Tuesday, July 22, 2008

A caminho da Australia

Ao desembarcarmos em Joanesburgo, a primeira tentativa foi a de fazer um city tour. Algumas pessoas já tinham avisado que a capital da África do Sul também é conhecida por ser a cidade com a maior incidência de estupros do mundo, mas ficar dez horas no aeroporto era um pouco demais. Alem disso, se fosse com um táxi do aeroporto não devia ter problema.

Fomos até o guichê da South African Airlines e, depois de alguma confusão para fazer o check-in da conexão, perguntamos da possibilidade de conhecer a cidade. "Mas o que é que vocês querem fazer lá fora?". Depois da explicação, a mulher da companhia disse que tudo bem da gente sair, mas que não era pra falar com ninguem, "nem olhem pro lado, vão direto para o ponto de informações".

A gente foi, mas fomos barradas na saída porque não tínhamos o visto pra África do Sul. Daí, enquanto pegamos a fila de novo, parou um cara atrás da gente falando português. Cara de surfista, gente boa daquele estilo quase folgado. Brasileiro, lógico. O menino foi se apresentando e eu fui lembrando do meu primo mais velho. Mesmo nome, ambos surfistas, passaram dois anos na Austrália, voltaram pro Brasil e foram moram em Florianópolis. Os dois não conseguiram o emprego que queriam e estão voltando pra Austrália; ele pra tentar ficar, meu primo só pra fazer um dinheiro.

Adotamos o cara, que tava viajando sozinho e que foi de grande ajuda. Ele que me incentivou a pagar um dos grandes micos da minha vida... dormir no meio do aeroporto, bem ao estilo "Terminal", o filme com Tom Hanks.

Durante a viagem, a minha amiga tava empolgadíssima, não queria dormir nesse avião, porque assim ficava cansada, dormia no seguinte e chegava já acostumada com o fuso. A gente conversou bastante, mas o que me deixou mesmo acordada foram os dois filmes do avião. O primeiro - que eu mais gostei - sobre uma menina, interpretada por Christina Ricci, que foi amaldiçoada com um nariz de porco. O feitiço só ia ser quebrado se ela se casasse, então os pais ficam caçando um pretendente. Filme estranho, mas muito bom. O segundo era sobre uma casa aparentemente amaldiçoada e seres fantásticos, como fadas, javalis falantes e bichos nojentos que soltavam gosmas verdes quando morriam. Por causa desses dois, cheguei exausta na Africa do Sul.

No aeroporto, a primeira coisa que vi pra vender foi uma camisa da seleção brasileira de futebol. Em seguida, uma havaiana com a bandeira do Brasil. Mas o que mais me encantou e eu quase comprei foi um bonequinho de pelúcia do antílope mascote do Spingbox, time sulafricano de rugby e atual campeão mundial (depois soube que no dia seguinte teria um jogo deles contra os wallabees, da Austrália, o que tornaria mais engraçado eu entrar no país com o rival deles debaixo do braço). Mas como em aeroporto tudo é estupidamente mais caro, não quis fazer as contas de quanto era o bicho.

Outra coisa que chamou a atenção foi uma máquina de massagem com água. A pessoa deita na maca, eles colocam a máquina por cima, que tem um plástico embaixo e jogam jatos de água nesse plástico, ou seja, em você, mas sem te molhar. A impressão de quem vê de fora é que tem uma pessoa sufocada dentro do plástico, já que não dá pra perceber que ela está solta embaixo da engenhoca.

Eu e Cris chegamos à conclusão que gostamos da África do Sul só pelo estilos deles. Todas as mulheres t^em desenhos nos cabelos, um diferente do outro. Os homens são todos estilosos (o que é legal só pra ver... eu não gostaria que meu namorado usasse um terno e uma calça dourados como vi um cara usando). Mesmo as coisas da companhia aérea, como negocinho pra tapar os olhos, cobertor e afins, eram desenhadas com um monte de formas geométricas e bem coloridas. Lina ia amar.

Mesmo assim, meia hora no aeroporto e eu já tava exausta, quase dormindo em pé e com uma dor de cabeça absurda. No aeroporto inteiro tinha somente um lugar pra entrar na internet. Sem atendente, você tinha que entrar no site e comprar o acesso pra uma semana inteira via cartão de crédito. Desisti.

Fui até a farmácia do aeroporto e comprei uma aspirina efervecente por 33 Raids, o que é cerca de seis dólares. Então foi que o menino me incentivou a dormir nas cadeiras vazias de uma parte mais isolada do aeroporto. Dormi um pouco e fomos comer alguma coisa. Depois da comida, voltamos pro mesmo lugar, dormi de novo, dessa vez mais pesado. O menino também dormiu. J'a minha amiga continuava pilhada, devorando o livro do Garfield que meu pai deu de presente ou andando de um lado pro outro. Foi comprar 'agua, comida, o que precisasse. Quando acordei de novo, a dor de cabeça tinha passado. Fomos ver o horário e descobrimos que o vôo tinha atrasado duas horas. Alguém lembrou de um sofá aparentemente hiper confortável no mesmo restaurante que tínhamos comido. Dez minutos depois e já estávamos os três dormindo de novo. O sofá ficava no final do andar, protegido por um vidro. Depois disso vinham as escadas rolantes. Várias vezes eu abri os olhos e vi alguém que descia a escada olhando pra gente e dando risada.

No segundo avião, vi só um filme e passei o resto da viagem ouvindo música, uma rádio de classic rock e outra de anos 80, principalmente de trilhas de filmes, o que me fez lembrar muito de Lana. Na verdade, eu deveria me sentar em uma cadeira com mais espa'co pras pernas, ainda por causa da queimadura, mas nao deu no primeiro aviao, muito menos no segundo, quando sentei em uma cadeira e minha amiga em outra. Mesmo assim, me senti tão em casa com as músicas que cheguei mais tranquila ainda em Perth, nem liguei muito pra perna. Liguei pra minha homestay, conferi que ela estava mesmo em casa e fui pra lá de táxi. Ela e o cachorro me receberam extremamente bem!

Saturday, July 12, 2008

A sanidade sem sair pra rua

Lucy me diz que essa minha fase em casa a faz lembrar constantemente do filme 28 Dias, com a Sandra Bullock, que coincidentemente eu adoro.

Na trama, que ainda não vi, a protagonista tem que ficar por quatro semanas em uma clínica de reabilitação e fica repetindo que é um ser humano e que um ser humano tem que conseguir ficar sozinha dentro de um quarto sem enlouquecer.

A minha pretensão é menor. Tenho certeza que só de ficar em um quarto com um monte de gente eu enlouqueceria e que só de ficar sozinha numa casa enorme eu enlouqueceria; nem precisava juntar os dois.

Na verdade, nesse exato momento eu tento me convencer que ficar dois finais de semana sem sair de casa já não são suficientes para me fazer surtar.

Pouco mais de dez da noite e eu controlava aquele desejo tentando simplesmente não pensar nele. Saí durante a tarde e apenas quatro quarteirões conseguiram me deixar cansada, ou melhor, sentindo um pouco.

A cicatrização está melhor, então aquela dor que me consumia na quinta-feira quase já não existe. Mesmo assim, ontem preferi ficar em casa. O médico foi enfático ao dizer que se eu andar muito, vaza hemoglobina. Se vazar hemoglobina, o ferro das células mancha a minha pele. E mancha de ferro não sai. Então, melhor eu também não sair.

Ontem nem reclamei muito. Os programas disponíveis não eram aquilo que mais gostaria de fazer, mesmo em dias saudáveis. O templo do rock só costuma ter graça com uma boa dose de veneno, senão estressa, e meu principal parceiro de Butantã está a milhares de quilômetros.

Outra opção seria um barzinho simples, com conversa boa e gente divertida, mas o frio e a impossibilidade de dirigir tornaram essa escolha menos atraente. Me contentei em ir prum bar com meus pais, frango a passarinho e batata frita com milk shake, bem criança.

Hoje, pelo contrário, bati perna razoavelmente. Apesar de ter me cansado só com aqueles quatro quarteirões, depois ainda saí de novo e até paramos o carro em vaga de deficientes, o que faz todo sentido nesse caso.

De volta, troquei os curativos, tirei nova foto da perna sem pele (prometi que só termino essa seqüência quando tiverem sumido todas as manchas) e entrei no msn. No fundo, sabia que mesmo que me chamassem não deveria sair, mas não custa matar o tempo.

Duas horas na internet, várias fotos distribuídas, todo mundo vai embora, eu fico. Minha mãe pergunta se minha perna dói e em seguida dá risada. Se doesse pelo menos um pouco, não ficava com tanta vontade de sair.

Apesar de tudo, a razão ainda comanda. Eu até poderia ligar, mas se recebesse o convite, seria sensato sair? E se não saísse, pra que dar sinal de vida?

Quase entrei em crise duas vezes ao ter que escolher uma roupa simples. A bota aperta a perna, a calça não passa por causa das ataduras e nenhuma blusa ou sapato combina com uma calça de malha fria. O que faria então se tivesse que me arrumar de verdade?

Já estava me contentando em desistir da rua quando o telefone toca. A bolsa, como sempre, tá lá longe e a música pára antes de atender o aparelho. O número, privado. Vou entender isso como um sinal.

Hoje deveria ser minha última balada de sábado, mas pelo jeito não era mesmo dia de sair. Como consolo, algum martírio está chegando ao fim. Essa é a minha última chance de não ver Zorra Total. Com toda certeza, algumas horas desse programa são suficientes para deixar qualquer um louco.

Thursday, July 10, 2008

Patty's on fire

Na escola, aprendi que a dor é uma maneira do corpo dizer que alguma coisa está errada e que, por isso, você tem que tomar alguma providência. Enquanto tá com dor é que nao tá tudo ok. A mesma coisa acontece com o choro. As lágrimas são uma forma do nosso organismo lidar com as emoções com as quais não consegue expressar. Por isso, apesar de não chorar com freqüência, acho que de vez em quando é necessário - e benéfico.

No caso da dor, se for mesmo isso, devo confessar que meu corpo é um tanto quanto prolixo, pra não dizer burro. Já faz mais de 48 horas que essa dor maldita não passa. Eu entendo que minha pele está se recuperando, mas eu já fui medicada, já estou em repouso e as pontadas continuam. É só ficar de pé - não precisa nem fazer força - que parece que minha panturrilha está sendo dilacerada de dentro pra fora. Como conseqüência, eu, que sempre me considerei a pior pessoa do mundo pra ficar doente, agora passo as tardes deitada no sofá ou na cama com as pernas pra cima. E tudo isso a uma semana da viagem.

Um pouco de bebida a mais e um pouco de juízo a menos fizeram com que um amigo colocasse fogo na minha perna enquanto tentava acender a fogueira de festa julina. Ironia ou não, em vez de apagar o facho ou o fogo no rabo pra ficar tranqüila, foi preciso que eu pegasse fogo para então sossegar.

A festa em questão tinha lista fechada. Seria minha despedida, rumo ao país dos cangurus. A princípio, reuniria amigos e família e, portanto, só chamei pessoas de quem realmente gosto muito. Amigos queridos, daqueles com quem me sinto em casa, e de quem vou sentir muita falta quando estiver longe. No fim, não poderia ter escolhido melhor.

