembro que quando estava no colégio me impressionei quando um menino tinha me tido que o computador dele tinha um gigabite de HD (o chamado disco rígido do computador), o que significa mil megabites, ou seja, um milhão de quilobites (kb), que nem ao menos é a menor unidade de medida da informação dos computadores - mas menos do que isso a gente nem conta, seria quase como centésimos de Real. A questão, voltando, é... meus Deus, pra que tudo isso? Eu tinha apenas algumas dezenas de megas e já me sentia uma pessoa mais do que feliz. Naquela época ainda não existia mp3, câmera digital era uma raridade, os jogos eram mais simples (lembro da sensação que era Full Throttle) e os computadores, por sua vez, não precisavam de tanto espaço.

Hoje, até o email tem um giga - dois, na verdade - e os equipamentos demandam cada vez mais recursos. Um amigo, pra comprar uma placa de vídeo realmente boa, resolveu primeiro comprar o game mais pesado que existe no mercado, para em seguida comprar a placa que o suportasse. Certeza de boa compra, por mais que - até então - ele não precisasse de tudo isso. Agora, viciou no joguinho, que a princípio ele nem queria.

O computador vira um companheiro e ganha a personalidade do dono. Acho lindo quando vou usar o micro de alguém e vejo os favoritos todos organizados, em pastas. A área de trabalho só com os itens que se tem uso constante. Meus documentos, minhas imagens, minhas músicas, tudo em perfeita ordem. Normalmente esse tipo de pessoa é organizado também longe da telinha.

Já... eu (pra não entrar naquela de "pessoas como eu", simplesmente pra dividir a culpa com desconhecidos) não posso ser considerada um primor de organização nem no meu quarto, que dirá com um monte de dados dentro de uma caixinha. De vez em quando eu faço uma limpa no meu armário. Dôo as roupas que não quero mais, reorganizo as gavetas, passo a guardar blusas enroladinhas e divididas por cor. Também de vez em quando eu limpo os links salvos, deleto arquivos desnecessários, organizo pastas de fotos, músicas e textos. Nenhuma das duas arrumações dura mais do que seis meses. Porém, meu guarda-roupa nunca explodiu de tanta coisa e nem meu computador ficou por muito tempo com arquivos inúteis. Isso, aliado ao fato de eu não ter a menor paciência pra baixar músicas e muito menos vídeos na internet, fez com que meus arquivos, mesmo acumulados ao longo dos anos não ocupassem um espaço muito grande.

Outra coisa que me ajudou a ser mais... desapegada - com os arquivos, e não com as roupas - é a minha vocação natural para tester. Segundo meu pai, que trabalha com desenvolvimento, pra ter certeza de que o programa está perfeito, é só dá-lo na minha mão. Se ele tiver qualquer defeito que seja eu descubro em menos de cinco minutos. Lógico que não do jeito convencional, mas dando pau no bicho mesmo. A minha adolescência, quando trabalhava com ele, foi repleta de telas pretas de DOS com um quadradinho em vermelho escrito "ERROR BASE" com um número em seguida. O problema é que eu não quebrava só os programas desenvolvidos por ele. De alguma forma, que até hoje eu não sei, já cheguei a ter mais de mil vírus no meu computador, que infectaram uma quantidade não sei quantas vezes maior de arquivos, o que prova que eu e as máquinas nunca demos muito certo. Era uma relação constante, intensa, mas cheia de altos e baixos. E eis que no meio do ano passado troquei meu computador antigo por um que já veio com o maldito windows vista basic, que é mais confuso, pesado, não me deixa abrir mais de três programas de uma vez e, pior de tudo, não é compatível com o joystick que uso pro emulador do super nintendo. Só que isso eu só fui descobrir quando estava tudo instalado.

Depois de seis meses enrolando, resolvi fazer o tal backup para colocar o windows xp, azulzinho, simples de mexer, compatível com meu jogo, uma graça. Na primeira tentativa, não havia espaço suficiente pra todos os arquivos no disco que me foi emprestado. Na segunda, eu mandei copiar, colar. Meia hora depois, desconecto e começa a formatação. Na verdade, eu estava tão preocupada em achar as milhares de coisas que precisaria em outros site para concluir o processo que nem pensei em conferir. Quando já estava tudo pronto, percebo que nenhum dos meus arquivos está onde deveria.