A explosão em si foi muito rápida. Estávamos todos comendo, quando aceitei o oferecimento do meu irmão de acender a fogueira no meu lugar. Foi ele e foi um amigo. Não sei como, uma lata de tinner foi parar na mão do moleque. Ele jogava o combustível, o fogo subia e desaparecia com a mesma rapidez. Preocupada, cheguei perto pra tentar ajudar. Porém, o álcool consumido por nós durante a tarde na sueca anulou o pretenso conhecimento adquirido no Exército. Numa última esguichada, o tinner passou por cima da fogueira e levou o fogo pra mim e pro meu irmão - nele, com menos gravidade.

Na hora, só vi minha perna pegando fogo, mas nos poucos passos até a borda da piscina ele cedeu. O cheiro de cabelo queimado e os fios chamuscados só foram percebidos depois. Fiquei puta, agarrei a lata da mão do menino e saí xingando, arrancando casaco e pantufa, enquanto seguia para o quarto onde as meninas dormiam para pedir um hidratante emprestado. Acordei as garotas meio como um furacão e a partir daí parei de ser a responsável pelos meus atos.

É de conhecimento mais do que público que eu não sou a pessoa que mais aceita ajuda nesse mundo. Gosto de sustentar a fama de auto-suficiente. Mas, dessa vez, parecia uma criança sendo levada pra cima e pra baixo, obedecendo as instruções daquele grupo de amigas-irmãs.

Primeiro lavei a perna. Em seguida, fiquei sentada, tentando me acalmar enquanto as meninas me faziam compressas com toalhas molhadas. O choro que não saiu já foi suficiente pra deixar Ariel preocupada. Em algum momento que não lembro qual, tomei um banho pra tentar tirar o cheiro de queimado do cabelo, o que não funcionou.

Lucy, mal havia saído da cama, já sacou o celular e conseguiu instruções do que fazer em casos de queimaduras. Outro amigo, assim que descobriu o nome da pomada receitada, pegou a chave e correu em direção em direção ao carro, só perguntando ao léu se alguém queria ir junto. Pra mim, que só via a movimentação, ainda confusa, tudo aquilo parecia um balé ensaiado, com pessoas correndo em todas as direções, cada uma com seu papel.

Na volta, como o creme não fazia efeito, fui quase arrastada para o hospital. Os 40 quilômetros mais a confusão para chegar até o lugar me mostraram que a preocupação alheia tinha fundamento. A pele ardia tanto que foi preciso o ar frio do carro para acalmar os arrepios.

Chegando lá, enquanto andava de vestidinho vermelho e ceroulas de festa junina pelo pronto-socorro, doentes, médicos e enfermeiras olhavam com espanto para minhas pernas. Um médico sarcástico mas muito simpático começou o atendimento, que uma enfermeira extremamente cuidadosa completou, com soro e mil remédios diretamente na veia.

A mesma atenção eu recebi dois dias depois, aqui em São Paulo, na ala de queimados do HC. Enquanto conversava com o médico, a enfermeira se divertia arrancando bolhas e pele necrosada.

Apesar da insistência de Ariel e de outra amiga, essa de infância, voltamos pro sítio e não para São Paulo depois do primeiro atendimento. O clima ruim já havia tomado conta das pessoas que continuavam na casa e das que tinham acabado de chegar. A festa julina se resumiu à comida e à fogueira, acendida depois e deixada de canto, como que de castigo.

No dia seguinte, por insistência do padre fajuto que chegou trazendo Lana, fizemos o tal arraial, com casamento, damas de honra, Bíblia de viagem à Disney e tentativa de Queen para trilha nupcial. A quadrilha deixou tudo mais ameno. Até mesmo piadinhas com minha perna foram aparecendo.

Antes, pensava em fazer uma despedida para todo mundo, assim comemorava com um final de semana inteiro para os mais próximos e um tchau geral para os outros. No fim, o acaso fez com que essa fosse o veradeiro e único evento. Apesar da fama de festeira, só pude dar oportunidade para os amigos mais queridos me darem tchau. Os que aproveitaram a chance acabaram mostrando que mereciam o convite. Esse blog já fez diversas odes à amizade, mas acho que nunca é demais. Se amigos são irmãos que a gente escolhe, esse final de semana me mostrou que minha mãe social era bem da assanhada. Ainda bem.

Tuesday, June 24, 2008

O doce de cada um

Lucy me disse certo dia que preciso arranjar pessoas menos bregas. Sim, bregas - adjetivo usado por ela, talvez a mais romântica do grupo, para determinar o tipo de pessoa que eu, talvez a mais racional entre nós, costuma encontrar.

É fato que diminutivos, superlativos, palavras e frases de efeito que às vezes não dizem muita coisa e não expressam a realidade são a tônica de todo e qualquer relacionamento. Por isso, acho que me acostumei a não criticar mais. Se eu sou um extremo, me recusando ao máximo a chamar alguém de gatinho, gato, gatão, benzinho, mozão e afins, o resto do mundo pode fazer parte do outro pólo. E para o sul se relacionar com o norte, é só a gente entender as diferenças e brincar com elas.

Apesar de nenhuma das Jones ser um poço de doçuras (no sentido brega da coisa), há uma escala de meiguice entre as cinco, com a existência de algumas peculiaridades. A palavra "fofo", que começou com Lucy, hoje já é praticamente usada por todo grupo, mas cada uma no seu caso. Lucy diz que homens são fofos - isso, inclusive, já foi comentado por ela em algum texto. Mesma opinião tem Lina, que há tempos está sumida. Para Ariel, bebês são muito fofos. Já no meu caso, e onde talvez se inclua Lana, o adjetivo está mais ligado a cachorros ou a outros animais que andem em quatro patas em vez de duas.

Indo um pouco mais a fundo... a metade da minha laranja, a tampa da minha panela, minha vida, meu amor, o tijolinho que faltava na minha construção... tudo isso é clichê e, dependendo do seu humor no dia, ridículo. Entretanto, faz parte.

Uma professora de ginásio leu uma vez o texto "Todas as Cartas de Amor são Ridículas", de Álvaro de Campos. A tese é simples: todas as cartas de amor são ridículas. Se não fossem ridículas, não seriam cartas de amor. Ou seja, se você gosta da pessoa, até as coisas bregas podem virar bonitinhas. O problema é quando que essa mudança acontece.

Certo dia, depois de ouvir um "porque a gente se gosta" de alguém que mal tinha conhecido, fiquei pensando e - mais do que isso - perguntei se a pessoa realmente acreditava naquilo que estava dizendo ou se falava por falar mesmo. A resposta foi meio que uma mistura dos dois.

E daí, o que é pior: pecar por uma seriedade excessiva, esperando surgir o sentimento para depois expressá-lo e, assim, correr o risco de não se deixar envolver o suficiente, ou dizer coisas que você às vezes nem sente só porque acha que vale a pena apostar na relação e esperar que, com o tempo, tudo o que você está dizendo vire realidade?

Se eu ouvir 40 vezes a mesma música é bem possível que acabe gostando dela. Então, se uma pessoa falar mil vezes eu te amo, é provável que isso aconteça mesmo ou que, pelo menos, a gente acredite nisso. Porém, além da auto-afirmação, acredito que há outro elemento para essa chuva de elogios e frases bonitinhas que começam na adolescência e às vezes não terminam nunca: a vontade de agradar ao outro.

O que mais se ouve é que mulher gosta de homem romântico, apaixonado e que, por isso, ela costuma ser mais piegas. Uma cena clássica de começo de namoro (às vezes mesmo depois de um bom tempo de namoro) é a de Kate Hudson fazendo biquinho pra chamar o cara que ela mal acabou de conhecer de "my Benny Bear", em "Como perder um homem em 10 dias".

Segundo a lógica do filme, homens detestam esse excesso de doçuras, mas o que acontece na prática não é bem assim. Talvez por realmente acreditar que as mulheres gostam e precisam disso, os homens cada vez mais se acostumaram a usar essa melosidade em demasia para explicitar seus sentimentos. E nessa bola de neve, mulheres que não são tão adeptas a essa chuva de glicose acabam se acostumando com o tratamento e homens que não eram tão... açucarados acabam virando os próprios bonequinhos de glacê de Natal.

E, apesar desse texto parecer uma crítica ferrenha, confesso que não é tanto. Quando era mais nova, meu estômago já revirou várias e várias vezes toda vez que o moço em questão fazia biquinho ou voz de bebê pra falar comigo. Mas não tem jeito, há leis da natureza com as quais não podemos lutar. Com o passar dos dias, a bolacha fora do pacote vai ficar mais murcha e a gente, menos crítica.

Um exemplo é o 'querido' - também incorporado de dona Lucy Jones e contra o qual sempre lutei -, que deixou de ser irônico para virar sincero e já nem soa mais tão engraçado. Pessoas queridas são queridos e ponto. Nada de errado nisso. Afinal, vale lembrar que açúcar sozinho enjoa, mas é imprescindível pra se fazer um bom chocolate.

Wednesday, June 04, 2008

O Mr. Big de cada uma

Para muitas mulheres, ele era o cara. O genro que mamãe pediu a Deus. Culto, inteligente, divertido, bom caráter, maduro, bom de papo, enfim, uma ótima companhia.

Pra mim, pra você... infelizmente ele não era o cara pra ela. E ela sabia disso desde o começo, desde a primeira olhada. Sem estalos, sem suspiros, sem sonhos ... Os pensamentos em comum tornaram a convivência uma amizade. E de um beijo roubado, mas beeeem consentido, a amizade evoluiu.

Se não era pra dar certo? Se era pra dar? Nem os dois sabiam dizer. Já estavam há alguns meses juntos como amigos, amantes, companheiros e confidentes. Os sentimentos existiam, ou melhor, bravamente persistiam, resistiam, porque eram abafados por ambos os lados.

E tudo estaria comodamente perfeito se ela não se desse tanto ao direito de sonhar. De querer ao menos se deixar apaixonar e viver uma história, mesmo que não tivesse final feliz.

Ela decidiu quebrar a cômoda harmonia e falar. Discussão de relacionamento não foi, porque aquilo não era uma discussão, tampouco de um relacionamento. Mas se não era, nunca será. Ele entendeu e respeitou os sonhos de menina dela, mas já não estavam na mesma sintonia. Ele não queria se deixar envolver, nem criar raízes.

A decisão era de que a amizade era forte e verdadeira demais para se deixar de lado. De certa forma, um precisava do companheirismo do outro. Eles apagaram a porção amante e agora tentam tocar a vida. Como amigos...

Será que a amizade sobreviverá?

XOXO

Monday, May 12, 2008

25 anos

É muito provável que nunca tenhamos nada. Nada a mais do que tivemos até hoje. E o que seria isso? Alguns sorrisos, uma brincadeira, pernas e braços um pouco mais encostados do que precisariam.

É bem provável que os dois já tenham cogitado várias vezes passar um pouco disso, mas nunca aconteceu. "Você não dá mole nem pra quem deveria", me disse recentemente uma amiga. Verdade.

Nas vezes em que parecia que algo a mais pudesse acontecer, apareceu uma outra menina, um outro cara, alguém mais rápido e com menos a perder do que uma convivência amistosa. E a gente cede.

O álcool, da mesma forma que deixa mais solto, também contribui para tirar (a mim, principalmente) de circulação. No dia seguinte vem, além da dor de cabeça, aquele peso enorme na consciência. Ressaca moral, diria um amigo.

Lucy, provavelmente, ao chegar nessa parte do texto, deve estar pensando "amiga, tá bem? quem costuma surtar assim sou eu". Mas meus surtos são diferentes. Não são profundos, não falam de amor, não falam de paixão, mas, sim, de um medo imenso de decepcionar os outros. Medo de trazer qualquer coisa de ruim a pessoas tão queridas, de quebrar esse sentimento belo, a amizade e o carinho que tenho por tanta gente, de que gosto tanto.

Essa semana fechei minhas comemorações de aniversário. Sítio com as garotas, almoço com amigos, jantar com meus pais, festa com mais amigos e almoço em família (que também serviu para o dia das mães). Ficar mais velha é uma ótima desculpa para estar com quem a gente gosta e que gosta da gente.

Na hora de publicar algumas fotos, principalmente as de sexta, me deu um branco. Não sabia que legenda colocar. Por maior que fosse a criatividade, as frases pareceriam clichês, impossível de dizer mais do que eles sorrisos enormes, rostos queridos. Mas, agora, conversando com Lucy, me vieram alguns momentos que precisam ser relembrados.

- não deixe para fazer compras numa 5a-feira de feriado. Parece que ninguém tem mais nada pra fazer na vida do que ir ao supermercado
- ao comprar licor pra fazer drinks, esqueça os de morango. Se não tiver de melão ou laranja, melhor ficar só nas caipirinhas
- se for passar o feriado com três loiras, faz mais sentido pegar o menor dos quebra-cabeças
- por mais frio que faça, tenha sempre um biquini na mala
- às vezes, é melhor não perguntar o motivo das coisas. Ajuda na surpresa e não estimula sua amiga a contar mentiras
- boteco, bolo pulmann e meia dúzia de amigos são mais do que o suficiente prum festão
- família é família... fundamental
- o problema de pegar um balde de cerveja é que você tem que tomá-lo
- proseco não combina com cerveja, ainda mais com 9 cervejas e dois chopps
- Jones e amigas não precisam de funk pra descer até o chão, por mais que às vezes fosse melhor não fazê-lo
- se a platéia é animada, a banda pode estar dormindo que a gente nem liga
- bêbados são facilmente influenciáveis e com o tempo até assumem que estão realmente bêbados
- a festa foi boa de verdade quando a gente se liga que se divertiu com várias pessoas que você nem ao menos sabe o nome e poderiam ser identificadas somente como "amigo ou amiga do ciclano"
- bolo não serve só pra comer, mas... quando for escolher um pra jogar na coleguinha, pegue o sem marshmellow, por favor
- melhor do que levar uma máquina fotográfica é entregá-la às pessoas certas
- alguns amigos são tão amigos que te incentivam a ficar longe deles só porque querem o melhor pra você
- outros são tão amigos que continuam contigo mesmo quando nem você mais sabe que está com você mesma

Tuesday, April 01, 2008

Do you trust me?

Uma das qualidades mais importantes nas pessoas é a confiança. Se Jasmine não acreditasse em Aladin, eles nunca teriam dado aquele passeio fantástico de tapete pela noite de Bagdá. Se você não confia na pessoa com quem está, não se entrega, o relacionamento não é metade do que poderia ser. Mas é complicado se abrir, se entregar, ser sincero consigo mesmo e com os outros.

Inconscientemente já nos enganamos. A gente não tem tempo para parar e pensar nas decisões diárias. E nessas, você não sabe mais o que é verdade e o que você gostaria que fosse. Toma decisões baseadas no que acredita ser verdade e tudo vira uma bola de neve. De repente, vem aquele sentimento de vazio. O que eu estou fazendo com a minha vida é uma questão constante. Do que eu gosto de verdade, do que eu me acostumei a gostar ou do que eu nem gosto mais e ainda não percebi? Crises de identidade são mais normais do que deveriam.

Segundo alguns, elas acontecem porque as pessoas mentem tanto que acabam acreditando na mentira. Eu vou além. Acho que acreditar na mentira é uma necessidade. Se você a todo momento se lembrar que está mentindo, como conseguir viver? Como vai conseguir olhar no rosto das pessoas, se olhar no espelho? Por isso, às vezes é melhor acreditar na própria mentira. Assim não tem que enfrentar as conseqüências nem mesmo sua consciência.

Mas, como sempre, existe o outro lado. O meu problema é que mentir, omitir, dá muito trabalho. É preciso pensar antes de falar, lembrar da versão inventada, não cometer erros. Por isso, acho que o melhor é evitar a fadiga e a sujeira na aura e contar tudo de uma vez. O estresse é maior, mas não dura pra sempre.

Além do que, esse joguinho de meias-verdades é cansativo pros dois. Pro que mente e pro que escuta, que tem que ficar preocupado, tentando tirar a verdade o tempo todo.

Isso costuma acontecer de vez em quando, no dia-a-dia, mas é mil vezes acentuado em uma determinada época do ano. Inventada na França não sei em que século para pegar os que se atrapalhavam com a mudança de calendário (o ano novo deixou de ser comemorado na última semana de março para ficar como é hoje), a tradição do primeiro de abril consiste em contar mentiras para os amigos.

"Terminei o meu namoro", "voltei com meu ex", "seu pai sofreu um acidente", "vou te dar um cachorro de presente". Ah, quantas vezes eu já caí - e ainda caio - nessas brincadeiras no mínimo bobas (se bem que, pelo menos são bobas. Se me chamassem pruma festa de réveillon que não existe eu ia ficar muito, mas muito frustada).

Depois, fico na dúvida... é melhor acreditar de cara, mesmo correndo o risco de ouvir um irritante "pri-mei-ro-de-a-briiiil", ou me cansar fazendo todas as perguntas possíveis e imagináveis até ter certeza que é não verdade? Pra completar, sempre tem aqueles sem graça que resolvem fazer anúncios (verdadeiros) justo no dia da mentira, com o único intuito de tumultuar ainda mais a vida das pessoas.

Tanto desperdício de energia! É tão bom poder conversar com os outros, acreditando neles, sem a presença de um diabinho atrás da orelha lembrando o tempo todo o calendário...

Ano que vem acho que tomo um remédio e passo o primeiro de abril inteiro dormindo. Se bem que, eu, 24 horas dormindo, nem que não fosse dia da mentira alguém ia acreditar.

Tuesday, March 18, 2008

Abstinência

Substantivo feminino
1 - ato de abster-se, de privar-se do uso de alguma coisa
2 - privação de certos alimentos e bebidas em cumprimento de preceitos religiosos ou outros
3 - privação voluntária de prazeres e/ou bens materiais em busca do aprimoramento moral ou espiritual
4 - privação voluntária dos desejos sexuais, por exigências morais, espirituais ou religiosas
5 - privação, voluntária ou não, de substâncias tais como álcool, heroína ou qualquer outra droga de que se é dependente



Seja qual for o motivo ou as substâncias envolvidos, a abstinência é sempre um comportamento difícil.

Para se chegar ao ponto de prometer ficar um tempo sem determinada coisa é porque ela está nos fazendo tão mal (ou até mais) quanto está fazendo bem. Se fosse algo só ruim, ninguém precisaria se forçar a ficar sem. Eu posso ficar dois anos sem comer melancia que nem vou perceber (na verdade, acho que estou há dois anos sem comer melancia).

Ao contrário, vai me dizer que eu tenho que ficar uma semana sem comer chocolate, sair pra balada ou usar o msn, gtalk ou email no trabalho? Ô, dificuldade. Então, se a gente toma uma decisão dessas, é porque precisa. Promessas podem ser feitas para pedir, para agradecer ou simplesmente para o nosso próprio bem. Esse último é o caso de quando prometemos a nós mesmas que não vamos mais ligar pro ex, que não vamos comer besteira ou que não vamos beber. O meu recente caso de abstinência foi desse último tipo aí.

A história toda começou com um desafio pra mim mesma. Ressacas contínuas, engovs... passei mal duas vezes em uma semana. Não só por bebida, mas também por comida. Mas em todo caso, resolvi ficar até o carnaval sem beber. Até o carnaval? Não... tem feriado uma semana antes. Então ficaria até dia 25 de janeiro. "Dez dias só, lógico que eu consigo". Depois do quarto copo de cerveja lembrei que estava há três dias sem beber. "É... eu não consigo". E já que não consegui uma semana, ia ficar um mês. Aceitei o desafio, agora de um amigo, e fiquei exatamente 30 dias sem beber, contados a partir da quarta-feira de cinzas.

E pra brincadeira ficar só um pouco mais divertida, nesse meio tempo, o que mais houve foi gente atiçando. As pessoas davam risada ao ouvir que estava "há três dias e meio" sem beber. Mais ou menos como aqueles diabinhos de desenho, amigos que nunca me trouxeram uma cerveja na vida a todo momento chegavam com uma latinha na mão. Os que não bebiam, passaram a beber. E o que eu mais ouvia era "ah, pra que toda essa besteira, você não vai conseguir mesmo, melhor acabar com isso de uma vez".

De todos os amigos, o máximo de incentivo que recebi foi um "eu acho que você vai conseguir, mas porque acredito que a gente é capaz de conseguir qualquer coisa. A questão é que você não vai ganhar nada com isso. Ao contrário, só vai perder".

Assim como os que param de fumar e passam a sentir melhor os cheiros e sabores, mesmo com essas poucas semanas eu consegui ver a diferença. Por exemplo...

Em toda a minha vida, eu nunca fui tão chata quanto nesses 30 dias. Nem eu me agüentava. Fiquei ansiosa, estressada. E olha que arranjei várias formas de liberar endorfina. Comi chocolate, vivia na academia ou nos treinos de rugby, tomei sol.

Os refrigerantes perderam toda a graça, assim como os sucos. Tudo é muito doce. Por isso, passei a tomar coisas light, que antes não suportava, mas que pelo menos têm um fundinho de amargo. Mas mesmo eles são gasosos, não têm espuma, não são amarelos - é... Guaraná é, mas esse não conta.

O fato é que cerveja me faz relaxar. Eu nunca tinha reparado nisso até Lucy dizer no meio de uma conversa qualquer que não sei quem parecia comigo quando tomava uma cerveja, meio que apertava o botão de desliga. Ficava quietinha, sentadinha. E não tem coisa melhor do que passar o dia sentada, conversando, tranqüila, dando muita risada ao redor de um monte de amigos.

Na falta da loira - a bebida, não a amiga -, muito chocolate, o que dá uma sensação boa, mas me deixa ainda mais elétrica e engorda. Aliás, cerveja dá barriga, ok... mas muito mais fácil se livrar dela do que da celulite causada pelo refrigerante.

Os exercícios também não foram os mesmos. Depois de um tempo, percebi que o álcool interfere diretamente na resistência. Conseguia fazer muito mais coisas sem me cansar - e isso não é necessariamente bom. Por mais que meus músculos estejam cansados, eu ainda não. A perna - que eu achava que não tinha mais pra onde crescer - cresce, o braço cresce... não é à toa que esse monte de gente bombada não bebe. Fica ansioso e depois se mata na academia. Ah, se eles soubessem como ficam feios. Vai pro bar que é bem mais legal.