Mais de 6 gigas!!! Sim, pouco em comparação ao que a maioria das pessoas tem, mas eram os meus seis gigas, fotos, textos, músicas. O melhor de tudo que já passou pelo meu login e que sobreviveu a inúmeras seleções ao longo dos anos. Algumas coisas estavam lá desde a época do colegial. Uma década de memórias perdidas em apenas alguns minutos. Como tudo já havia sido reinstalado, não havia nem mesmo a possibilidade de recuperar os dados. Fiquei desolada.

Tinha coisa importante?

Não sabia o que responder. Ah, depende... o que é importante? Tinham meus textos, mas a maioria foi publicada também na internet. Tinham fotos, mas algumas eu posso conseguir com amigos, com o resto da família. Eu mesma, faz tempo que não tiro... as músicas são irrelevantes... alguns arquivos de cursos, mas isso ok... talvez nunca fosse olhar de novo mesmo. Não sei. É tanta coisa e ao mesmo tempo é nada. É currículo, é... não sei - da última vez que tive problema desses jurei que nunca mais ia usar outlook na vida. Tinha perdido emails importantíssimos, muito mais porque eu gostava deles do que porque era realmente importantes - Realmente não sei. Melhor não pensar... depois eu vejo isso.

De repente, um grito no outro canto da casa. Por sorte, o primeiro backup, feito em agosto, quando troquei de computador, continuava no tal hd. Meu pai, mais preocupado do que eu, talvez pensando nos não sei quantos mil gigas que ele não pode perder de jeito algum, se compadeceu da filha avoada e estava procurando. Até que achou. Em vez de seis gigas perdidos, agora era apenas um e meio.

Voltei a pensar... o que é esse um e meio? O que é que eu posso ter feito em seis meses? Fotos. Do Natal talvez meu irmão tenha. Se não tiver, minha tia tem e não eram fotos tão importantes. Foi o primeiro sem meu avô, mas isso não é coisa de se lembrar. Se ainda fosse o último com ele, talvez. As de ano novo e carnaval os outros têm cópia, posso pegar de volta. O que mais eu fiz nesses últimos seis meses? Um bilhão e meio de bites que podem ser tanta coisa, mas que também podem não ser nada. É possível que esta história estivesse contada em pequenos fascículos, dentro do HD. Ele, se foi, a memória se deteriora. A minha, não a do computador. Então, como eu não lembro, melhor acreditar que não era nada.

Wednesday, February 20, 2008

A tal da TPM

Enquanto comia aquela mistura estranha - gelatina de uva, leite condensado e sucrilhos - só conseguia pensar "meu deus, mulher... coitado do pai do teu filho. Se em dias relativamente normais você já é assim, imagina quando tiver realmente com desequilíbrio hormonal". Mas a dor na consciência não durava muito, não. Por mais incrível que pareça, aquilo era bom e ajudava em cheio na ansiedade causada pela tal TPM. Pelo menos, era nisso que eu acreditava.

O processo por trás dessas três letrinhas é simples. O corpo da mulher tem como intuito básico a reprodução. Por isso, nos primeiros 14 dias ele direciona grande parte dos seus esforços para deixar a pele, o cabelo, tudo mais bonito. Nesse período é dever da criatura em questão usar desses artifícios para arranjar alguém que a fecunde. Já nos 14 dias seguintes, a preocupação é com o possível feto. No final dos 28, o organismo tira a prova se sua dona teve ou não a capacidade de engravidar e, em caso negativo, joga tudo o que não foi usado fora para começar de novo.

A TPM inicia no instante em que o nosso corpo se preocupa mais com a criança que não existe do que com nós mesmas, mas normalmente só é percebida nos últimos dias, quando o déficit de hormônios está no seu maior nível. É nessa hora que a gente sente aquele vazio no peito, uma vontade fazer alguma coisa que nem mesmo sabemos o quê. É como se faltasse alguma coisa.

No fundo, falta. Faltam hormônios, mas a aparência é de que falta atenção, sentimento, reconhecimento, carinho e até mesmo um objetivo na vida. Basta qualquer fato mais relevante - como o fim do relacionamento entre os mocinhos da novela ou o nascimento de um jacaré, exibido no National Geographic - para que o olho se encha de lágrimas. A gente pensa "tadinhos" ou "ah, que lindo"! Mas só pensa, porque a garganta está travada demais para emitir qualquer som.