O pior de tudo é que nesse meio tempo não deixei de sair um final de semana. Daí, o melhor é água. Uma, duas. Mais do que isso o estômago não suporta. Cerveja é absorvida mais rápido, é ótima pra hidratar, cabe um monte, além do gosto ser inigualável. A garrinha long neck é perfeita pra segurar. A latinha tem todo o ritual de amassar e o copo de caipirinha tem canudinho pra ajudar a comer as frutas depois! Sem isso, a mão parece que perdeu sua função, o corpo todo perde o equilíbrio.

Essa foi a impressão dos primeiros dias. Depois, até que acostumei e à meia-noite e meia do dia 8 de março, tomei minha primeira cerveja depois de 30 dias. Meio gripada, mal senti o gosto, mas era um marco. No dia seguinte, começou meu curso de bartender, que incluiu uma degustação de destilados e compostos. Nem percebi a coincidência de datas quando marquei o curso. Parece que certas coisas estão predestinadas.

No final, não sei se concordo com aquele meu amigo, de que só perdi ficando um mês sem beber. No primeiro final de semana, a cerveja que marcou minha volta à bebida foi a única que tomei. Nos dias seguintes, nem uma balada open bar aproveitei em quantidade suficiente. Já no final de semana, fiquei bebinha e sóbria três vezes em menos de 24 horas. No fim, acho que a abstinência valeu pela análise. Percebi que não preciso da bebida. Estou com ela porque quero e só nos momentos em que quero. E, como tudo nessa vida, é bom lembrar que se pode cortar quando começa a nos fazer mal.

Tuesday, February 26, 2008

Um desafio à lady

O princípio da lei de Murphy diz que se alguma coisa tiver qualquer chance de dar errado, ela vai dar errado. E ela é tão implacável que alguns engraçadinhos passaram a chamá-la de Lady Murphy, pra comparar com o possível sadismo das mulheres. Jogos sexistas à parte, é fato que a lei de murphy está irremediavelmente ligada a uma palavra do gênero feminimo: ironia.

Ironia não é sarcasmo. Sarcasmo, segundo o dicionário, é uma ironia melhorada, grosseira, na verdade. Em um aspecto muito pequeno, você tira sarro da pessoa para mostrar o quanto a idéia apresentada não é boa, por exemplo. A ironia, por sua vez, tem um sentido muito mais amplo de oposição, como dizer alguma coisa com a intenção de fazer outra ou planejar algo que depois terá tido um final totalmente diferente - a base para a lei de murphy.

É por causa dessa tal lei que só tem chovido nos dias em que há treino e normalmente no final do dia, porque como já choveu no domingo inteiro, tem que fazer aqueeele sol na segunda-feira.

Também por isso que a gente esquece o guarda-chuva justo nesses dias, por isso que quanto mais atrasada a gente está, mais tem trânsito na cidade, e parece que quanto mais a gente amaldiçoa isso, pior fica. Para tudo isso poderíamos dizer: "irônico. não?"

Apesar do meu recente - e espero eu, temporário - mau humor, confesso que sou daquelas chatas que conseguem ver lado positivo em tudo. Ontem, por exemplo, havia treino e era meu rodízio. Peguei o do meu irmão emprestado. Sem nada de gasolina. E eu já estava muito atrasada, como aliás, em toda segunda-feira. Na verdade, dava pra chegar no trabalho, mas não pra ir até o treino. Tinha duas opções: ir correndo pro trabalho e colocar gasolina saindo do trabalho ou ou passar no posto agora e ficar ainda mais atrasada.

Segundo a tal de de Murphy, se fosse direto pro trabalho, não ia conseguir sair na hora e ia chegar mais tarde ainda no treino. Já se fosse pro posto antes, ia ter algum problema no trabalho quando eu chegasse e no fim eu ia conseguir ir embora a hora que quisesse, só pra ficar com raiva, já que eu não teria precisado tomar a bronca de mais cedo.

Analisando as duas hipóteses, me deu um estalo que achei fantástico. Resolvi que ia jogar com Murphy a meu favor. Se eu passasse no posto antes ia chegar mais tarde e sair mais cedo... então, por que a dúvida? Trabalharia menos e ainda ia pro treino na hora. Bronca, todo mundo leva. Achei tudo aquilo lindo. A tal lady era bem possível que existisse mesmo e não era uma mulher perversa, mas simplesmente incompreendida. Quem soubesse argumentar com ela, como eu sabia, só iria se dar bem.

Fui pro posto, com calma. Ao chegar no trabalho, nenhuma bomba nem bronca. O único post que precisaria publicar estava pronto e eu, felicíssima por ter conseguido jogar com a lei a meu favor. Fui almoçar tarde porque tinha chegado tarde e, portanto, sem fome. Até então, tudo perfeito, minha teoria se comprovava. A lei elevada à lei dá um resultado bom pra mim.

Porém, ao chegar do almoço, meu chefe já estava lá havia algum tempo. Ele não viu que horas saí e portanto podia pensar que estava a não sei quantas horas na rua. Às 18h, pouco mais de duas horas depois de eu ter voltado do almoço, descubro que minha cachorra passou mal. Fiquei na dúvida se ia ao treino ou se passava em casa, via como ela está e aproveitava pra ir na aula de dança. Às 20h (horário que começava o treino), meu chefe me ligava pra contar que perdeu todo o material que seria publicado. Espero até as 21h, nada. Vou pra casa. Perdi o treino. Pra chegar na aula, que começava às 21h30, teria que passar em casa primeiro, ou seja, perdi a aula.

Contando com a lei de Murphy, cheguei tarde pra sair cedo e ficar muito brava por ter chegado atrasada à toa, mas acabei voltando ainda mais tarde. Se tudo fosse segundo a tal lei, eu teria sido flagrada quando cheguei ao trabalho, mas em compensação isso aconteceu quando voltava do almoço. Numa situação normal, estando o post pronto, publicaria cedo e embora cedo iria. Pela lei de Murphy, alguma coisa ia dar errado e eu sairia tarde, depois de publicar. Na versão final, tudo deu tão errado que, apesar de ter ficado até as 21h, o material só foi publicado no dia seguinte.

No fim, a única coisa coerente é que eu realmente não precisava ter colocado gasolina antes de chegar ao trabalho, já que saí tão tarde que não tinha mais pressa pra nada. O resultado, então, mudou. A lei de murphy elevada à lei de murphy dá qualquer coisa esquisita e confusa, diferente do diferente, e que não é boa pra ninguém.

Monday, February 25, 2008

Pane no HD, lapso da memória

Lembro que quando estava no colégio me impressionei quando um menino tinha me tido que o computador dele tinha um gigabite de HD (o chamado disco rígido do computador), o que significa mil megabites, ou seja, um milhão de quilobites (kb), que nem ao menos é a menor unidade de medida da informação dos computadores - mas menos do que isso a gente nem conta, seria quase como centésimos de Real. A questão, voltando, é... meus Deus, pra que tudo isso? Eu tinha apenas algumas dezenas de megas e já me sentia uma pessoa mais do que feliz. Naquela época ainda não existia mp3, câmera digital era uma raridade, os jogos eram mais simples (lembro da sensação que era Full Throttle) e os computadores, por sua vez, não precisavam de tanto espaço.

Hoje, até o email tem um giga - dois, na verdade - e os equipamentos demandam cada vez mais recursos. Um amigo, pra comprar uma placa de vídeo realmente boa, resolveu primeiro comprar o game mais pesado que existe no mercado, para em seguida comprar a placa que o suportasse. Certeza de boa compra, por mais que - até então - ele não precisasse de tudo isso. Agora, viciou no joguinho, que a princípio ele nem queria.

O computador vira um companheiro e ganha a personalidade do dono. Acho lindo quando vou usar o micro de alguém e vejo os favoritos todos organizados, em pastas. A área de trabalho só com os itens que se tem uso constante. Meus documentos, minhas imagens, minhas músicas, tudo em perfeita ordem. Normalmente esse tipo de pessoa é organizado também longe da telinha.

Já... eu (pra não entrar naquela de "pessoas como eu", simplesmente pra dividir a culpa com desconhecidos) não posso ser considerada um primor de organização nem no meu quarto, que dirá com um monte de dados dentro de uma caixinha. De vez em quando eu faço uma limpa no meu armário. Dôo as roupas que não quero mais, reorganizo as gavetas, passo a guardar blusas enroladinhas e divididas por cor. Também de vez em quando eu limpo os links salvos, deleto arquivos desnecessários, organizo pastas de fotos, músicas e textos. Nenhuma das duas arrumações dura mais do que seis meses. Porém, meu guarda-roupa nunca explodiu de tanta coisa e nem meu computador ficou por muito tempo com arquivos inúteis. Isso, aliado ao fato de eu não ter a menor paciência pra baixar músicas e muito menos vídeos na internet, fez com que meus arquivos, mesmo acumulados ao longo dos anos não ocupassem um espaço muito grande.

Outra coisa que me ajudou a ser mais... desapegada - com os arquivos, e não com as roupas - é a minha vocação natural para tester. Segundo meu pai, que trabalha com desenvolvimento, pra ter certeza de que o programa está perfeito, é só dá-lo na minha mão. Se ele tiver qualquer defeito que seja eu descubro em menos de cinco minutos. Lógico que não do jeito convencional, mas dando pau no bicho mesmo. A minha adolescência, quando trabalhava com ele, foi repleta de telas pretas de DOS com um quadradinho em vermelho escrito "ERROR BASE" com um número em seguida. O problema é que eu não quebrava só os programas desenvolvidos por ele. De alguma forma, que até hoje eu não sei, já cheguei a ter mais de mil vírus no meu computador, que infectaram uma quantidade não sei quantas vezes maior de arquivos, o que prova que eu e as máquinas nunca demos muito certo. Era uma relação constante, intensa, mas cheia de altos e baixos. E eis que no meio do ano passado troquei meu computador antigo por um que já veio com o maldito windows vista basic, que é mais confuso, pesado, não me deixa abrir mais de três programas de uma vez e, pior de tudo, não é compatível com o joystick que uso pro emulador do super nintendo. Só que isso eu só fui descobrir quando estava tudo instalado.

Depois de seis meses enrolando, resolvi fazer o tal backup para colocar o windows xp, azulzinho, simples de mexer, compatível com meu jogo, uma graça. Na primeira tentativa, não havia espaço suficiente pra todos os arquivos no disco que me foi emprestado. Na segunda, eu mandei copiar, colar. Meia hora depois, desconecto e começa a formatação. Na verdade, eu estava tão preocupada em achar as milhares de coisas que precisaria em outros site para concluir o processo que nem pensei em conferir. Quando já estava tudo pronto, percebo que nenhum dos meus arquivos está onde deveria.

Mais de 6 gigas!!! Sim, pouco em comparação ao que a maioria das pessoas tem, mas eram os meus seis gigas, fotos, textos, músicas. O melhor de tudo que já passou pelo meu login e que sobreviveu a inúmeras seleções ao longo dos anos. Algumas coisas estavam lá desde a época do colegial. Uma década de memórias perdidas em apenas alguns minutos. Como tudo já havia sido reinstalado, não havia nem mesmo a possibilidade de recuperar os dados. Fiquei desolada.

Tinha coisa importante?