Por outro lado, comentários até mesmo sutis de outras pessoas significam agressões sem tamanho. Em resposta, tem mulher que chora, tem mulher que explode. E como explode. Há algum tempo, a TPM deixou de ser um mito. Mulheres que cometeram crimes passionais já tiveram a pena reduzida ao provarem que estavam nesse período complicado.

No trabalho, a sensibilidade tanto pode ser um fato positivo quanto negativo, já que, por conta dela, a mulher tende a ser mais instável. Regras de beleza e boa forma ajudam nessa tendência de ficarmos cada vez mais frias, racionais. Todos os dias há aquela preocupação em manter o peso, se controlar emocionalmente, ser profissional, não dar escândalos por besteira. Enfim... esquecer todo o nosso lado "menininha". Até que, por apenas uma semana, menos até, a gente se dá o direto de surtar, chorar, gritar.

Beber muita água, fazer exercícios, tudo isso ajuda, mas com toda certeza a melhor forma de diminuir os sintomas é se matar de tanto comer chocolate, sorvete, gelatina com leite condensado, manga com doce de leite - coisas que só fazem sentido em picos de ansiedade. O vazio existencial é curado com milhares de calorias.

Se é sempre a falta de hormônios ou se já virou costume, não importa. A questão é que a TPM se tornou a chance do mundo feminino se libertar daquele monte de regras que nos impomos. É o nosso corpo que arranjou uma desculpa pra gente ser mais humana.