Não sabia o que responder. Ah, depende... o que é importante? Tinham meus textos, mas a maioria foi publicada também na internet. Tinham fotos, mas algumas eu posso conseguir com amigos, com o resto da família. Eu mesma, faz tempo que não tiro... as músicas são irrelevantes... alguns arquivos de cursos, mas isso ok... talvez nunca fosse olhar de novo mesmo. Não sei. É tanta coisa e ao mesmo tempo é nada. É currículo, é... não sei - da última vez que tive problema desses jurei que nunca mais ia usar outlook na vida. Tinha perdido emails importantíssimos, muito mais porque eu gostava deles do que porque era realmente importantes - Realmente não sei. Melhor não pensar... depois eu vejo isso.

De repente, um grito no outro canto da casa. Por sorte, o primeiro backup, feito em agosto, quando troquei de computador, continuava no tal hd. Meu pai, mais preocupado do que eu, talvez pensando nos não sei quantos mil gigas que ele não pode perder de jeito algum, se compadeceu da filha avoada e estava procurando. Até que achou. Em vez de seis gigas perdidos, agora era apenas um e meio.

Voltei a pensar... o que é esse um e meio? O que é que eu posso ter feito em seis meses? Fotos. Do Natal talvez meu irmão tenha. Se não tiver, minha tia tem e não eram fotos tão importantes. Foi o primeiro sem meu avô, mas isso não é coisa de se lembrar. Se ainda fosse o último com ele, talvez. As de ano novo e carnaval os outros têm cópia, posso pegar de volta. O que mais eu fiz nesses últimos seis meses? Um bilhão e meio de bites que podem ser tanta coisa, mas que também podem não ser nada. É possível que esta história estivesse contada em pequenos fascículos, dentro do HD. Ele, se foi, a memória se deteriora. A minha, não a do computador. Então, como eu não lembro, melhor acreditar que não era nada.

Wednesday, February 20, 2008

A tal da TPM

Enquanto comia aquela mistura estranha - gelatina de uva, leite condensado e sucrilhos - só conseguia pensar "meu deus, mulher... coitado do pai do teu filho. Se em dias relativamente normais você já é assim, imagina quando tiver realmente com desequilíbrio hormonal". Mas a dor na consciência não durava muito, não. Por mais incrível que pareça, aquilo era bom e ajudava em cheio na ansiedade causada pela tal TPM. Pelo menos, era nisso que eu acreditava.

O processo por trás dessas três letrinhas é simples. O corpo da mulher tem como intuito básico a reprodução. Por isso, nos primeiros 14 dias ele direciona grande parte dos seus esforços para deixar a pele, o cabelo, tudo mais bonito. Nesse período é dever da criatura em questão usar desses artifícios para arranjar alguém que a fecunde. Já nos 14 dias seguintes, a preocupação é com o possível feto. No final dos 28, o organismo tira a prova se sua dona teve ou não a capacidade de engravidar e, em caso negativo, joga tudo o que não foi usado fora para começar de novo.

A TPM inicia no instante em que o nosso corpo se preocupa mais com a criança que não existe do que com nós mesmas, mas normalmente só é percebida nos últimos dias, quando o déficit de hormônios está no seu maior nível. É nessa hora que a gente sente aquele vazio no peito, uma vontade fazer alguma coisa que nem mesmo sabemos o quê. É como se faltasse alguma coisa.

No fundo, falta. Faltam hormônios, mas a aparência é de que falta atenção, sentimento, reconhecimento, carinho e até mesmo um objetivo na vida. Basta qualquer fato mais relevante - como o fim do relacionamento entre os mocinhos da novela ou o nascimento de um jacaré, exibido no National Geographic - para que o olho se encha de lágrimas. A gente pensa "tadinhos" ou "ah, que lindo"! Mas só pensa, porque a garganta está travada demais para emitir qualquer som.

Por outro lado, comentários até mesmo sutis de outras pessoas significam agressões sem tamanho. Em resposta, tem mulher que chora, tem mulher que explode. E como explode. Há algum tempo, a TPM deixou de ser um mito. Mulheres que cometeram crimes passionais já tiveram a pena reduzida ao provarem que estavam nesse período complicado.

No trabalho, a sensibilidade tanto pode ser um fato positivo quanto negativo, já que, por conta dela, a mulher tende a ser mais instável. Regras de beleza e boa forma ajudam nessa tendência de ficarmos cada vez mais frias, racionais. Todos os dias há aquela preocupação em manter o peso, se controlar emocionalmente, ser profissional, não dar escândalos por besteira. Enfim... esquecer todo o nosso lado "menininha". Até que, por apenas uma semana, menos até, a gente se dá o direto de surtar, chorar, gritar.

Beber muita água, fazer exercícios, tudo isso ajuda, mas com toda certeza a melhor forma de diminuir os sintomas é se matar de tanto comer chocolate, sorvete, gelatina com leite condensado, manga com doce de leite - coisas que só fazem sentido em picos de ansiedade. O vazio existencial é curado com milhares de calorias.

Se é sempre a falta de hormônios ou se já virou costume, não importa. A questão é que a TPM se tornou a chance do mundo feminino se libertar daquele monte de regras que nos impomos. É o nosso corpo que arranjou uma desculpa pra gente ser mais humana.

Friday, February 15, 2008

Pau-a-pique e pé-de-barro

O carnaval já passou, mas as lembranças ficam. Fui acampar no interior mineiro. Ok, eu sei. Acampar no meio do mato, sem energia elétrica... Tudo isso soa meio estranho pra quem me conhece. Mas devia isso para uma pessoa muito querida e, apesar choque cultural, sobraram histórias pra contar. E a cachoeira era maravilhosa. Então valeu à pena!
A balada era uma casa de pau-a-pique no meio do nada. Pra chegar lá, do camping onde estávamos, precisava pegar uma estrada de terra mal iluminada (nos trechos em que havia alguma iluminação).
Pra completar o clima roots, ela estava infestada de hippies e nativos, e tocava forró.
A primeira vez me causou tantos traumas que, no caminho de volta, pela tal estradinha de terra com mais duas meninas, prometi pra mim mesma que não voltaria lá.
Mas como não podemos botar a mão no fogo por nada que prometemos no carnaval, acabei voltando. Dois dias mais tarde em um Gol quadradinho com mais oito pessoas!!!
Fui convencida pelos primos da minha amiga que haviam recém chegado. Imaginei que, em uma turma grande, acabaria me distraindo.
Pasmem! Havia uma cantora de MPB, parece que sobrinha da dona do local, com uma bela voz. Dei o braço a torcer, dancei e me diverti. Mas desanimei quando acabou o show e ela anunciou que em breve a banda de forró tomaria seu lugar.
Pois mal havia sentado e a namorada de um dos primos veio me chamar, porque um amigo seu queria me conhecer. Na hora não sei se fiquei mais pasma de pensar que alguém realmente acreditava que eu me levantaria de lá pra ir até ele, e não o contrário, ou se era porque fiquei imaginando quem ainda se prestava ao serviço de pedir pra alguém “agitar uma mina”.
Não levantei. Algumas músicas mais tarde ele apareceu. Um cidadão grande, de uns 30 e poucos anos e da largura de um armário. Tava meio grandinho pra pedir pra agitarem qualquer coisa, né? Pois bem. Estava sentada ao lado de uma caixa de som e ele queria que fosse conversar com ele do lado de fora da casinha.
Apesar de ter dito que não levantaria, ele insistiu dizendo que eu não o ouviria bem. Cansei! “Com todo respeito, não levanto daqui nem pra dançar com meus amigos, não vejo porque levantaria pra conversar com você. Se quiser, converso aqui, estou te ouvindo bem”. Ele se irritou, porque depois que falei isso, levantou e acompanhado de um gesto agressivo com os braços gritou que eu ficasse lá então. Hehe, mas não era exatamente isso que eu queria? Na hora pensei que o cara fosse me bater e que de longe esse seria o episódio mais bizarro da noite. Ledo engano!
Já no fim da balado um cidadão nativo (nascido naquele fim de mundo, onde as pessoas ainda devem se assustar com antena parabólica), trinta e poucos anos, cabelos enroladinhos e regatiiiinha, começou a me olhar. Percebi e, como sempre, ignorei!
Pouco tempo depois, seu amigo que era uma espécie de César Cielo depois da febre amarela, e que olhava pra mulheres da maneira mais nojenta que já vi na vida, de longe começou a fazer gestos com os dedos indicadores de que eu e seu amigo deveríamos ficar juntos. Na hora fiz que não, assim nem teria o trabalho de dispensá-lo. Que nada, o cara veio me tirar pra dançar forró. Agradeci mas disse que não dançava. Só que ele insistiu.
“ Hoje é seu dia de sorte, porque eu sou professor de forró”. O pior, falava isso com orgulho. Como não tinha/tenho interesse em aprender, disse que não queria. E ele já profetizou o que seria minha noite. “Não acha que desisti. Daqui a pouco volto”.
Pois voltou. E repeti que não queria. E essa história se repetiu por várias vezes durante a noite, intercalada com sermões sobre eu não querer fazer amigos, e sobre eu não poder ir para não sei onde, no Espírito Santo, porque lá só tocava forró. Valeu a dica, pra eu nunca por os pés por lá mesmo!
O amigo, o tal que parecia uma cópia mal feita do César Cielo, começou a dizer que ele deveria tentar falar em Mandarim, já que “ a japonesinha não estava entendendo o que ele tava falando”. Ai ai ai.
“Ô pé-de-barro do caramba, Mandarim se fala na China. E a China e Japão são dois países diferentes. Incrível, né?”, respondi, com o ar mais prepotente que consegui encontrar.
Meu humor, que já não estava lá em seus melhores dias, acabou de acabar com a demonstração de ignorância capiau.
E o cidadão pareceu gostar da brincadeira de me irritar, porque não parou.
Quando voltou a perturbar, decidi perguntar quantos anos tinha. Ele se assustou e disse que não fazia diferença. “Ué, você não queria conversar comigo? To tentando conversar com você”, disse ironicamente.
“Tenho , 35, e você?”
“Tenho 12 a menos”
“Mas você quer que eu faça conta?”
Aaaaaai, nem preciso falar que a conversa encerrou e fiquei com vontade de dizer que, com aquela idade, ele já devia, no mínimo, ter aprendido a chegar em uma mulher.
Pouco tempo depois, levantei pra comprar uma coca-cola e ele, literalmente, pulou na minha frente e segurou meu braço. Fui seca:
“Tira a pata! Amigão, desencosta agora”.
“Calma, só quero dançar com você”.
“Olha aqui, não to entendendo porque você tá me enchendo o saco, mas se você quiser me irritar, vai ser pior pra você. Quem ta pagando o mico na frente dos amigos, de ficar tomando bota da mesma pessoa a noite inteira é você”, disse e passei.
Mas ele não desistiu. Ao mesmo tempo em que ouvia seus argumentos pela enésima vez, outro cidadão se prestou dizer que seu amigo queria me beijar. Foi a gota d´água! Desabafei irônica:
“Ah, que maravilha, vamos formar uma fila logo pra beijar a menina que veio de São Paulo, vamos pegar senha. Afinal de contas, achei minha boca no lixo mesmo, sabe? Então, todos os nativos, todo mundo que quiser me beijar, fiquem à vontade. Francamente, é assim que funciona nesse fim de mundo?”
Metade da balada caiu na risada e a outra metade ficou com os olhos arregalados. Acho que ninguém esperava essa reação. Que ótimo, afinal de contas, ia acabar a chateação. Que nada!
Já no finalzinho da balada, ele sentou em um banquinho atrás do meu e começou a roçar o pé no meu. Que nojo! Na hora chamei um dos primos, que já nem sabia mais onde estava, e abracei-o.
O cidadão pegou o bando e saiu do lugar. Por um tempo eles ficaram parados na entrada, e eu temi que estivessem esperando pra me bater. Do jeito que os primos da minha amiga estavam, eles não conseguiriam levantar um dedo pra me defender, ia ter de me virar sozinha. Depois de alguns momentos de tensão, o carro chegou e eles foram embora. Fim de noite, carona no bom e velho Gol quadrado, que estranhamente parecia mais confortável. Voltei pra barraca cansada, irritada, mas rindo do que havia acontecido e imaginando o que seria do resto do meu feriado.