Friday, February 15, 2008

Pau-a-pique e pé-de-barro

O carnaval já passou, mas as lembranças ficam. Fui acampar no interior mineiro. Ok, eu sei. Acampar no meio do mato, sem energia elétrica... Tudo isso soa meio estranho pra quem me conhece. Mas devia isso para uma pessoa muito querida e, apesar choque cultural, sobraram histórias pra contar. E a cachoeira era maravilhosa. Então valeu à pena!
A balada era uma casa de pau-a-pique no meio do nada. Pra chegar lá, do camping onde estávamos, precisava pegar uma estrada de terra mal iluminada (nos trechos em que havia alguma iluminação).
Pra completar o clima roots, ela estava infestada de hippies e nativos, e tocava forró.
A primeira vez me causou tantos traumas que, no caminho de volta, pela tal estradinha de terra com mais duas meninas, prometi pra mim mesma que não voltaria lá.
Mas como não podemos botar a mão no fogo por nada que prometemos no carnaval, acabei voltando. Dois dias mais tarde em um Gol quadradinho com mais oito pessoas!!!
Fui convencida pelos primos da minha amiga que haviam recém chegado. Imaginei que, em uma turma grande, acabaria me distraindo.
Pasmem! Havia uma cantora de MPB, parece que sobrinha da dona do local, com uma bela voz. Dei o braço a torcer, dancei e me diverti. Mas desanimei quando acabou o show e ela anunciou que em breve a banda de forró tomaria seu lugar.
Pois mal havia sentado e a namorada de um dos primos veio me chamar, porque um amigo seu queria me conhecer. Na hora não sei se fiquei mais pasma de pensar que alguém realmente acreditava que eu me levantaria de lá pra ir até ele, e não o contrário, ou se era porque fiquei imaginando quem ainda se prestava ao serviço de pedir pra alguém “agitar uma mina”.
Não levantei. Algumas músicas mais tarde ele apareceu. Um cidadão grande, de uns 30 e poucos anos e da largura de um armário. Tava meio grandinho pra pedir pra agitarem qualquer coisa, né? Pois bem. Estava sentada ao lado de uma caixa de som e ele queria que fosse conversar com ele do lado de fora da casinha.
Apesar de ter dito que não levantaria, ele insistiu dizendo que eu não o ouviria bem. Cansei! “Com todo respeito, não levanto daqui nem pra dançar com meus amigos, não vejo porque levantaria pra conversar com você. Se quiser, converso aqui, estou te ouvindo bem”. Ele se irritou, porque depois que falei isso, levantou e acompanhado de um gesto agressivo com os braços gritou que eu ficasse lá então. Hehe, mas não era exatamente isso que eu queria? Na hora pensei que o cara fosse me bater e que de longe esse seria o episódio mais bizarro da noite. Ledo engano!
Já no fim da balado um cidadão nativo (nascido naquele fim de mundo, onde as pessoas ainda devem se assustar com antena parabólica), trinta e poucos anos, cabelos enroladinhos e regatiiiinha, começou a me olhar. Percebi e, como sempre, ignorei!
Pouco tempo depois, seu amigo que era uma espécie de César Cielo depois da febre amarela, e que olhava pra mulheres da maneira mais nojenta que já vi na vida, de longe começou a fazer gestos com os dedos indicadores de que eu e seu amigo deveríamos ficar juntos. Na hora fiz que não, assim nem teria o trabalho de dispensá-lo. Que nada, o cara veio me tirar pra dançar forró. Agradeci mas disse que não dançava. Só que ele insistiu.
“ Hoje é seu dia de sorte, porque eu sou professor de forró”. O pior, falava isso com orgulho. Como não tinha/tenho interesse em aprender, disse que não queria. E ele já profetizou o que seria minha noite. “Não acha que desisti. Daqui a pouco volto”.
Pois voltou. E repeti que não queria. E essa história se repetiu por várias vezes durante a noite, intercalada com sermões sobre eu não querer fazer amigos, e sobre eu não poder ir para não sei onde, no Espírito Santo, porque lá só tocava forró. Valeu a dica, pra eu nunca por os pés por lá mesmo!
O amigo, o tal que parecia uma cópia mal feita do César Cielo, começou a dizer que ele deveria tentar falar em Mandarim, já que “ a japonesinha não estava entendendo o que ele tava falando”. Ai ai ai.
“Ô pé-de-barro do caramba, Mandarim se fala na China. E a China e Japão são dois países diferentes. Incrível, né?”, respondi, com o ar mais prepotente que consegui encontrar.
Meu humor, que já não estava lá em seus melhores dias, acabou de acabar com a demonstração de ignorância capiau.
E o cidadão pareceu gostar da brincadeira de me irritar, porque não parou.
Quando voltou a perturbar, decidi perguntar quantos anos tinha. Ele se assustou e disse que não fazia diferença. “Ué, você não queria conversar comigo? To tentando conversar com você”, disse ironicamente.
“Tenho , 35, e você?”
“Tenho 12 a menos”
“Mas você quer que eu faça conta?”
Aaaaaai, nem preciso falar que a conversa encerrou e fiquei com vontade de dizer que, com aquela idade, ele já devia, no mínimo, ter aprendido a chegar em uma mulher.
Pouco tempo depois, levantei pra comprar uma coca-cola e ele, literalmente, pulou na minha frente e segurou meu braço. Fui seca:
“Tira a pata! Amigão, desencosta agora”.
“Calma, só quero dançar com você”.
“Olha aqui, não to entendendo porque você tá me enchendo o saco, mas se você quiser me irritar, vai ser pior pra você. Quem ta pagando o mico na frente dos amigos, de ficar tomando bota da mesma pessoa a noite inteira é você”, disse e passei.
Mas ele não desistiu. Ao mesmo tempo em que ouvia seus argumentos pela enésima vez, outro cidadão se prestou dizer que seu amigo queria me beijar. Foi a gota d´água! Desabafei irônica:
“Ah, que maravilha, vamos formar uma fila logo pra beijar a menina que veio de São Paulo, vamos pegar senha. Afinal de contas, achei minha boca no lixo mesmo, sabe? Então, todos os nativos, todo mundo que quiser me beijar, fiquem à vontade. Francamente, é assim que funciona nesse fim de mundo?”
Metade da balada caiu na risada e a outra metade ficou com os olhos arregalados. Acho que ninguém esperava essa reação. Que ótimo, afinal de contas, ia acabar a chateação. Que nada!
Já no finalzinho da balada, ele sentou em um banquinho atrás do meu e começou a roçar o pé no meu. Que nojo! Na hora chamei um dos primos, que já nem sabia mais onde estava, e abracei-o.
O cidadão pegou o bando e saiu do lugar. Por um tempo eles ficaram parados na entrada, e eu temi que estivessem esperando pra me bater. Do jeito que os primos da minha amiga estavam, eles não conseguiriam levantar um dedo pra me defender, ia ter de me virar sozinha. Depois de alguns momentos de tensão, o carro chegou e eles foram embora. Fim de noite, carona no bom e velho Gol quadrado, que estranhamente parecia mais confortável. Voltei pra barraca cansada, irritada, mas rindo do que havia acontecido e imaginando o que seria do resto do meu feriado.