Thursday, January 31, 2008

Quando o sentimento acaba

Incrível como um rosto que antes era tão querido hoje representa tão pouco. Aquele brilho no olho que parece querer entrar dentro de você, que te conhece tão bem, não recebe mais reciprocidade. Ao contrário, parece uma invasão, causa desconforto.

O toque meio sem jeito, as palavras de carinho, balbuciadas quase como pedindo licença - já que não há mais intimidade pra isso - continuam ali... no fundo, são os mesmos, poderiam ser confundidos com aqueles do começo da relação. Mas não. Alguma coisa dentro de você mudou. E o que antes provocava risos, alegria, hoje não é mais do que uma situação esquisita.

No lugar daqueles sentimentos há somente um vazio. Você lembra de tudo o que sentia, mas não consegue encontrar nem ao menos resquícios. O pouco que sobrou, se é que sobrou alguma coisa, traz um sentimento amargo, tal como aquele gostinho de chocolate que ficou horas na boca e em nada se parece mais com o doce original.

Ver a pessoa antes tão querida e não sentir mais vontade de pular em seus braços, trocar carinhos. Sentir até mesmo repulsa em imaginar essas cenas provoca um turbilhão de sentimentos diferentes dentro da gente, uma massa podre que queria arrancar de dentro do peito, uma angústia.

Como tudo aquilo pode ter sumido? Será que não foi de verdade? Duvidamos de nós mesmos, dos sentimentos que dizíamos ter pelo outro. Falsidade? Confusão? Coisa de momento.

As flores, antes favoritas, ganharam um significado ruim depois de terem ilustrado tantas voltas pós-briga. As orquídeas nunca mais serão as mesmas.

Talvez não seja mesmo culpa de ninguém. Simplesmente não deu. Mesmo assim, a falta desse sentimento nos deixa tristes. É como se gostar de alguém nos fizesse pessoas melhores. Por isso a dificuldade e a tristeza ao percebermos que realmente acabou.

Wednesday, January 30, 2008

Liberdade demais enlouquece

Dizem que a melhor (ou talvez única) forma de segurar um elefante é acostumá-lo desde pequeno às correntes. Se você mostra ao filhote que não adianta, que, por mais que ele tente, não vai conseguir fugir, ele uma hora cansa. O bicho cresce, mas não percebe que já pode estourar aquilo. Por maior que ele seja, não vai ser preciso aumentar os ferros proporcionalmente.

Em muitas famílias, a menina, principalmente, se comporta como um elefante. Quando pequena pede mil vezes pra sair, voltar às 5h, 6h da manhã, dormir fora de casa. Algumas estão tão acostumadas com a rédia curta dos pais que, com o tempo, acabam evitando pedir para não criar desentendimentos. "Eu sei que eles não vão deixar, então pra que vou arranjar briga à toa?".

Mulher e ainda por cima filha, neta mais velha, ou eu acostumava ou não saía. Acho que não preciso dizer o que aconteceu. O simples tema desse blog já mostra o caminho escolhido. Estourei as correntes, mas continuava com o resto dela amarrado na perna, como se fosse uma ligação simbólica com o circo.

No começo, minhas saídas eram só shows, durante ou no final da semana. Depois, baladas - todo final de semana, já que morava ali do lado, mas só de final de semana. A fama de baladeira se espalhou e os convites se multiplicaram. Amigas que não têm com quem sair já ligavam e os grupos foram aumentando. Ao entrar na faculdade, começar a trabalhar, o mundo social aumentou e teve semanas em que saí literalmente de terça a domingo.

Mas daí chega uma hora que cansa, as baladas sempre iguais, e chegou a fase de dar as próprias festas - pequenas reuniões em casa que chegaram a ter mais de 20 pessoas num apartamento que nem de longe era grande o suficiente pra isso. Essas comemorações duraram até meus pais, preocupados com a freqüência de uma ou outra pessoa mais estranha, darem um basta na brincadeira. Sim, porque em nenhum momento a relação pais-baladas foi tranqüila. Toda saída durante a semana na minha adolescência - e pós adolescência - resultava em um sermão atrás do outro, sob os argumentos de que não iria agüentar, precisava dormir, descansar, que desse jeito ia me matar. "Você sabe que a cada dia que você passa sem dormir você perde um ano da sua vida?"

Por mais velha que ficasse, as broncas continuavam. Ao mudar de apartamento, mais longe do trabalho e do roteiro de bares do que o outro, passei menos tempo em casa, o que foi motivo para diversas chantagens emocionais. "Você não gostou dessa nova casa, né?", "Ah, eu tenho que tirar essa parede vermelha do seu quarto. Não é à toa que você não pára quieta... esse vermelho deve emitir algumas vibrações diferentes"

Pra me fazer passar em casa depois do trabalho antes de sair de novo, minha mãe resolveu que não ia mais dar comida pra minha cachorra à noite. Se não quisesse que o bichinho passasse fome, que voltasse pra casa. O clima melhora e piora dependendo talvez dos astros, quem sabe do humor dos meus pais, da cotação do dólar... não dá pra explicar, mas conforme o mês está mais fácil ou mais difícil lidar com isso, como já devem ter percebidos todos que têm pais ditos normais.

Mas acontece que, pouco a pouco, eles resolveram ter uma qualidade de vida melhor. Barzinhos no final da tarde, as viagens nos finais de semana ficaram mais freqüentes e, graças a horários cada vez mais flexíveis, começaram as viagens também durante a semana. Foi com grande surpresa que, ao voltar pra casa um dia desses, ouvi da minha mãe, brava porque já passava das duas da manhã, que ela não iria para a praia no dia seguinte, mas pro sítio e que lá ia ficar pelas próximas duas semanas, mas que era lógico que eu não sabia disso porque não parava em casa. Ela, meu pai, minha avó (que passava férias com a gente) e minha cachorra. Todos fora. Em casa, só eu, meu irmão e os peixes do aquário.

Acho que poucas vezes fiquei tão perdida na vida. Não precisava mais voltar pra casa pra nada. Pros peixes era fácil de dar comida. Eu jogava aquelas plantinhas de manhã e de madrugada, alguém à noite e, se peixe realmente não dorme, o de madrugada não precisava ser sempre no mesmo horário. Como resultado, em nenhum dia voltei direto. Já que nem eu nem meu irmão cozinhamos, jantar era uma desculpa pra ir pro bar. Depois de um tempo, não agüentava mais comer sanduíche. Já no final de semana (nos dois finais de semana) São Pedro afogou meus planos e fez chover o dia todo. Acabei saindo só à noite. Meu irmão, se, ao contrário de mim, já não tinha muitas regras ("eu não tenho medo que teu irmão saia porque ele tem medo, já você é meio louca, vai pra tudo quanto é canto") ficou ainda pior. Mal nos vimos durante esse tempo todo.

Quinta-feira, véspera de feriado, os peixes já quase mortos e dentro de um aquário imundo de tanta comida, começou a melhor das maratonas. A idéia era primeiro ver um amigo tocar, depois encontrar meu grupo de faculdade no outro lado da cidade e, por fim, decidir se ia pra praia ou não. Por causa do trabalho, não consegui ver o show. Depois de usar a internet do McDonald's, fui direto pro bar, ver um povo que não encontrava há dois anos. Era meu dia de voltar a beber, então uma caipirinha e uma cerveja em comemoração. Chegando em casa, às 4h, arrumo a mala, durmo 1h30 e sigo pra encontrar Lucy.

Dois dias na praia, com aventuras dignas de Jones, e voltamos domingo cedo. O tempo bom que estava no litoral não tinha chegado a São Paulo, mas eu só descobri isso quando faltava meia hora pra alcançar a marginal. Meio deprimida de pensar em outro dia dentro de casa, vejo uma plaquinha que praticamente brilhava "Rio de Janeiro / Taubaté". Tava cedo ainda... 10h30 da manhã. Pegar a estrada rumo ao sítio significava encarar mais uma hora e meia de estrada (exatamente o que tinha rodado até então). Olhei mais uma vez pro céu e quando vi, estava no caminho oposto, sentido interior. Se meus pais tivessem em casa, provavelmente brigariam de eu pegar a estrada de novo, enfrentar o trânsito de volta de feriado à noite, cansada, ir e voltar no mesmo dia, dirigir mais de 6 horas no total. Mas a liberdade me deu saudades. Fui pro interior só pra ouvir "ah, só você pra fazer isso... mas, que bom que veio". No fim, o circo, as correntes viciam.

Sunday, January 20, 2008

A vida como num conto de fadas

"A gente tá saindo todo dia, há mais de uma semana e, por mais que eu peça, ele ainda não pegou meu telefone e nem me deu o dele";

"Ele sempre fala que quer marcar alguma coisa, mas nunca passa disso, ou, quando liga, é em cima da hora. Que que ele acha? Que eu tenho que ficar com a agenda aberta, esperando?";

"Se é pra ficar com outras na minha frente, por que continua me dando esperanças?";

"Eu juro que tento, mas não consigo ficar sem ligar. Daí a gente sai, fica junto e no dia seguinte ele volta a ignorar minhas ligações";

"Ele liga, manda mensagem, diz que é de mim que ele gosta, mas não larga a namorada de jeito nenhum";

"Sim, ele é um idiota, mas o que posso fazer? Eu gosto dele";

"Eu sei que é errado, que vou me machucar depois, mas no momento ele tá me fazendo bem"

Essas são só algumas críticas. Daria pra fazer um post inteiro só com citações recentes, mas daí não teria fim mas só lamentos.

Segundo a dona da última frase, não existem mais príncipes encantados hoje em dia. Segundo uma outra amiga, o príncipe encantado é simplesmente "alguém que me trate com respeito e que goste de mim".

Péssimo pensar que todos os sonhos de infância com o cara ideal tenham se restringido a isso. Pior ainda é pensar que nem mesmo alguém que goste da gente e que nos respeite não está tão fácil de encontrar.

Pelo menos uma vez eu queria ouvir: "ah, conheci um cara novo. Tão legal. Educado. Solteiro. Não espera até a última hora pra me convidar pra sair. Me dá segurança. Começamos a ficar há pouco tempo e já conheci alguns de seus amigos".