Thursday, January 31, 2008

Quando o sentimento acaba

Incrível como um rosto que antes era tão querido hoje representa tão pouco. Aquele brilho no olho que parece querer entrar dentro de você, que te conhece tão bem, não recebe mais reciprocidade. Ao contrário, parece uma invasão, causa desconforto.

O toque meio sem jeito, as palavras de carinho, balbuciadas quase como pedindo licença - já que não há mais intimidade pra isso - continuam ali... no fundo, são os mesmos, poderiam ser confundidos com aqueles do começo da relação. Mas não. Alguma coisa dentro de você mudou. E o que antes provocava risos, alegria, hoje não é mais do que uma situação esquisita.

No lugar daqueles sentimentos há somente um vazio. Você lembra de tudo o que sentia, mas não consegue encontrar nem ao menos resquícios. O pouco que sobrou, se é que sobrou alguma coisa, traz um sentimento amargo, tal como aquele gostinho de chocolate que ficou horas na boca e em nada se parece mais com o doce original.

Ver a pessoa antes tão querida e não sentir mais vontade de pular em seus braços, trocar carinhos. Sentir até mesmo repulsa em imaginar essas cenas provoca um turbilhão de sentimentos diferentes dentro da gente, uma massa podre que queria arrancar de dentro do peito, uma angústia.

Como tudo aquilo pode ter sumido? Será que não foi de verdade? Duvidamos de nós mesmos, dos sentimentos que dizíamos ter pelo outro. Falsidade? Confusão? Coisa de momento.

As flores, antes favoritas, ganharam um significado ruim depois de terem ilustrado tantas voltas pós-briga. As orquídeas nunca mais serão as mesmas.

Talvez não seja mesmo culpa de ninguém. Simplesmente não deu. Mesmo assim, a falta desse sentimento nos deixa tristes. É como se gostar de alguém nos fizesse pessoas melhores. Por isso a dificuldade e a tristeza ao percebermos que realmente acabou.

Wednesday, January 30, 2008

Liberdade demais enlouquece

Dizem que a melhor (ou talvez única) forma de segurar um elefante é acostumá-lo desde pequeno às correntes. Se você mostra ao filhote que não adianta, que, por mais que ele tente, não vai conseguir fugir, ele uma hora cansa. O bicho cresce, mas não percebe que já pode estourar aquilo. Por maior que ele seja, não vai ser preciso aumentar os ferros proporcionalmente.

Em muitas famílias, a menina, principalmente, se comporta como um elefante. Quando pequena pede mil vezes pra sair, voltar às 5h, 6h da manhã, dormir fora de casa. Algumas estão tão acostumadas com a rédia curta dos pais que, com o tempo, acabam evitando pedir para não criar desentendimentos. "Eu sei que eles não vão deixar, então pra que vou arranjar briga à toa?".

Mulher e ainda por cima filha, neta mais velha, ou eu acostumava ou não saía. Acho que não preciso dizer o que aconteceu. O simples tema desse blog já mostra o caminho escolhido. Estourei as correntes, mas continuava com o resto dela amarrado na perna, como se fosse uma ligação simbólica com o circo.

No começo, minhas saídas eram só shows, durante ou no final da semana. Depois, baladas - todo final de semana, já que morava ali do lado, mas só de final de semana. A fama de baladeira se espalhou e os convites se multiplicaram. Amigas que não têm com quem sair já ligavam e os grupos foram aumentando. Ao entrar na faculdade, começar a trabalhar, o mundo social aumentou e teve semanas em que saí literalmente de terça a domingo.

Mas daí chega uma hora que cansa, as baladas sempre iguais, e chegou a fase de dar as próprias festas - pequenas reuniões em casa que chegaram a ter mais de 20 pessoas num apartamento que nem de longe era grande o suficiente pra isso. Essas comemorações duraram até meus pais, preocupados com a freqüência de uma ou outra pessoa mais estranha, darem um basta na brincadeira. Sim, porque em nenhum momento a relação pais-baladas foi tranqüila. Toda saída durante a semana na minha adolescência - e pós adolescência - resultava em um sermão atrás do outro, sob os argumentos de que não iria agüentar, precisava dormir, descansar, que desse jeito ia me matar. "Você sabe que a cada dia que você passa sem dormir você perde um ano da sua vida?"