Dessa forma, poderia ficar só feliz por minhas amigas. Em vez disso, cada história desperta uma nova rodada de preocupação e, às vezes, broncas. Se bem que mesmo essas têm ficado menos constantes. Ser cabeça dura não é um privilégio das Jones. O mulherio em geral costuma adorar dar com a cabeça na parede. Então, em vez de falar com as portas, a gente acaba desistindo e simplesmente fica perto, esperando pra ajudar quando a casa cair.

E é engraçado como a gente se sujeita a isso. Um dia uma pessoa me perguntou qual era o meu problema. "Por que (mil elogios depois), você deve ter algum problema para estar solteira". Não soube responder, lógico, e, algum tempo depois, um amigo me disse que deveria ter respondido "o problema são os homens, não eu". Adorei a resposta, mas não acredito que seja verdade. Pensando bem, o problema acho que está nas nossas escolhas. O tipo de pessoa de quem gostamos, os valores que mais prezamos, além da aceitação do tipo de comportamento acima.

Pegar um cachorrinho e depois descobrir que ele tá doente é um risco, não tem muito o que fazer. Agora, se você vê que o bicho tá com o pêlo todo falhado, comido e mesmo assim resolve ficar com ele, não do quê reclamar. Essa atitude até poderia ser chamada de idiotice, mas acontece que "ah, ele é tão bonitinho" que acaba valendo a pena arranjar a tal sarna pra se coçar. E quem já não fez isso?

Mesmo que seja com a pretensa desculpa de não se envolver, para deixarmos de ficar sozinhas, permanecer com quem gostamos ou mesmo esquecer alguém tão ruim quanto (ou até mesmo pior) a gente aceita sair com tipos não tão legais. Além do que, mulher tem esse costume horrível de achar que vai consertar os homens (se é que existe alguma coisa a ser consertado).

Sempre me recusei a concordar que "homem é tudo filho da puta", mas confesso que ultimamente tem sido cada vez mais difícil defender a raça. Não que eles não tenham culpa. Têm sim, e muita. Mas a gente também não pode se eximir da nossa. Acontece, que se ele é galinha, é porque tem mulher que deixa. Se ele chifra, alguém foi conivente. Se você hoje é a outra, amanhã pode ser a chifrada. Às vezes, mesmo quando a gente parece que encontra alguém, aparece uma bruxa, tão perversa quanto a medusa do mar, espreitando para tentar roubar o príncipe alheio.

Mesmo sem perceber, a gente de vez em quando se torna a vilã de uma história. Depois, reclama que homem não presta, mas a verdade é que nós contribuimos pra esse tipo de comportamento, pro fim dos contos de fada.

Thursday, January 10, 2008

This is so last year

Sabe aquele poema que postei recentemente (post "Tá na hora de escolher a calcinha"), de Carlos Drummond, que fala sobre a renovação, virada de ano e tal? Acho que deveria tê-lo guardado para colocar no começo do ano.

A gente costuma terminar dezembro com mil planos, faz inúmeras promessas, mas confesso que tinha me esquecido de uma parte: é frustrante chegar dia 2 e perceber que tudo continua a mesma coisa. Apesar de estar com um ânimo novo pra mudar os rumos, a realidade continua a mesma e dá uma preguiiiça pensar no trabalho que vai dar pra alterar tudo isso.

Lucy me disse recentemente ter ouvido de uma amiga que ela estava numa fase única, em que pode levar a vida dela pra onde quisesse, começar do zero, sem amarras. Ela percebeu que é verdade e talvez tenha ganhado um pouco de ânimo com a constatação. Um ano inteiro em branco a ser escrito. Já no meu caso, é horrível chegar em São Paulo ainda com o cabelo duro de Cidra derramada, depois de 19 horas de viagem, e perceber que o trabalho continuava o mesmo, apesar de um ambiente diferenciado, que as pendências de 2007 (pendências, também segundo Lucy, é uma palavra que faz a gente se sentir muito adulto) também continuavam as mesmas. Os problemas que a gente escuta, as conversinhas, os casos mal resolvidos. Todos esses foram levados para 2008, tais como cachorros que levam suas pulgas consigo quando mudam de casa.

Esse ano, como já contei pra muita gente, não fiz promessa alguma, pois assim não preciso cumprir. Aliás, depois daquele show de "eu conheço simpatias" dado em posts recentes, me rebelei, mesmo que inconscientemente, e a única simpatia que fiz foi pular 9 ondinhas (sete pra mim e mais duas, que me atrapalhei na hora de fazer os pedidos e cedi para um amigo que preferiu não molhar os pés). Mas essa história, junto com algumas outras aventuras de Patty e Lina no ano novo, fica pra depois.

Se você faz uma promessa, deve ter determinação para levá-la ao fim, senão não tem por que prometer. Determinação, pra mim, pode ser tanto uma virtude quanto um vício. E a minha, de tão forte, fica bem nesse meio termo. Quando decido que vou fazer alguma coisa, não páro até conseguir. Bato a cabeça no muro quantas vezes forem necessárias, até o concreto cair ou, por um motivo qualquer, eu achar que não vale mais a pena. Normalmente, esse motivo é o tempo. Se demorou muito pra dar certo, perde a graça. Um exemplo são os exercícios da academia (que recomecei). O pior deles é a esteira. Não tem fim! Você não vê um fim... correr tem todo aquele charme de ser um esporte que tá na modinha, as pessoas vão a parques uniformizadas, mas... você tá correndo por quê? A pergunta é tão sem resposta que virou slogan do Nike 10. Mas precisa, eu corro. No começo, até acho divertido. Depois, canso e quando não vejo mais sentido, páro e desisto.

E mesmo que hoje não me arrependa, confesso que fiquei um pouco frustrada quando desisti de alguns dos meus planos feitos no ano passado. São coisas que perderam o sentido, importância, ou que simplesmente foram preteridas por algo novo, mais interessante, que mudou o rumo das coisas. Lucy, por sinal, (amiga, essa é a terceira vez que te cito nesse texto, acho que você tá fazendo mais falta do que imaginava rs) costuma dizer que toda escolha implica em uma perda. Frase dura, mas real. E para não ter que desistir de nada neste ano, me frustrar de novo, em vez das tais promessas, fiz desejos bem genéricos. Sete desejos para sete ondas. Mas daí também vem a escolha. O que você deseja para esse ano? Mudar ou continuar a mesma coisa? Eu não tinha percebido até descer daquele ônibus no dia 2, ainda de shorts e uma quase frente única - "quase uma Charlie's Angel", me comparou Lina, já que os trajes e a pele morena em nada combinavam com o dia frio que fazia aqui - mas não fazer planos é decidir que está bom como estava antes e que assim vai continuar.

No dia seguinte, conversando com um amigo querido, que disse não estar se sentindo em 2008, que tá tudo muito igual ainda, notei que a minha situação estava a mesma e que não tinha mudanças em vista. Simplesmente porque tinha só desejos. Muitos desejos, alguns até contraditórios.

No Natal, algumas mães têm o costume de fazer os filhos darem os brinquedos parados, já que ganharam novos. Senão, o armário fica cheio e não se aproveita nem um nem outro. Acho que é essa a idéia. Na hora de fazer novos desejos, na praia, esqueci de jogar alguns fora. Antigos se confundiam com novos e tudo aquilo só trazia uma frase para minha cabeça: this is so last year. Por fim, vieram algumas ações de ano novo e, consequentemente, desejos antigos foram jogados fora ou, pelo menos, encaixotados lá no fundo do sótão, de onde, quem sabe, um dia voltem, quem sabe, não.

Thursday, December 20, 2007

Que animal você quer ser em 2008?

Teste rápido

Pense em um animal. Agora, dê três características dele.

Faça isso mais uma vez, com outro bicho.

Agora, de novo.

Pronto?

(Aviso: se você é daqueles que gosta de testes de personalidade, realmente faça isso antes de continuar a ler, não toma muito tempo e daqui a duas frases o jogo perde totalmente a graça)


......

Segundo esse teste que fiz uma vez, os três animais representam, juntamente com suas qualidades e defeitos, como você se vê, como os outros te vêem e como você gostaria de ser.

Infelizmente depois que você faz a primeira vez e sabe a resposta é meio complicado fazer de novo. Quando acabar esse texto provavelmente vou refazer o meu, respondido há cerca de uns dez anos. O problema é que essa coisa do "quem você é" e afins fica no inconsciente e pode influenciar a resposta. Se você também faz o tipo meio confuso e já esqueceu a ordem do que significa cada um dos animais, pensar nisso pode fazer uma salada ainda maior. Por isso, mesmo que tenha decidido fazer só agora, abstraia as respostas.

Quanto mais diferentes forem as características usadas no primeiro e no segundo exemplo, mais legal a idéia. Isso só mostra que ninguém pode falar "eu sou...". A gente acha que é. Afinal, quem está mais certo sobre a sua personalidade: você mesmo ou os outros, que te vêem de fora, observam suas expressões, seus gestos mas não têm a menor idéia dos argumentos que permeiam cada uma de suas decisões?

Os textos desse blog refletem muito isso. Não é incomum uma Jones mandar pra outra os links e perguntar "o que você acha? Parece que estou muito...?" e daí o adjetivo varia de Jones para Jones. Lucy normalmente se preocupa em não parecer carente, deprimida, já que sua ironia nem sempre é evidente. Ariel, apesar da fama de durona, se apresenta como a pessoa mais romântica e apaixonada do mundo. Já eu constantemente pareço insensível. Talvez seja difícil pra quem só conhece uma faceta das Jones admitir isso, mas Lucy é muito forte, Ariel é super carinhosa, eu tenho meus momentos de fossa, Lana tem um lado sério e Lina é racional. Escrever o "Cuidado com seus desejos", por exemplo, foi uma tentativa de contraponto na minha seqüência de posts a la Sex and the City e, assim, amenizar esta imagem.

Por falar na série, tem outro teste que só comprova a teoria. "Quem é você em Sex and The City?" diz que sou Carrie e que meu lado cool disfarça minha insegurança. Verdade? Talvez. Mas é engraçado essa diferença de visão que temos da mesma pessoa e, principalmente, a visão que nós temos de nós mesmas. É lógico que a gente pode bater o pé e dizer que não, que os outros estão errados, mas a auto-análise é o primeiro passo pra nos tornarmos aquela pessoa que a gente pensa que é - e gosta. Por isso, continuando a série "Posts de final de ano", fica a pergunta do título: que animal você quer ser em 2008?

Monday, December 17, 2007

Tá na hora de escolher a calcinha

Escrever esse texto me dá até um arrepio. Clichê à parte, parece que foi ontem que Lucy mandou um e-mail desafiando todas as Jones a fazerem uma retrospectiva de 2006. Eram os primeiros meses do blog, a freqüência ainda era razoável e... nossa, é difícil demais comparar. Dois mil e sete foi um ano extremamente intenso. Essa certeza eu tive agora, ao reler meu próprio post, datado de 23 de dezembro. A lembrança da faculdade ainda era recente e o título, "o ano do pato", demonstrava que haviam sido 365 dias (completados depois) de pura experimentação. Nesse, ao contrário, intensidade foi a palavra marcante.

Intensidade essa dividida em três itens: trabalho, rugby e baladas. Se parar pra fazer uma auto-crítica, talvez pareça meio fútil. Mas acontece que os três elementos permearam todo o ano de 2007, em todas as áreas. E agora chega 2008, uma simples mudança de número que traz uma infinidade de novas esperanças, de novos planos. E correndo o risco de deixar - de novo - o meu texto grande demais, vou dar uma paradinha com um poema que adoro.

Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar
e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação
e tudo começa outra vez,
com outro número
e outra vontade de acreditar que,
daqui pra frente...
tudo vai ser diferente.

Carlos Drummond de Andrade



Acho que ele resume bem tudo o que sinto. Desde pequena, aprendi que uma parte importante da virada é a reflexão, mesmo que superficial, do que aconteceu. Do que você fez, de bom, de ruim, de que tipo de pessoa está se tornando (idéia da eterna mutação). Do que você quis fazer e não conseguiu. Não fez porque mudou de planos, não se empenhou o suficiente ou não deu mesmo? Esses planos continuam para o ano seguinte? Quem marcou a sua vida nestes 365 ou 366 dias? Quando você lembra de tudo o que passou, quais os rostos que mais lhe vêm à mente? E com que sentimento?

Com base em tudo isso, traçava planos para o ano seguinte. Coisas que gostaria que acontecesse. Pequenos sonhos para o ano que está começando e que não necessariamente serão realizados. Mas é muito bom pensar que sim. Uma agenda inteira a ser preenchida. E com essas idéias na cabeça a gente cria ou participa de simpatias, rituais.

Na ceia, não pode ter nada que coma andando para trás, porque a vida vai andar pra trás junto. Galinha e porco estão proibidos. O melhor é peixe. Lentilha traz dinheiro, assim como a uva e a romã, mas essas duas só funcionam se comer de pé. Por falar em romã, não lembro direito quantos, mas sei que guardar alguns carocinhos da fruta dentro da carteira também era importante, assim como folhas de louro. Se você passar na praia, pule sete ondinhas. Cada uma pensando em um desejo. Na volta, ande para trás, não dê nunca as costas para o mar ou Iemanjá vai ficar brava. Ela, por sinal, recebe milhões de oferendas todo o ano e devolve para a terra aquelas cujos solicitantes não terão seus desejos atendidos. O resultado, infelizmente, são praias imundas no dia 1o, por isso, parei de jogar as rosas.

À meia-noite, a primeira pessoa a ser cumprimentada deve ser do sexo oposto. E a primeira vez que você entrar em casa tem que ser pela porta da frente e com o pé direito. Se quiser viajar, tire uma mala de dentro do armário e dê uma volta pela casa com ela.

As simpatias são divertidíssimas. É só você não se estressar demais em tentar cumpri-las e começar o ano brava - daí é melhor nem fazer. Uma não muito divulgada é de queimar defeitos - ou pecados. No último dia do ano você escreve o que você quer mudar em você mesma em um pedaço de papel. Cada defeito em um pedaço. Quando fiz, era meio gordinha e, assim como quem me ensinou a simpatia, escrevi "gordura" em um dos papéis. Mas também vale coisas mais complexas como insegurança, arrogância e por aí vai. Não há limite de papéis, mas sempre acho que quanto mais focado você for, mais fácil de atingir seus objetivos. Terminada a primeira parte, junte tudo em algum lugar e coloque fogo. A gente jogou na churrasqueira, mas hoje acho que seria muito mais legal queimar um a um, vendo tudo aquilo que te incomoda desaparecer devarzinho entre as chamas.

Sem defeitos, com a vida andando pra frente e feito um monte de planos, que venha o novo ano, guiado pela escolha certa da calcinha (texto abaixo).

Retrospectiva por cores

Entre todos os rituais de final de ano, um dos mais legais, exatamente por ser simples, é a escolha da roupa. A cor que escolhemos antes de sairmos de casa já mostra nosso ânimo. Não é à toa que às vezes você sai na rua e vê um monte de gente com a mesma cor que você. São pessoas que estão sob a mesma influência, mesmo humor, guiadas pelo tal inconsciente coletivo. Por isso, nada melhor do que na virada do ano você escolher qual cor vai predominar na sua vida nessa nova etapa.

Aqui no Brasil acostumamos a usar branco pedindo paz. Em outros países, o normal é o preto. Mas, debaixo da roupa, onde (quase) ninguém vê, cada um ostenta um desejo secreto. Um pedido delimitado por cores para o ano seguinte. O que você quer para 2008? Paz? Amor? Uma paixão? Prosperidade financeira? Saúde? Proteção? Às vezes, acontecimentos de final de ano podem distorcer sua visão do ano inteiro. Então, para descobrir o que faltou e fazer o pedido certo, nada melhor do que uma retrospectiva. A minha, vai aí embaixo:

Verde (saúde): No arraial do sítio, fizeram um altar pra imagem do Chrygor, mas melhor do que isso teria sido colocar uma bola de rugby ao lado das velas. Apesar de ainda não ter acontecido o milagre do nosso time fazer try em jogos oficiais, o poder da bola oval me fez por dias acordar às 6h da manhã pra correr no parque do Ibirapuera. Melhorei meu condicionamento físico. Fui pra academia e para treinos três vezes por semana. Participamos de três campeonatos, mais alguns amistosos, incluindo um de union. Passei da ponta para centro e terminei o ano jogando até mesmo de abertura, posição que faço toda a questão de devolver.

Amarelo (prosperidade): Se pelo esporte, virei secretária de Lucy, meses depois repeti a função no trabalho, como X-sistent. Tudo isso toma tempo e vicia. Me enfiei de cabeça no trabalho. Minha pulseira amarela caiu e eu não fui pra África. Em compensação, além do emprego de sempre, em que troquei os plantões de final de semana por serões constantes, foram frilas (de jornalismo e publicidade) e toda a infinidade de textos. Intensifiquei meu currículo como repórter. Cara de pau ao extremo, entrevistei até em italiano, que há anos não falava. Por um tempo, o blog também ficou agitado. Nessa brincadeira de querer abraçar o mundo, até pagamento em almoço ganhei.

Branco (paz): conceito relativo esse. Como bem definiu meu irmão, só duas pessoas nesse mundo conseguem me deixar nervosa. As duas, da família. E essa história de mudar de casa - e passar ainda menos tempo nela - acentuou as crises por um tempo. Depois, tudo resolvido. Nicks como "você não gosta dessa casa, né?" ou "é tudo culpa da parede" eram comuns no meu msn. Aliás, seria ótimo fazer uma retrospectiva só com base em nicks de msn. Fora do ambiente familiar, apesar deste ano não ter arrumado encrenca em balada (pelo menos não muita), nem apontado as pintas de meninos mal educados, confesso que tenho me irritado mais freqüentemente.

Preto (proteção): 2007 voltou a ser um ano de perdas. Perda, no singular, mas de grande importância e que mostrou o quanto é bom termos as pessoas queridas (amigos e família) sempre ao lado. O meu chaveiro de amuletos chegou ao fim quando o coração se desfez. O de olho grego, dado pela minha mãe, caiu inteiro e de uma vez - fato que tem se tornado comum entre as Jones.

Rosa e vermelho (amor e paixão): na área dos relacionamentos, uma intensidade diferente, houve alguns começos sem nenhum fim e um fim que não teve um começo de verdade.

Azul (tranqüilidade): nessa, a situação foi ainda pior e a cor azul terminou em déficit. A fama de baladeira se alastrou, juntamente com as olheiras que tomaram pouco a pouco conta do meu rosto. "Se me mato de trabalhar, me mato na diversão também". No começo do ano saí por escola de samba e ganhei o carnaval - mesmo que não tenha sido pela X-9. Em compensação, entrevistei o carnavalesco, simpaticíssimo. Fui pro meu sexto e último Juca como atleta, após dois anos como ex-aluna. Nas festas, até de menina-flor fomos, numa fantasia única, mesmo com chapéu roubado.

Na hora de pensar em tudo o que esse ano foi, bate uma certa tristeza, uma saudade antecipada de tudo o que 2007 foi e de tudo que ele poderia ter sido. Esse texto em si não tem muita razão de ser. Uma auto-reflexão publicada. No fim, serve como agenda, em que contamos tudo o que foi feito e tudo o que não foi feito. Vários textos que pensaram em ser escritos e nunca saíram do rascunho. Festa de um ano do próprio eraumavez, festa de um ano do rugby. Coisas que ficaram e que vão ter que ser compensadas no ano seguinte. Conclusão mesmo, não cheguei a nenhuma. Não lembro da cor usada nem do que pedi no ano passado. Mas acho que é até melhor assim. O legal é curtir as possibilidades naquele momento da passagem. Depois, se os pedidos foram realizados ou não, é insignificante. O que importa é que tenha sido um ano bom.

Wednesday, December 12, 2007

Monólogo inútil

Acho que ele tem namorada. Só pode né? Some, depois reaparece rapidamente e me liga pra gente sair só durante a semana. No aniversário, disse que não sabia se ia comemorar e me chamou pra sairmos outro dia só nós dois. Ou seja, mesmo que ele dê uma festa não vai me chamar. Não pode me apresentar. Se bem que se fosse comigo, também não ia apresentar pros meus amigos sem ter nada. Ah, que ridículo, apresenta, paga de namorandinho e na semana seguinte acaba. Nem se ele me chamasse eu iria. Pelo menos não nessa condição.

A gente se conheceu num sábado. Ele me ligou na segunda. Tá interessado, né? Mas depois sumiu. Tinha o tal problema do TCC, mas não sei. Assim que acabaram as provas marcamos de sair, mas não deu certo. Problemas com trabalho. Isso acho que foi verdade. Ficamos conversando até as 20h e ele ainda estava no escritório. Daí eu que não atendi o telefone. Esqueci, de novo, dentro da bolsa. Coitado, ficou esperando. Ah, mas também... duvido que fosse dar certo. Já tava tarde. Então ele jogou alguma coisa como "durante a semana é complicado". Trabalho, trabalho, trabalho... ah, gente workaholic. Por que ele não é igual todo mundo que trabalha das 8h às 17h? Bom... meus happy hours nunca começam antes das 21h. Quase 12 horas por dia dentro de uma salinha. Daí, lógico que no final de semana tenho que sair, desestressar, não dá pra ficar esperando um convite em cima da hora. Se ele não acontece, vou ficar em casa, morgando? Ver Zorra Total é estar a um passo da decadência. No máximo, ouvir de fundo, sem prestar muita atenção, enquanto se arruma. Ficar em casa também pode ser, mas daí tem que ser um plano mais elaborado, filminho... enfim, tudo combinado com antecedência. Seria muito mais fácil ser uma mulher-namorada, acostumada a ter uma vida mais leve. Meu pai me disse outro dia que estou me acabando. Que exijo demais de mim mesma e que um dia o corpo vai cobrar. Pode ser, mas é melhor assim.

Pensando bem, acho que um dia eu comentei que pra mim era complicado de sábado e domingo, que era melhor durante a semana. Que bonitinho, ele lembrou! O problema é que nem todo mundo agüenta esse ritmo. Talvez aquilo fosse uma deixa pra gente combinar algo no sábado. É, acho que ele não tem namorada, ou ela ia estar viajando. Não, chega de paranóia. Eu, tonta, ouvi aquilo e não ofereci da gente sair no final de semana. Quem sabe da próxima. Mas, também, podia ele ter perguntado né? Se fosse comigo... ai... se fosse comigo eu ia ter certeza que eu tenho namorado.