Por mais velha que ficasse, as broncas continuavam. Ao mudar de apartamento, mais longe do trabalho e do roteiro de bares do que o outro, passei menos tempo em casa, o que foi motivo para diversas chantagens emocionais. "Você não gostou dessa nova casa, né?", "Ah, eu tenho que tirar essa parede vermelha do seu quarto. Não é à toa que você não pára quieta... esse vermelho deve emitir algumas vibrações diferentes"

Pra me fazer passar em casa depois do trabalho antes de sair de novo, minha mãe resolveu que não ia mais dar comida pra minha cachorra à noite. Se não quisesse que o bichinho passasse fome, que voltasse pra casa. O clima melhora e piora dependendo talvez dos astros, quem sabe do humor dos meus pais, da cotação do dólar... não dá pra explicar, mas conforme o mês está mais fácil ou mais difícil lidar com isso, como já devem ter percebidos todos que têm pais ditos normais.

Mas acontece que, pouco a pouco, eles resolveram ter uma qualidade de vida melhor. Barzinhos no final da tarde, as viagens nos finais de semana ficaram mais freqüentes e, graças a horários cada vez mais flexíveis, começaram as viagens também durante a semana. Foi com grande surpresa que, ao voltar pra casa um dia desses, ouvi da minha mãe, brava porque já passava das duas da manhã, que ela não iria para a praia no dia seguinte, mas pro sítio e que lá ia ficar pelas próximas duas semanas, mas que era lógico que eu não sabia disso porque não parava em casa. Ela, meu pai, minha avó (que passava férias com a gente) e minha cachorra. Todos fora. Em casa, só eu, meu irmão e os peixes do aquário.

Acho que poucas vezes fiquei tão perdida na vida. Não precisava mais voltar pra casa pra nada. Pros peixes era fácil de dar comida. Eu jogava aquelas plantinhas de manhã e de madrugada, alguém à noite e, se peixe realmente não dorme, o de madrugada não precisava ser sempre no mesmo horário. Como resultado, em nenhum dia voltei direto. Já que nem eu nem meu irmão cozinhamos, jantar era uma desculpa pra ir pro bar. Depois de um tempo, não agüentava mais comer sanduíche. Já no final de semana (nos dois finais de semana) São Pedro afogou meus planos e fez chover o dia todo. Acabei saindo só à noite. Meu irmão, se, ao contrário de mim, já não tinha muitas regras ("eu não tenho medo que teu irmão saia porque ele tem medo, já você é meio louca, vai pra tudo quanto é canto") ficou ainda pior. Mal nos vimos durante esse tempo todo.

Quinta-feira, véspera de feriado, os peixes já quase mortos e dentro de um aquário imundo de tanta comida, começou a melhor das maratonas. A idéia era primeiro ver um amigo tocar, depois encontrar meu grupo de faculdade no outro lado da cidade e, por fim, decidir se ia pra praia ou não. Por causa do trabalho, não consegui ver o show. Depois de usar a internet do McDonald's, fui direto pro bar, ver um povo que não encontrava há dois anos. Era meu dia de voltar a beber, então uma caipirinha e uma cerveja em comemoração. Chegando em casa, às 4h, arrumo a mala, durmo 1h30 e sigo pra encontrar Lucy.

Dois dias na praia, com aventuras dignas de Jones, e voltamos domingo cedo. O tempo bom que estava no litoral não tinha chegado a São Paulo, mas eu só descobri isso quando faltava meia hora pra alcançar a marginal. Meio deprimida de pensar em outro dia dentro de casa, vejo uma plaquinha que praticamente brilhava "Rio de Janeiro / Taubaté". Tava cedo ainda... 10h30 da manhã. Pegar a estrada rumo ao sítio significava encarar mais uma hora e meia de estrada (exatamente o que tinha rodado até então). Olhei mais uma vez pro céu e quando vi, estava no caminho oposto, sentido interior. Se meus pais tivessem em casa, provavelmente brigariam de eu pegar a estrada de novo, enfrentar o trânsito de volta de feriado à noite, cansada, ir e voltar no mesmo dia, dirigir mais de 6 horas no total. Mas a liberdade me deu saudades. Fui pro interior só pra ouvir "ah, só você pra fazer isso... mas, que bom que veio". No fim, o circo, as correntes viciam.